Llibre Vermell de Montserrat
A evocação de memórias míticas


Llibre Vermell de Montserrat

Llibre Vermell de Montserrat

La Capella Reial de Catalunya; Hespèrion XXI; Jordi Savall (dir.)

Alia Vox
AVSA9919

2016 / CD + DVD


A montanha de Montserrat, monumento grandioso rochoso de pedra milenar, a resguardar a sua Abadia nos limites da região da Catalunha, é um ícone histórico, uma presença basilar da cultura catalã, uma referência única na geografia mitológica da região. O culto de devoção religiosa em torno de Montserrat e de “La Moreneta” (a Virgem Negra de Montserrat) remonta aos finais do século IX, e encontra-se até hoje repleto de relatos de acontecimentos milagrosos, visões e todo um conjunto de episódios, no mínimo, enigmáticos.
Montserrat é um símbolo sagrado da Catalunha, que tem marcado uma presença constante ao longo da vida de um dos mais destacados artistas catalães de todos os tempos: Jordi Savall. É uma caminhada de encontros e desencontros que o mestre catalão tem vivido desde criança até aos nossos dias e que viria a intensificar-se definitivamente em meados de 1955. Nesse ano, em que um jovem Jordi Savall iniciava os seus estudos de violoncelo, que depois iria trocar definitivamente pela viola da gamba, o grande mestre musicólogo Higinio Anglés (1888-1969) publicava o seu estudo e transcrição do Llibre Vermell. Dez anos decorridos, em 1965, e nos anos que se seguiram, Savall revisitou o códice de Montserrat recorrentemente num estudo profundo com Montserrat Figueras em torno da riquíssima música sacra e danças que se encontram coligidas nesse manuscrito.
Da Abadia de Montserrat, em cuja biblioteca se encontra este manuscrito medieval, até ao público que tem apreciado este riquíssimo património musical, está um percurso de inúmeros concertos que Savall e seus agrupamentos tem dedicado a este repertório, em programas que se foram configurando ao longo do anos em diferentes versões e selecções. Mas este tesouro musical fica registado para a eternidade sobretudo através de gravações memoráveis e insubstituíveis que colocaram este repertório no mapa da mais rica polifonia da alta Idade Média.

Remonta ao ano de 1979 a primeira gravação, absolutamente icónica, do Llibre Vermell de Montserrat levada a cabo pelo Hespèrion XX, integrada na série discográfica Reflexe (dirigida por Gerd Berg para a EMI Electrola). A Reflexe consistiu numa das colecções pioneiras para a emancipação do movimento da “nova” música antiga assente no conhecimento fundamentado de técnicas, teoria e instrumentos históricos, e as suas edições contribuiram de forma decisiva para a difusão de uma nova geração de grandes intérpretes. Além de um Hespèrion XX ainda com o seu elenco original (Lorenzo Alpert, Hopkinson Smith, Montserrat Figueras e o próprio J. Savall) este disco conta ainda com um efectivo instrumental mais alargado, a par com a participação dos agrupamentos vocais Atelier Vocal du Centre d’Abbaye aux Dames, Coral Carmina, Niños Cantores de Navarra.
As edições da Reflexe marcaram um ponto de referência na história da música antiga ao longo dos anos 70 e 80 do século passado, e foram também um importante meio de divulgação de novo repertório, até então desconhecido, que agora surgia pela primeira vez disponível. De entre o catálogo da série Reflexe, a gravação do Llibre Vermell é, sem dúvida, uma referência de topo. Não será por acaso que este registo de 1979 já foi alvo de sucessivas reedições ao longo dos últimos 40 anos, uma «gravação mítica» como o próprio Jordi Savall salienta no testemunho incluído no booklet deste novo CD que recupera este programa, lançado em finais de 2016.

A partir do tesouro musical que o Llibre Vermell compila, Jordi Savall criou um programa que difundiu não apenas através do sucesso admirável da primeira gravação, bem como de inúmeras apresentações em concerto pelos 5 continentes ao longo das últimas 4 décadas. Temos agora uma nova gravação da primeira versão que Jordi Savall realizou conjuntamente com Montserrat Figueras.

Savall figueras
Este novo CD consiste numa gravação em concerto, uma nova leitura igualmente intensa e requintada de Jordi Savall e dos seus agrupamentos, Hespèrion XXI e os solistas de La Capella Reial de Catalunya.
Neste novo álbum, exceptuando a antífona Virgo splendens, que abre e fecha o programa em diferentes versões (monódico ou em canon a 2 e 3 vozes), sobressai um programa em torno da forma do virelai, desta feita antecedido de improvisações instrumentais introdutórias, pelos exímios intérpretes que de Hespèrion XXI, a partir dos motivos melódicos de cada uma das diferentes peças seleccionadas do códice de Montserrat. Trata-se de um concerto com uma dinâmica exemplar, o que vem sendo um argumento de peso nos últimos álbuns de gravações em concerto do catálogo inesgotavelmente rico da Alia Vox.
E, como Midas, Savall (quase sempre) em tudo o que toca faz ouro. É isso que podemos constatar com a histórica gravação de 1979, foi isso que já milhares e milhares de espectadores puderam constatar nos inúmeros concertos com este programa, e é isso que podemos novamente apreciar nesta nova gravação. A naturalidade e homogeneidade interpretativa é reveladora do profundo conhecimento destes intérpretes em torno deste repertório, conferindo uma qualidade de alto nível ao longo de todo o programa, no qual saltam à vista a notável interpretação de Mariam materem es, um belíssimo exemplar da melhor polifonia do século XIV onde, a par com Imperayritz de la ciutat joyosa, encontramos evidentes influências dos modelos de composição da Ars Nova francesa. Mas estes são apenas dois destaques entre a riquíssima qualidade do repertório e interpretação registadas numa edição que fecha em modo festivo com Quant ai lo mont consirat, um bónus track que perfila na perfeição como ponto final neste fantástico programa.

A complementar esta edição, Josep Maria Gregori i Cifré, musicólogo da Universitat Autónoma de Barcelona, é o autor de um texto precioso em torno da música em programa, do culto e história de Montserrat e do percurso do Llibre Vermell ao longo dos séculos.

Este é um álbum soberbo! Vindo da Alia Vox não se poderia esperar menos. Estamos perante uma edição que é muito mais do que um mero CD, quanto mais não fosse pelo facto de vir apetrechada também de um DVD com o concerto aqui registado, com a realização de Benjamin Bleton e direcção de fotografia de Franck Callegari. O trabalho de som está uma vez mais a cargo de Manuel Mohino, técnico de som que tem habituado os ouvintes da discografia de Jordi Savall, e dos agrupamentos que dirige, a uma qualidade de alto nível. Este CD e DVD não fogem à regra nesse particular, salientando-se a fiabilidade garantida à escuta. Desde o primeiro ao último minuto, o ouvinte consegue facilmente transportar-se para o ambiente do concerto, fruto também dessa transparência e fidelidade acústica garantida no produto sonoro final.
Ao mesmo tempo, esta edição adquire um significado especial pelo facto de se tratar de uma autêntica homenagem a Montserrat Figueras, consistindo num concerto que teve o propósito de evocar a memória dessa referência incontornável da música antiga ibérica, a 25 de Novembro de 2013, por altura dos 2 anos após a sua morte, na Igreja de Santa Maria del Pi (Barcelona).
Já antes desta edição a Alia Vox tinha dedicado um título de homenagem a Montserrat Figueras, em 2014, La voix de l’emotion II (AVSA 9904) a par com a reedição de La voix de l’emotion (2012).

Se a montanha e Abadia de Montserrat são um monumento identitário e parte integrante da essência catalã, o legado de Montserrat Figueras (1942-2011) tornou-se um património artístico e humano inerente à história da vida musical e cultural mundial das últimas décadas. É de salutar este novo tributo a esta figura única da interpretação de música antiga, que tantas vezes presenteou o público português com a sua arte apaixonada, e apaixonante. Desde a sua primeira vinda a Portugal, conjuntamente com Jordi Savall, precisamente no ano de 1979, integrada na Semana de Música Antiga Ibérica - iniciativa levada a cabo entre 1978 e 1987, organizadas por Joaquim Simões da Hora, Maria Fernanda Cidrais, Manuel Morais e Rui Vieira Nery - que nesse ano se realizou em Coimbra, Montserrat Figueras passaria a ser uma visita recorrente em sucessivos concertos e cursos de música antiga em Portugal até ao final da sua carreira.

O seu legado tem sido continuamente evocado, e esta nova edição complementa essa sempre merecida e importante memória de uma figura que nos trouxe muito mais do que a música que difundiu, e que cabe naquele pequeno grupo de notáveis artistas que sabemos que serão eternos.

+ info: https://www.alia-vox.com

Tiago Manuel da Hora

Tiago Manuel da Hora

Produtor e Musicólogo, autor de várias publicações, rubricas e argumentos para espetáculos musicais. Com uma intensa actividade no ramo da produção discográfica, assinando edições nacionais e internacionais, tem sido também responsável pela criação, direcção artística e produção de diversos concertos e espetáculos. É investigador do INET-MD da Universidade Nova de Lisboa, onde dedica as suas atenções ao estudo da produção discográfica.

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