Venezia Millenaria
A revisitação de um legado cultural histórico deslumbrante


Venezia Millenaria

Venezia Millenaria (700-1797)

Hespèrion XXI; Panagiotis Noechoritis; La Capella Reial de Catalunya; Le Concert des Nations; Jordi Savall.

Alia Vox
AVSA9925

2017 / Livro + 2 CD


Quantas vezes criamos imagens, canonizamos ideias, e delimitamos o alcance de um dado contexto histórico através de um imaginário estanque que se vai perpetuando? E, no entanto, esses matizes (de uma história e de muitas outras estórias) são tantas vezes apenas uma versão possível, ou uma face daquilo de que se compõe essa teia riquíssima que é, sempre, a história. 

Jordi Savall demonstra, mais uma vez, que podem existir muitas histórias dentro da história, ou mais elementos a enriquecer as narrativas petrificadas, que se instituem sobre um dado momento, espaço ou enquadramento. Depois de ter lançado In Excelsis Deo: Au temps de la guerre de Succession d'Espagne (1701-1714) em meados de Outubro de 2017 – um disco composto por momentos recolhidos de concertos ocorridos em 2016 na Capela Real de Versailles, com as sumptuosas missas de Francesc Valls (1671-1747) e Henry Desmarest (1661-1741), complementado com um conjunto de música catalã sob arranjos da autoria do próprio maestro catalão – no final do ano passado Savall e a Alia Vox voltaram às edições em livro (+ 2 CD) com as quais têm brindado nos últimos anos o público melómano.

Este novo título - Veneza Millenaria (700-1797) - alia o património histórico de grande riqueza e diversidade que marca a cidade de Veneza (a mescla do legado bizantino, gótico, renascentista, barroco), em perfeito fluxo com um programa musical diversificado. Um autêntico Gran Canal que se reflete num álbum dividido em 7 partes, organizadas cronologicamente num largo espectro que vai desde o século VIII ao final do XVIII.
O programa reúne música dos grandes mestres que fizeram de Veneza um dos principais centros europeus no Renascimento e Barroco, sobretudo Adrian Willaert (1490-1562) e a denominada Escola Veneziana (tradição fundada pelo mestre flamengo), aqui também representada por música de Andrea Gabrieli (1533-1585), depois Claudio Monteverdi (1567-1643) e posteriormente Antonio Vivaldi (1678-1741). Mas, além destes grandes mestres cuja música fluiu desde a praça de São Marcos até à corrente dos canais venezianos, o programa delineado por Jordi Savall, com a parceria de Sergi Grau para o aparato histórico complementar, estabelece uma narrativa deslumbrante, com música que terá muito possivelmente marcado presença na vida musical veneziana ao longo dos mais de mil anos de história celebrados neste álbum, centrado em estabelecer uma forte afinidade entre ocidente e oriente, que não é de surpreender. Um dos casos mais evidentes é a inclusão de Lamentio Sanctae Matris Ecclesiae Constantinopolitanae de G. Dufay (1397-1474), que convive em perfeita sintonia com música de Ioannes Damaskinos, compositor grego do século VIII, música de tradição otomana, mas também a inclusão do Allegretto da Sonata para piano nº 11, “Alla Turca”, de W. A. Mozart, apontando para a sua visita a Veneza em 1771, através de um arranjo de Savall para agrupamento instrumental que, verdade seja dita, não é das melhores interpretações desta gravação. Momentos de maior exuberância e excelência interpretativa encontramos, por exemplo, na interpretação de Qamti be-Ishon Layla, extraído do livro do Cântico dos Cânticos, incluída neste programa para assinalar a fundação da primeira sinagoga no “guetto novo”, bem com o madrigal Oíd, Oíd de Joan Brudieu (1520-1591), que é um dos melhores momentos deste álbum duplo, com efectivo vocal e instrumental numa prestação cativante.
Contam-se ainda nesta narrativa episódios como a visita de Marco Polo em 1295, as nomeações de Willaert ou Monteverdi como mestres de capela de São Marcos, a par com a implementação das tradições ortodoxa e judaica na cidade. Não falta a referência ao carnaval veneziano e o final da prosperidade e deslumbre de uma Veneza que ficou para trás, uma Pátria que viria a ser anexada ao Reino de Itália em 1797, ponto final da história recriada nesta edição. Este álbum assume uma perspectiva muito rica de contar a história de uma cidade com um ADN cultural marcadamente complexo, aventureiro, inconformista e irresistivelmente camaleónico. Ou não será esta a «pátria» de Giacomo Casanova (1725-1798), uma das mais famosas e míticas figuras dos meandros da vida veneziana do século XVIII?

Este programa dispara um pouco em todas as frentes, mas a mestria dos agrupamentos liderados por Jordi Savall é uma força essencial para que essa multiplicidade de sonoridades e pontos de contacto culturais estabeleçam um fio condutor lógico entre história e prática musical, com um resultado que, com maior ou menor novidade, com repertório revisitado e outro novo, acaba por ser sempre uma agradável e consistente surpresa. Uma gravação em concerto, um momento musical imperdível pelo retrato singular de um património histórico e musical imensamente rico, pela qualidade interpretativa e pelo produto eminentemente artístico que, uma vez mais, Jordi Savall e um núcleo de colaboradores de grande categoria em diferentes áreas (investigação musicológica, conceptualização de projectos musicais, historiografia e prática performativa), conseguiram com grande mestria conceber.

 

Tiago Manuel da Hora

Tiago Manuel da Hora

Produtor e Musicólogo, autor de várias publicações, rubricas e argumentos para espetáculos musicais. Com uma intensa actividade no ramo da produção discográfica, assinando edições nacionais e internacionais, tem sido também responsável pela criação, direcção artística e produção de diversos concertos e espetáculos. É investigador do INET-MD da Universidade Nova de Lisboa, onde dedica as suas atenções ao estudo da produção discográfica.

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