Rediscovering Spain
Uma forma diferente de viver a música antiga


Rediscovering Spain

Rediscovering Spain: fantasia, diferencias & glosas

Cabezón; Guerrero; Machado; Guerrero; Sanz; Alqhai; Solinís

Accademia del Piacere; Fahmi Alqhai; Raquel Andueza

Glossa
GCD P33201

2013 / CD


O título parece sugerir, à primeira vista, que estamos perante um novo contributo em torno de repertório menos conhecido da música antiga espanhola. Mas, na verdade, em Rediscovering Spain a redescoberta assenta sobretudo numa nova abordagem, numa leitura que procura escapar aos modelos convencionais da “interpretação historicamente informada” e tentar actualizar os nossos ouvidos.

A Accademia del Piacere, que recentemente se apresentou em Portugal, no concerto de abertura do 13º Terras Sem Sombra (11 de Fevereiro de 2017), apresenta um programa que não é, de todo, uma novidade. Encontramos neste disco algumas das mais belas, mas também mais gravadas, obras da tradição renascentista e barroca espanhola. Este disco apresenta uma quantidade significativa de obras já muito difundidas, onde se contam a famosa Corrente Italiana de J. Cabanilles (1644-1712) ou La dama le demanda de Antonio de Cabezón (1510-1566). No entanto, a redescoberta faz-se pelo génio criativo de alguns dos elementos que integram a Accademia del Piacere, através de arranjos, adaptações e composições para um agrupamento instrumental de 14 elementos, ao qual se junta o soprano Raquel Andueza. É, aliás, esse um dos fortes argumentos desta edição: a vontade de abordar não apenas o repertório antigo propriamente dito, mas, e acima de tudo, o conhecimento teórico e histórico desse património, de uma forma inventiva, tanto do ponto de vista da prática como da criação e recriação musical. Assim, surgem aqui novas composições de Fahmi Alqhai (gambista, director musical do agrupamento), como é o caso da Glosa sobre el Mille Regretz de Josquin ou as Diferencias sobre Guárdame las vacas, inspirada na muito difundida peça homónima de Antonio de Cabezón, a par com outras composições elaboradas por Eurike Solinís (intérprete de vihela, guitarra barroca e colascione), com destaque para a sua incursão numa Fantasia também a partir da “chanson” Mille Regretz de Josquin Després (c.1450-1521). A colorir este programa surge ainda repertório de Gaspar Sanz (1640-1710), Manuel Machado (c.1590-1646), Francisco Guerrero (1528-1599) e Hernando de Cabezón (1541-1602).

Se a abordagem interpretativa é assumidamente diferente, onde é facilmente constatável uma fusão entre o conhecimento histórico e contemporâneo (onde por vezes também se intrometem influências da música de tradição popular espanhola), a opção de gravar este repertório em estúdio não é menos curiosa. Sim. Leu bem. Em estúdio! Mais concretamente nos estúdios Sputnik, em Sevilha. Uma opção que é assumida e reiterada com a maior naturalidade, desde logo pela alargada reportagem fotográfica que encontramos no “booklet” desde CD, repleto de imagens do trabalho de gravação e edição em estúdio, às quais se juntam dois textos da autoria de Fahmi Alqhai e de Juan Ramón Lara (violone da Accademia). Esta é uma opção que poderá parecer um pouco desajustada num contexto actual em que está bem enraizada a noção de gravar este tipo de repertório em locais que permitam explorar acústicas em concordância com aquilo que se conhece do ponto de vista histórico em torno do repertório e da sua prática histórica. Convenções e opções estético-acústicas à parte, o som é limpo, de uma profunda clareza, com todo o recorte e corpo que se pode garantir numa gravação em estúdio, mas há uma predominância da presença dos instrumentos de percussão que parecem muitas vezes estar num plano mais próximo que os restantes, o que torna a audição um pouco cansativa em alguns momentos.

Rediscovering Spain trata-se do primeiro álbum da Accademia del Piacere na conceituada etiqueta espanhola Glossa. É uma nova abordagem, tanto do ponto de vista interpretativo como puramente criativo, a partir de um repertório que já foi inúmeras vezes gravado, por artistas de referência. Aqui ganha um novo fôlego, diferente, mas que consegue em alguns argumentos ser igualmente eficaz. Os músicos são de altíssima qualidade, a edição conta com o habitual aparato gráfico da Glossa (série "platinum"), e o programa torna-se um híbrido entre um património conhecido e difundido e novas contribuições criativas, assente na exploração de novas possibilidades para esse mesmo repertório – uma marca distintiva que Fahmi Alqhai tem garantido ao longo dos últimos anos.

Este é um disco que representa muito bem algumas das novas tendências que surgem cada vez mais em torno do repertório da chamada “Música Antiga”, com novas gerações de intérpretes que procuram trazer algo de novo, numa tentativa de actualização, histórica e musicalmente sustentada, dos modelos de interpretação tanto desse património musical como do corpus teórico seu contemporâneo. A partir desse ponto de vista, e enquadrada nessa vertente estético-interpretativa, esta edição é um trabalho de excelente qualidade.

Tiago Manuel da Hora

Tiago Manuel da Hora

Produtor e Musicólogo, autor de várias publicações, rubricas e argumentos para espetáculos musicais. Com uma intensa actividade no ramo da produção discográfica, assinando edições nacionais e internacionais, tem sido também responsável pela criação, direcção artística e produção de diversos concertos e espetáculos. É investigador do INET-MD da Universidade Nova de Lisboa, onde dedica as suas atenções ao estudo da produção discográfica.

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