«As várias vertentes da minha carreira são valências transversais que se complementam e interagem umas com as outras, ajudando-me a definir como profissional. O desafio é descobrir o nosso papel em cada uma destas vertentes, e tentar encontrar a forma de ser mais eficaz e mais útil em cada uma delas. A orquestra é a vertente mais difícil, não escolhemos a música que tocamos e a maior parte das escolhas interpretativas são feitas pelos diferentes maestros. Apesar de tudo isto, é na orquestra que encontro o maior prazer. Como músico, sinto-me um privilegiado por fazer parte de uma orquestra e poder tocar todo o grande reportório, desde as sinfonias de Beethoven às sinfonias de Brahms e Mahler. Gerir uma agenda com todas estas vertentes não é tarefa fácil, no entanto, faço cada uma delas com enorme prazer e paixão o que torna tudo bastante mais fácil».
A violinista da Orquestra Gulbenkian aceitou o nosso desafio para uma entrevista na qual revisitámos algumas fases da sua aprendizagem e da sua carreira. Já correu os quatro cantos do mundo representando Portugal ao mais alto nível e tem a perfeita consciência do quão é difícil abraçar uma carreira de músico no nosso país. «Nunca foi tarefa fácil ser músico em Portugal. A cultura é tratada como algo perfeitamente dispensável e, para muita gente, ser músico ainda é considerado pouco dignificante. Não têm uma pequena ideia dos anos de estudo que ficaram para trás, de quanto foi preciso abdicar a nível pessoal, a nível familiar... Não sabem que, a anteceder cada apresentação, estão muitas horas de preparação individual e de conjunto. Sinto que, em muitas situações, o nosso trabalho não é devidamente respeitado».
«A arte, quase sempre, reflete o estado de espírito das épocas e assim vai assumindo diferentes formas de acordo com as mutações da sociedade. Na atualidade, a vida social e a crise de conceitos e valores têm atingido uma complexidade tal que, com otimismo, pode ser que os nossos dirigentes políticos cheguem à conclusão que tem mesmo que haver uma dinamização e um incentivo à cultura. Constituindo a música, de facto, uma força e uma necessidade para a vida de todos os dias, tem havido um meritório trabalho e uma significativa intervenção, no sentido de chamada à música e de cativar públicos, por parte dos artistas e agentes culturais, falta é a parte dos governantes e autarcas. Embora dependa mais da mudança de visão e de mentalidades dos responsáveis políticos, tenhamos a esperança e aguardemos que o ressurgimento do Ministério da Cultura, aliado e complementado com o Ministério da Educação, consigam proceder ao devido apoio e à necessária aposta na educação artística. Ganharíamos todos nós!»