Vytautas Bacevičius: Música para piano
Uma agradável surpresa


Vytautas Bacevičius: Música para piano

Vytautas Bacevičius: Piano Music, vol. 2

Gabrielius Alekna

Toccata Classics
TOCC 0328

2016 / CD


Pianista e compositor, Vytautas Bacevičius (1905-1970) é autor de uma obra musical que representa bem algumas das tendências marcantes da composição musical ocidental do século XX.

Nascido em Łódź, na Polónia, mas de nacionalidade lituana, Bacevičius foi o mais representativo compositor lituano do século passado, com um cunho marcadamente modernista. Uma excelente prova disso é a sua música para piano, um quadro que reflete da melhor forma as diferentes influências presentes na música de Bacevičius ao longo de diferentes fases da sua carreira.
Além de uma produção considerável de música orquestral (6 Sinfonias, 4 Concertos para Piano, entre outras obras relevantes), destaca-se a sua música para piano solo.
A música escolhida para este segundo volume que a Toccata Classics edita com música para piano de Vytautas Bacevičius abrange um intervalo temporal de cerca de 4 décadas (entre 1927 e 1966), o que resulta num programa muito variado do ponto de vista da abordagem estilística. Lançado no passado mês de Setembro, este CD é uma agradável surpresa, nomeadamente pelo facto de se tratar não apenas de música em grande parte nunca antes gravada, mas sobretudo por estarmos perante interpretações que denotam um largo conhecimento do repertório. Gabrielius Alekna apresenta uma abordagem segura, com uma dose de fluidez de salutar, que permite conferir uma naturalidade imprescindível à interpretação das obras escolhidas.

O percurso de Vytautas Bacevičius enquadra-se no mesmo modelo de tantas biografias de muitos artistas do leste europeu que foram obrigados ao exílio nos Estados Unidos da América nos meandros da 2ª Guerra Mundial – no caso concreto de Bacevičius, no Verão de 1939, quando as forças Nazis invadiram a Lituánia.
Mas ainda antes de se fixar em New York... Paris! É entre 1927 e 1931, período em que Bacevičius estudou com Santiago Riéra (piano) e Nikolai Tcherepnin (composição), na cidade luz, que despontam as primeiras obras deste novo CD. Aí encontramos uma linguagem com marcadas influências da música de Aleksandr Scriabin e de Claude Debussy. Exemplos capitais disso mesmo são o Poème Astral op.7, e o Poème n.º 4 op.10. Das influências da música francesa, passando pela escrita de Prokofiev e Stravinsky até a composições que demonstram muitos pontos de contacto com a música de Edgard Varèse ou Stefan Wolpe (ambos também exilados em New York) este álbum é uma verdadeira viagem ao longo de um período significativo de sucessivas inovações na composição musical no século XX, em que a música de Bacevičius carece ainda de algum reconhecimento nos nossos dias. Prova disso é o facto de grande parte das obras neste CD encontrarem-se em primeira gravação absoluta. São os casos da Fantasia op.39, Étude n.º 4 op.43, a Sonata n.º 4 op.53, Dance Fantastic op.55, Evocations op.57 e o Étude n.º 5 op.61.
De entre essas composições destaco a Sonata n.º 4, escrita entre 1952-53, onde ainda marca presença a influência francesa acima referida, mas ao mesmo tempo vislumbram-se rasgos de um modernismo na direcção do que viria a ser o radicalismo muitas vezes associado às últimas obras de Bacevičius, o “lituano radical” como lhe chama Sarunas Nakas – compositor, ensaísta, maestro e director artístico de vários projectos, uma das autoridades de meio musical lituano da actualidade.
Outra obra que desperta especial interesse é Evocations, op. 57, uma composição que parte de uma suite de 3 movimentos (Vision, Humoresque, Méditation), de grande exigência técnica, ao mesmo tempo que apresenta uma complexa e refinada elaboração do material temático em torno de pequenas e simples figuras melódicas que se vão interpolando e dialogando, ao longo de 3 movimentos que chegam a assumir uma retórica quase humorística em certos momentos, fruto de um trabalho meticuloso entre o material melódico, as estruturas rítmicas e uma grande variedade de ornamentação e recursos expressivos.
Destaque ainda para a inclusão de Trois Pensées musicales op.75, o último “opus” de Bacevičius, escrito em 1966, onde o radicalismo musical das suas últimas obras está bem patente.

Gabrielius Alekna, compatriota de Bacevičius, revela-nos esta música com grande elegância, através de uma articulação muito segura, de um apurado sentido rítmico, e de um bom equilíbrio entre uma leitura intimista e leve, simultaneamente. Estes são atributos que ajudam, sem sombra de dúvida, a uma audição aprazível de obras desconhecidas, como é o caso de grande parte do programa deste disco, o que nem sempre é fácil de atingir numa tarefa desta natureza.

Um pequeno senão, a meu ver, encontra-se no trabalho de som, que nos transmite uma atmosfera acústica muito fria e crua, parca de brilho e riqueza tímbrica. A verdade é que esta gravação apresenta uma opacidade indesejável para um repertório deste tipo, resultando num produto final sonoro em que o piano carece de corpo e de alguma presença. É pena que a captação e o trabalho de edição áudio tenha resultado num plano sonoro distante, nomeadamente se tivermos em consideração o carácter eminentemente intimista das obras escolhidas por Gabrielius Alekna para este segundo volume.
Tratando-se de uma gravação efetuada em 2015, esperava-se que pudesse garantir uma melhor espacialidade e ao mesmo tempo um melhor recorte sonoro. De qualquer forma, esse é um mal menor se tivermos em consideração outros aspectos valorosos desta edição: a boa música, a adequada e convincente abordagem interpretativa.

Este segundo volume da música para piano integra uma interessante discografia que a Toccata Classics tem vindo a publicar em torno da música de Bacevičius, desde gravações históricas com o próprio compositor à frente da Orquestra Sinfónica do Estado da Lituánia, até às mais recentes edições com interpretações de Gabrielius Alekna, entre outros.
Altamente recomendável, este álbum é um bom cartão de visita para um compositor que merece uma maior difusão. Um compositor, que apresenta na sua música uma ponte entre as reminiscências do fin de siécle e as tendências mais vanguardistas do pós 2ª Guerra Mundial. Um compositor que ficou também conhecido por ter desenvolvido a teoria de “música cósmica”. Uma obra que vale a pena conhecer e escutar profundamente!

 

Disponível em: https://toccataclassics.com
Disponível em Portugal na loja da Companhia Nacional de Música (Lisboa, Chiado).

Tiago Manuel da Hora

Tiago Manuel da Hora

Produtor e Musicólogo, autor de várias publicações, rubricas e argumentos para espetáculos musicais. Com uma intensa actividade no ramo da produção discográfica, assinando edições nacionais e internacionais, tem sido também responsável pela criação, direcção artística e produção de diversos concertos e espetáculos. É investigador do INET-MD da Universidade Nova de Lisboa, onde dedica as suas atenções ao estudo da produção discográfica.

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