Henricus Isaac
Nos 500 anos após a morte de Isaac, um retrato pela pena de um mestre


Henricus Isaac

Henricus Isaac

Nell tempo di Lorenzo de' Medici & Maximilian I

La Capella Reial de Catalunya; Hespèrion XXI; Jordi Savall

Alia Vox
AVSA9922

2017 / CD


Não são poucos os grandes nomes da história da música que este ano são relembrados em números redondos sob o chavão de “anos após a morte”. Telemann (250), Froberger (350), Monteverdi (450) e, o mais longínquo, Henricus Isaac (ou Heinrich Isaak) que faleceu há 500 anos, em 1517.

Henrich IsaacIsaac (1450-1517) foi um dos grandes nomes da terceira geração da chamada “escola de polifonia franco-flamenga” do Renascimento – o grande compositor desta época foi Josquin Des Prez (1440-1521). Isaac nasceu na Flandres e viria a fazer uma profícua carreira como organista e compositor em Florença (onde serviu Lorenzo de’ Medici), Innsbruck e Augsburg (onde esteve na corte de Maximiliano I). Apesar de não ser hoje em dia um compositor com o mesmo “mercado” de nomes como Josquin Des Prez, Guillaume Dufay ou Adrian Willaert (entre tantos outros que no Renascimento se dão a conhecer), Isaac compôs com igual mestria tanto no domínio dos grandes modelos da música sacra, como na música vocal profana.
Prova exemplar disso mesmo é este novo CD que a Alia Vox dá à estampa, com Jordi Savall e o séquito de músicos de grande qualidade que reuniu para os dois concertos que serviram de base para este álbum, gravado na Collégiale de Cardona, na Catalunha.
Neste disco, que é ao fim e ao cabo um compêndio de música de Isaac, e que viaja entre belíssimas canções e motetes na mais esplendorosa polifonia vocal do Renascimento, não falta a famosíssima “Insbruck, ich muss dich lassen”, numa excelente interpretação com uma atmosfera encantadora, em que parece que tudo fica suspenso enquanto escutamos esse momento.

O programa, como tem vindo a ser comum na discografia recente da Alia Vox, assenta num enquadramento histórico e temático, dedicado aqui especialmente ao percurso de Isaac no seio da teia de Lorenzo de’ Medici, esse grande patrono e mecenas das artes do século XVI, e também de Maximiliano I, que entre 1494 e 1514 teve Isaac ao serviço da sua corte em Augsburg.

Apesar de todo o trabalho que Jordi Savall e os seus agrupamentos têm dedicado à(s) diáspora(s) culturais na música, não deixa de ser importante o equilíbrio que o mestre catalão mantém com o ADN histórico da música antiga, como é o caso deste disco em que vemos Savall de volta às origens, ao compositores fundamentais do Renascimento europeu, um repertório que tanto marcou a sua carreira, como a sua identidade como intérprete. Foi isso que fez com o CD Dixit Dominus (obra de Vivaldi, Händel e Mozart) no final de 2016, e é isso que faz agora com Henricus Isaac.
A Capella Reial da Catalunya apresenta uma coesão insuperável na polifonia vocal sacra, que é deslumbrante (como um autêntico instrumento polifónico vocal), e o Hespèrion XXI não fica atrás na forma sóbria e delicada como serve de suporte ao efectivo vocal.
Aqui e ali, parece haver algum desconcerto entre coro e ensemble instrumental, com uma falta de ligação que não é muto comum na discografia de Savall, mas que o momento de concerto, único, irrepetível, não permite corrigir.
E isso leva-nos a uma questão. Não há dúvidas de que esta é mais uma gravação bem conseguida de um registo em concerto, o que pode continuar a funcionar muito bem para o público, mas, no meu caso, começo a sentir falta de um bom registo de Jordi Savall e dos seus agrupamentos em modo estúdio, onde eram (e ainda serão, com certeza), absolutamente inigualáveis.

A reverberação tem uma carácter mais denso do que grandioso. E isso por vezes, dependendo das características da música, pode ou não ser uma vantagem. Em passagens mais cheias sentimos, por vezes, uma invasão do espaço sonoro que não é confortável.
Uma pecha desta edição é um dos retratos atribuído a Lorenzo de’ Medici que, na verdade, é uma imagem de Lorenzo II, Duque de Urbino, e neto do primeiro. Um erro que é tão evidente quanto imperdoável, mas que não influencia o mérito intrínseco deste programa e das interpretações nesta gravação.

Esta incursão de Jordi Savall pela música de Henricus Isaac não é a primeira, e também não será a última, com certeza, mas é uma edição que honra na perfeição a obra e percurso de um grande compositor do renascimento.

Tiago Manuel da Hora

Tiago Manuel da Hora

Produtor e Musicólogo, autor de várias publicações, rubricas e argumentos para espetáculos musicais. Com uma intensa actividade no ramo da produção discográfica, assinando edições nacionais e internacionais, tem sido também responsável pela criação, direcção artística e produção de diversos concertos e espetáculos. É investigador do INET-MD da Universidade Nova de Lisboa, onde dedica as suas atenções ao estudo da produção discográfica.

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