Haydn: The Seasons (1801)
Inebriante dose de excelente música


Haydn: The Seasons (1801)

Haydn: The Seasons (1801)

Joseph Haydn

P. McCreesh; C. Sampson; J. Ovenden; A. Foster-Williams; National Forum of Music Choir; Wroclaw Baroque Orchestra; Gabrieli Consort & Players.

Winged Lion
SIGCD 480

2017 / 2 CD


Paul McCreesh, artista inglês que se tornou maestro titular da Orquestra Gulbenkian em 2013 e se despediu recentemente do agrupamento português, tem-se destacado no seio da “nata” da música erudita internacional sobretudo através do seu trabalho à frente do Gabrieli Consort & Players, agrupamento que fundou em 1982, já com uma larga e brilhante discografia. Mas McCreesh, além de maestro especializado na música pré-romântica, é também um activo estudioso da música que decide interpretar, através de um profundo trabalho de pesquisa, e a tudo isto reúne ainda, e pelo menos, outras duas actividades não menos interessantes. Entre 2006 e 2012 foi director artístico do agrupamento polaco Wratislavia Cantans, sediado em Warsóvia desde 1966 no âmbito do Festival Internacional de Oratório e Cantata de Varsóvia, e com quem McCreesh mantém uma ligação regular. Em simultâneo, criou em 2011, a etiqueta Wingen Lion, que faz actualmente parte do grupo de catálogos editados pela Signum Records, um dos mais interessantes grupos no seio da edição fonográfica internacional dos nossos dias.
A sua recente edição dedicada a As Estações Die Jahreszeiten, Hob.XXI:3 – oratória de Joseph Haydn (1732-1809), uma das suas últimas grandes criações que levou três anos até chegar à sua derradeira estreia em Viena no ano de 1801, é um dos mais interessantes tesouros que me têm chegado às mãos. McCreesh, o National Forum of Music Choir, o Wroclaw Baroque Orchestra e o seu Gabrieli Consort & Players, conjuntamente com um leque de solistas de primeira água, dão vida a uma recriação de As Estações tal como terão sido apresentadas em 1801. Nesta gravação estamos perante uma versão em inglês, numa transcrição recentemente elaborada pelo próprio Paul McCreesh.

Este não é o primeiro encontro entre estes agrupamentos - contam 4 discos gravados anteriormente - e esse facto constitui uma força extra para o produto musical extremamente coeso e sólido que se pode apreciar na audição deste disco. A música assume uma energia contagiante e inebriante desde o primeiro ao último minuto. É uma interpretação verdadeiramente arrebatadora.
A abertura é um autêntico despertar de uma leitura inventiva, dinâmica que leva o ouvinte a ficar completamente absorvido pela qualidade da música e pela excelência da interpretação. Carolyn Sampson, Jeremy Ovenden e Andrew Foster-Williams dão excelente conta de si, tanto nos momentos a solo, como no inebriante dueto “O what charming sights delight us” (Primavera), onde Sampson (soprano) e Ovenden (tenor) brilham em plena força, muitíssimo bem suportados pelas partes solistas do coro. Tudo em perfeita harmonia.

A captação é absolutamente fenomenal. O som real dos timbres dos instrumentos, as cordas tão naturais como “in loco”, são de um detalhe assinalável. O mesmo acontece, por exemplo, nos timpani com um som claro, orgânico, ao contrário do habitual resultado mais denso e demasiadamente redondo que costuma imperar em tantas e tantas gravações. O equilíbrio entre todas as forças, coro, orquestra, solistas, transporta-nos agradavelmente para o espaço da gravação: o Wroclaw Wratislavia Cantans National Forum of Music.

Gostava de conseguir descortinar um ponto menos bom, um senão nesta edição, numa mera e infrutífera sensação de culpa por não contrabalançar o carácter quase elogioso que este texto possa transmitir. Mas, infelizmente, não consigo encontrar nenhum ponto digno de merecer essa tarefa. A razão diz-me que este é realmente um excelente disco. Tanto melhor! E este, não é daqueles em que possamos admitir a opção do formato digital ao formato físico, pois trata-se de uma edição que, por si só, é um documento que qualquer melómano deve ter o prazer de apreciar e manusear na sua plenitude. Uma excelente edição!

 

Tiago Manuel da Hora

Tiago Manuel da Hora

Produtor e Musicólogo, autor de várias publicações, rubricas e argumentos para espetáculos musicais. Com uma intensa actividade no ramo da produção discográfica, assinando edições nacionais e internacionais, tem sido também responsável pela criação, direcção artística e produção de diversos concertos e espetáculos. É investigador do INET-MD da Universidade Nova de Lisboa, onde dedica as suas atenções ao estudo da produção discográfica.

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