Mirror of the soul
Múltiplos reflexos

26/04/2017, Ricardo Vilares

Mirror of the soul

Mirror of the soul

E. Carrapatoso; S. Azevedo; N. Côrte-Real; D. Davis

Ensemble Darcos

Odradek
ODRCD336

2016 / CD


A atividade criativa, altamente prolífica, dos compositores contemporâneos portugueses tem revelado um pluralismo estilístico e diferentes tendências estéticas. O presente CD, com selo da Odradek Records, regista quatro obras, de outros tantos compositores portugueses, ancoradas numa individualidade criativa influenciada por diferentes universos musicais e artísticos, mas que, nas palavras de Afonso Miranda, responsável pelo texto que acompanha a gravação, «aspiram a uma música livre, uma música expressiva, comunicativa e percetiva, e procuram uma linguagem que restitua à arte musical a sua dimensão humana.»

O título do álbum, constituído por obras de música de câmara para uma formação constituída por violino, viola, violoncelo e piano, é tomado da obra homónima de Eurico Carrapatoso (n. 1962), com que inicia o registo fonográfico. Espelho da alma, que tem como subtítulo pequena orografia musical portuguesa, teve a sua estreia em 27 de novembro de 2009, no Teatro-Cine de Torres Vedras. Eurico Carrapatoso construiu esta obra como uma suite, composta por sete peças, estruturada com base na alternância de andamentos e de caráter. Numa espécie de mapa cartográfico, o compositor evoca o folclore português, recorrendo, sobretudo, a melodias tradicionais transmontanas e açorianas.
A sua poética, assente numa linguagem tonal/modal, recorre também à citação de páginas da tradição erudita ocidental, através do pastiche, como ilustra o quarto andamento (Pícaro), que utiliza no seu final fragmentos da sonata Facile de Mozart.
O primeiro dos andamentos (Eterno) evoca sonoridades etéreas, do domínio do onírico, através do registo agudo e das ressonâncias do piano e dos harmónicos no violino, que servem de apoio ao canto do violoncelo e da viola. Este carácter sonhador e poético acaba por atravessar os restantes andamentos lentos da suite, marcados, igualmente, por uma certa nostalgia. Por sua vez, os andamentos rápidos (Pírrico, Careto), de carácter contrastante, aproximam-se de danças.
A obra é rica em texturas e coloridos, como ilustra o terceiro andamento (Sedoso), e evidencia um certo sentido de humor e ironia.
A música de Sérgio Azevedo (n. 1968) cujo «estilo sincrético resulta de um compromisso entre modernidade e tradição, aliando rigor construtivo e clareza percetiva», encontra-se representada no disco através de V mlhách…1912. A obra tem como ponto de partida material musical extraído de uma peça de piano de Janáček, de 1912, intitulada Nas brumas. Três fragmentos curtos de Janáček são reorganizados e metamorfoseados pelo compositor, construindo a partir deles uma obra sedutora e com uma grande força rítmica.
Lembras-te, meu amor, das tardes outonais…, de Nuno Côrte-Real (n. 1971), resultou de uma encomenda para a edição de 2014 do Festival Internacional de Música de Póvoa de Varzim. A harmonia transparente, a energia rítmica e o lirismo melódico da obra foram inspirados pelo poema Elegia do amor, do escritor português Teixeira de Pascoaes. A primeira secção, marcada pela atmosfera do poema, desenha-se em torno de um contraponto nostálgico que vai adquirindo amplitude dramática. A seção central, mais longa, apresenta um carácter encantador e hipnótico, enquanto a secção final explora o jogo rítmico e motívico entre as cordas e o piano. «Como uma ideia fixa, a música circula, não desenvolve, e, tal como o poema de Pascoaes, não vai a lado algum. Cresce, decresce e desaparece nas brumas da memória.»
O compositor mais jovem do conjunto, Daniel Davis (n. 1990) explora através das suas Viagens, em quatro andamentos, diferentes atmosferas, coloridos e paisagens sonoras. Nesta obra, composta, em 2013, para o Ensemble Darcos, são de enaltecer os recursos rítmicos e tímbricos variados e a verve expressiva.

Neste registo fonográfico, inteiramente dedicado à música erudita portuguesa contemporânea, o Ensemble de Arcos, fundado por Nuno Côrte-Real em 2002, um dos mais destacados grupos de música de câmara portugueses, com uma atividade artística internacional, denota uma preocupação na divulgação do repertório que tem conquistado um importante espaço em festivais e salas de concerto dentro e fora de portas.
Os quatro instrumentistas que compõem esta formação enaltecem as qualidades poética e líricas da música gravada. A sua interpretação revela uma grande energia e vivacidade rítmica, uma capacidade excecional em captar diferentes atmosferas, caracteres e coloridos tímbricos e uma intensa capacidade expressiva, assente num bom entrosamento entre todos os elementos do grupo.

O disco propicia uma viagem a um passado, que se faz presente e futuro, uma viagem poética e interior, que funciona como um espelho da alma onde se vê refletido toda a riqueza dos seus criadores, ampliada pelos seus intérpretes e com fortes ressonâncias nos seus ouvintes. 

Ricardo Vilares

Ricardo Vilares

Ricardo Vilares é licenciado em História e Teoria da Música, pela Universidade de Évora, e mestre em musicologia, pela Universidade de Aveiro, com a dissertação intitulada “Um sagrado enlevo: Moreira de Sá e o culto da música de câmara no Porto”.
Foi professor assistente convidado no Instituto Piaget Nordeste e na Universidade do Minho. Presentemente, é docente de História da Cultura e das Artes – História da Música no Conservatório de Música do Porto. Tem, igualmente, desenvolvido uma atividade enquanto redator de notas de programas e comentador de recitais e concertos, entre os quais se destaca “Um recital e uma obra de arte”, promovido pelo CMSM e Câmara Municipal do Porto.

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