Zuguambé
De volta ao colorido musical seiscentista em Santa Cruz de Coimbra


Zuguambé

Zuguambé

Agostinho da Cruz; D. Alvarado; Dom Jorge; Pedro de Cristo; et. al.

Capella Sanctae Crucis; Tiago Simas Freire (dir.)

Harmonia Mundi
HMN 916107

2017 / CD


Estamos em plena véspera natalícia, uma altura de encontros e reencontros, uma época que acarreta um toque de festividade único. Os lugares e imaginário que revivemos nesta quadra são sempre diversos e particulares. E aí poderão caber muito bem momentos da nossa história comum.
É o que podemos revisitar com o CD que foi recentemente editado pela Harmonia Mundi, inserido num novo catálogo especialmente criado para a edição de projectos discográficos de jovens talentos:  harmonia#nova. Zuguambé é o terceiro lançamento desta nova série de uma das mais icónicas editoras europeias de música erudita, e resulta de um projecto levado a cabo em primeira mão pela investigação de Tiago Simas Freire (no âmbito da sua pesquisa de doutoramento em Musicologia) e que agora é realizado neste CD com o agrupamento Capella Sanctae Crucis, fundado em 2012 e dirigido pelo próprio T. Simas Freire.

O ponto central é o manuscrito MM.51, de onde foi seleccionado o principal núcleo de obras gravadas, preservado na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, especificamente dedicado às Festas de Natal do ano de 1649, ao Corpo de Deus e Ascenção de 1650, no seio do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, um dos grandes centros musicais em Portugal nos séculos XVI e XVII, a par com os vilancicos negros (ou vilancicos de negro) seiscentistas, tão em voga nas festividades de Natal, inseridos no programa e que pertence a outro manucrito (MM.227).

Este repertório específico e riquíssimo no seio do património musical europeu tem sido pontualmente explorado por músicos e musicólogos, apesar de ainda estar longe da difusão que pode, e deve, merecer. Um dos contributos mais interessantes que antecede este projecto foi levado a cabo por Jorge Matta, desta feita especificamente num outro manuscrito da mesma biblioteca (MM.50), que o maestro explorou também tanto enquanto investigador como numa gravação com o Coro Gulbenkian, em 2007 para a etiqueta Portugaler, intitulada Vilancicos Negros do Século XVII.

Por sua vez, esta nova edição discográfica vai além do repertório exclusivo dos vilancicos negros, com um conjunto  não menos interessante de música escrita para o ofício divino (responsórios e salmos para as Matinas e para as Vésperas), o que acaba por recriar, de alguma forma, a grande diversidade de composições musicais presentes, e “admitidas”, especialmente nas festividades da quadra natalícia em Santa Cruz de Coimbra. Pelo meio intercalam-se também obras instrumentais (com o caso particular do tento, tão particular da composição ibérica nos séculos XVI e XVII) de alguns compositores pertencentes ao Mosteiro de Coimbra e à Ordem de Santo Agostinho ali estabelecida: Diego de Alvarado (c.1570-1643), Agostinho da Cruz (c.1590-1633), Dom Jorge (fl. Séc. XVII) e Dom Pedro de Cristo (c.1550-1618), talvez o mais famoso compositor associado ao Mosteiro de Santa Cruz neste período.

Ao contrário do que de uma forma geral se pode pensar, esta música permite uma vez mais constatar o ambiente celebratório e de grande riqueza e diversidade de práticas e fontes musicais utilizadas na época. Os dialectos, e muitas vezes a fusão entre diferentes tradições linguísticas, são um bom exemplo disso, bem como o é a dose por vezes satírica e arrojada que encontramos nos textos dos vilancicos.
Zuguambé, termo que dá o título a este disco, é precisamente uma de muitas palavras que resultam dessa miscelânea linguística. Faz parte de um dos vilancicos, Zente Pleto, um dos grandes momentos deste CD, e um excelente exemplar deste repertório tão particular e colorido. Para essa riqueza de matizes tão suscitada pela escrita musical destes vilancicos, o agrupamento liderado por Tiago Simas Freire apresenta possibilidades de acompanhamento instrumental que funcionam na perfeição e que não seriam de todo improváveis de realizar aqui e ali uma autêntica revisitação histórica da prática musical nestes momentos.
De qualquer forma, este disco apresenta acima de tudo um património histórico riquíssimo e ainda pouco explorado, numa perspectiva e abordagem bem consciente da sua contemporaneidade do ponto de vista de uma prática interpretativa fundamentada no conhecimento histórico, mas ao mesmo tempo marcada pelo contexto moderno de recriação musical.

O efectivo musical, entre coro e ensemble instrumental, apresenta uma homogeneidade apreciável, apesar de se sentir uma maior naturalidade e fluidez no repertório de vilancicos negros de que na música litúrgica monástica.
A gravação teve lugar na Chapelle Saint Louis, em Lyon, no que aparata ser um local com uma belíssima acústica e reverberação, pelo menos se tivermos em consideração o produto sonoro final atingido neste disco.
Uma edição valorosa de vários pontos de vista e que vale a pena conhecer!

Bom Natal!

 

Tiago Manuel da Hora

Tiago Manuel da Hora

Produtor e Musicólogo, autor de várias publicações, rubricas e argumentos para espetáculos musicais. Com uma intensa actividade no ramo da produção discográfica, assinando edições nacionais e internacionais, tem sido também responsável pela criação, direcção artística e produção de diversos concertos e espetáculos. É investigador do INET-MD da Universidade Nova de Lisboa, onde dedica as suas atenções ao estudo da produção discográfica.

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