Schumann: Música para Piano
Redescoberta permanente por caminhos infindáveis


Schumann: Música para Piano

SCHUMANN

Vladimir Feltsman

Nimbus Alliance
NI 6324

2016 / 3 CD


Muitas vezes esquecemos como as coisas aparentemente simples podem acarretar em si mesmas um conjunto de enorme complexidade. Como podem ser um pequeno mote para um mundo novo, incomensurável.
A música de Schumann é um bom exemplo disso. Tem uma naturalidade tão própria que de uma forma simples nos faz predispostos a escutá-la, a contemplar e vivenciar esse mundo. Um “click”, que se dá da forma mais simples, imperceptível até, e que torna a sua audição um despoletar de novos horizontes, de ramificações e caminhos infindáveis, pelos quais o ouvinte tem o prazer de viajar, de se perder, talvez, com prazer, e uma veia única de introspecção que passa inevitavelmente do compositor para o intérprete e, por conseguinte, para o ouvinte.
Para mim, e creio não ser caso único, ouvir a música de Schumann para piano trata-se de uma viagem, de uma caminhada, repleta de momentos de aprazível solidão, contemplação, vivacidade também. Na verdade, também para o intérprete que se predispõe a trabalhar este repertório há uma eminente viagem, uma odisseia, em que cada personalidade percorre um caminho diferente. Mas ainda antes, já uma jornada foi vivida pelo autor, aquele que um dia escreveu: “Quando estás a tocar, não te preocupes com quem possa estar a ouvir.” Estas palavras reflectem bem uma das facetas dominantes da música para piano de Schumann: uma música que emana da individualidade do seu autor. Uma música, que precisamente fruto dessa identidade individual, se tornou um monumento universal no seio da literatura musical.

Acabado de ser lançado no mercado internacional, o álbum intitulado simplesmente Schumann, de Vladimir Feltsman, reúne alguma da melhor música para piano de todos os tempos, numa edição da Nimbus Alliance, em 3 CD.
Vladimir Felstman, pianista de origem russa (nasceu em Moscovo em 1952) e radicado nos Estados Unidos da América desde 1987, tem acumulado uma vasta discografia com um alargado âmbito de repertório – desde J. S. Bach até Schnittke, passando por Scriabin, Rachmaninoff, Tchaikovsky ou Schubert. Este novo álbum dedicado inteiramente à música de Robert Schumann é um reencontro com o compositor ao qual Feltsman já havia dedicado outro CD, também editado pela Nimbus, em 2015, em que o pianista gravou o Album für die Jugend, op.68.
Nesta nova edição de maior envergadura encontramos interpretações de grande qualidade, numa autêntica viagem, necessária e desejável a quem se aventura a um projecto desta natureza.
O primeiro CD reúne as 13 pequenas peças de Kinderszenen, op.15, inspiradas nas crianças, em episódios de infância – não música escrita para as crianças, como por vezes se possa erradamente sugerir. Este primeiro disco integra também uma excelente interpretação de Arabeske, op.18, a par com Blumenstück, op.19 e ainda os 8 movimentos da famosa Kreisleriana, op.16, a meu ver o momento alto deste primeiro CD.
O segundo disco reúne os ciclos Faschingsschwank aus Wien, op.26, Waldszenen, op.82, e Phantasie, op.17.
No terceiro volume Feltsman interpreta Albumblätter, op.124, Carnaval, op.9, dois conjuntos de peças que fazem parte de Bunte Blätter, op.99 e ainda o Romance n.º 2, da colecção de Romanzen op.28.

Vladimir Feltsman, Pianista

Ao longo destes três discos denota-se a preocupação do intérprete em garantir uma noção narrativa, inerente a toda a música de Robert Schumann. No que diz respeito a este aspecto particular, estas interpretações conseguem atingir o seu propósito comunicativo. Há também, em contrapartida, momentos do que se pode considerar uma exagerada liberdade, nomeadamente do ponto de vista rítmico, por vezes quase improvisatória, que podemos encontrar com maior clareza em Kinderszenen. No entanto, a par com uma articulação e rigor técnico assinaláveis há que destacar a riqueza dinâmica que é garantida por Feltsman, muitas vezes levando esse pormenor a um extremo repleto de minucia. Esse é também um dos elementos que conferem esse carácter eminentemente narrativo, por vezes declamatório, a estas interpretações e que não deixa nada a desejar a algumas gravações históricas de referência.
Através de um profundo conhecimento do repertório em que se aventurou nesta gravação, Feltsman alia com mestria momentos de grande lirismo, a par de outros trechos de uma vivacidade virtuosística inequívoca, como podemos apreciar no Finale de Faschingsschwank aus Wien.
A vivacidade, energia e sensibilidade que encontramos na interpretação de Carnaval resulta na perfeição e comprova como Vladimir Feltsman está num território em que se move como peixe na água, onde é notória uma grande naturalidade e fluidez ao longo de toda a audição. Denota-se o prazer com que Feltsman aborda este repertório. Não será por acaso que gravou toda esta exaustiva quantidade de música em apenas 5 sessões de gravação. Gravação essa que poderia ter levado a um produto sonoro final mais conseguido, nomeadamente do ponto de vista da envolvência que poderíamos desejar neste tipo de repertório e até para potenciar a abordagem interpretativa de Feltsman. Por vezes sente-se a falta de uma maior presença dos registos médio e grave, parecendo o piano quase pairar sobre as nuvens, o que acaba por se tornar numa imagem sonora que leva o conceito de “romântico” um pouco além do esperado.
Em todo o caso, estes pormenores não ferem de forma alguma a qualidade geral desta edição, que é um excelente companheiro de viagem, seja qual for a sua natureza e o sentido que lhe queiramos conferir.
E isso leva-nos de novo à questão inicial.

A música de Schumann é diferente. Sim, poder-se-á dizer “mas cada compositor tem a sua própria identidade musical, logo a música de cada um será necessariamente diferente”. Talvez. Nem sempre é assim. Mas no caso particular de Schumann, a sua música adquire uma identidade que se destaca. Basta o simples facto de que ao ouvirmos um pequeno trecho, detectamos logo o toque inconfundível do seu autor. Mas não só. A verdade é que a música de Schumann atinge características tão particulares que, consciente ou inconscientemente, pequenos modelos, pequenas fórmulas que lhe são tão características, ainda hoje em dia se podem encontrar com facilidade, de forma mais ou menos dissimulada, em muitas criações musicais, não apenas no seio da escrita erudita (talvez até pelo contrário).
Mas voltando à música de Robert Schumann, talvez seja mesmo no seio da sua música para piano que podemos apreciar algumas das mais sublimes passagens musicais de toda a sua riquíssima produção, com um lirismo e uma capacidade discursiva incomuns.
Como refere Feltsman nas notas ao programa deste álbum que, diga-se, são um excelente texto, repleto de informação pertinente e consistente, “com Schumann, o som em si mesmo, a sua cor e textura, torna-se um elemento integral da estrutura musical [...] as texturas sofisticadas e sobrepostas das suas obras para piano incutiram uma nova profundidade à nossa percepção musical.” Sem dúvida! E esse facto, além do génio criativo de Schumann é, em parte, também despontado por um perfil de artista (antes de músico ou compositor) que Robert Schumann edifica. Não podemos esquecer que estamos perante alguém extremamente versátil, um homem multifacetado que não esteve apenas activo como compositor, mas também como maestro, jornalista e crítico musical, e essa bagagem é fruto de uma personalidade eminentemente criativa e tem, ao mesmo tempo, reflexo no seu percurso e construção como artista. Daí que a sua música seja também a sua voz, um espelho das suas ideias, e por isso seja uma entidade musical tão única dentro de todo o universo da escrita musical do século XIX. E, acima de tudo, um mundo de redescoberta constante.

 

Disponível em: www.nimbusrecords.co.uk
Disponível em Portugal na loja da Companhia Nacional de Música (Lisboa, Chiado).

Tiago Manuel da Hora

Tiago Manuel da Hora

Produtor e Musicólogo, autor de várias publicações, rubricas e argumentos para espetáculos musicais. Com uma intensa actividade no ramo da produção discográfica, assinando edições nacionais e internacionais, tem sido também responsável pela criação, direcção artística e produção de diversos concertos e espetáculos. É investigador do INET-MD da Universidade Nova de Lisboa, onde dedica as suas atenções ao estudo da produção discográfica.

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