Geoffrey Bush: Lord Arthur Savile’s Crime & Concerto for trumpet, piano and strings


Geoffrey Bush: Lord Arthur Savile’s Crime & Concerto for trumpet, piano and strings

Geoffrey Bush: Lord Arthur Savile’s Crime & Concerto for trumpet, piano and strings

D. Johnson, L. Dawson, A. Watt, D. Maxwell, A. Pashley, E. James; Musicians of London, Simon Joly; P. Addinall, H. Milne, BBC Philharmonic Orchestra, Bryden Thomson.

Lyrita
REAM.1131

2017 / CD


A colecção Lyrita (Itter Broadcast Collection), já aqui anteriormente apresentada, é um programa de enorme mérito associado ao grupo Wyastone, e que consiste na edição de uma boa parte do riquíssimo espólio de Richard Itter, melómano inglês que durante anos se dedicou a fazer gravações domésticas das transmissões rádio da BBC, com o material de ponta que tinha em casa, constituindo um espólio riquíssimo, que tem sido alvo, desde 2014, de diversas edições discográficas. O rol de obras de compositores ingleses do século passado parece ser inesgotável nesta colecção, e são raras as vezes em que uma nova edição não é sinónimo de uma agradável surpresa. Gravações históricas, apetrechadas de excelentes textos, é regra no catálogo desta série discográfica, que é um bom exemplo de como o álbum, físico, ainda tem uma palavra importante a dizer.

George Bush (1920-1998) foi um compositor com fortes ligações ao mundo do teatro e da literatura dramática britânica, e essa relação estreita com a arte dramática é bem decifrável na sua obra operática – compôs 6 óperas ao longo da carreira – como é o caso de Lord Arthur Savile's Crime.
O conto original de Oscar Wilde desenrola-se numa Londres romantizada, victoriana, ao mesmo tempo que um pouco fantasiada, num registo a roçar muito ao de leve o nonsense típico inglês. Inicialmente publicado em 1887, Lord Arthur Savile's Crime consiste num texto de profundo mas discreto recorte satírico, em torno de uma trama simples que joga com a ideia do "destino". Um pretenso vidente desvenda, ao "ler" a palma da mão de Lord Arthur Savile, com o vaticínio de este vir a ser autor de um assassínio. Desenrola-se então uma série de peripécias em que Lord Savile tenta encontrar uma víctima de modo a cumprir esse destino, desenvencilhar-se do peso dessa tarefa, e poder depois casar-se com a sua amada Sybil Merton. Sucedem-se várias tentativas disparatadas de encontrar uma victima para cumprir a profecia, algo que nunca consegue realizar, ou por falta de perícia, ou porque os alvos morrem antes de Lord Arthur conseguir tornar-se o obreiro dessa morte. Lord Arthur Savile acaba por procurar novamente o vidente de modo a matá-lo a ele e assim cumprir o seu destino. Casa-se finalmente com Sybil Merton, sabendo entretanto que o adivinho era, afinal, uma fraude.
A ópera de Bush, com libreto da autoria do próprio Bush a partir do conto de Oscar Wilde, consiste numa composição em 1 acto, com 3 cenas. Originalmente escrita para o contexto escolar da Guildhall School of Music, em 1972 (estreado pelos alunos e agrupamentos da mesma escola a 5 de Dezembro desse mesmo ano), Bush identifica esta ópera como «um estudo sobre o amor, o dever e o contraponto». A sua primeira audição radiofónica deu-se a 27 de Julho de 1986, e é precisamente essa emissão que é agora disponibilizada através desta edição. Na transmissão rádiofónica a BBC procurou suprimir a falta de imagem (cena/acção) com a inclusão de narração,  acrescentada à personagem de Lord Arthur Savile, na voz do tenor David Johnson. Com um cast  de 10 cantores que correspondem na perfeição à escrita de Bush, em que o lirismo e a declamação são preponderantes, e a linha melódica vocal, muitas vezes quase em recitativo, ocupa um lugar de supremacia inequívoca, aqui e ali pontuada com interjeições instrumentais, habitualmente desencadeadas pelo piano, com um acompanhamento (ao cargo dos Musicians of London) simplista tanto do ponto de vista do efectivo instrumental (orquestra de câmara), como da escrita propriamente dita. Aqui temos um exemplo inequívoco de como a relação com o contexto teatral assume grande preponderância na obra de Geoffrey Bush.
Sob a direcção musical de Simon Joly, destaca-se como momento alto da ópera o dueto da terceira cena entre Lord Arthur (David Johnson) e Sybil Merton (Lynne Dawson), com tenor e soprano em perfeita harmonia.

A completar este álbum, o Concerto para Trompete e Piano de G. Bush, escrito em 1962 - a transmissão aqui editada data de Maio de 1986 - com estreita ligação com a sua sonata para trompete e piano (1945), uma das obras mais reconhecidas do início da sua carreira como compositor. Este Concerto acaba por se constituir como um duplo concerto, em 3 andamentos, com um carácter muito intimista, onde o acompanhamento orquestral é, tal como acontece com grande parte da obra de Geoffrey Bush, muito simples, ocupando um lugar de pano de fundo muito discreto, acima de tudo com a função de garantir uma atmosfera harmónica contínua, às vezes quase estática. A interpretação está ao cargo de Patrick Addinall (trompete) e Hamish Milne (piano), a par com a BBC Philharmonic Orchestra, com a direcção de Bryden Thomson, num resultado interpretativo final musicalmente profundo e elaborado, onde o piano de Hamish Milne se evidência pela sua destreza, clareza na articulação densidade no fraseio.

A qualidade de som não é excepcional. É o que se pode esperar de uma gravação de boa qualidade, considerando que estamos perante uma fonte de transmissão radiofónica dos anos 80.
Estas gravações, que revelam um momento, um compositor e a sua obra, os intérpretes e as soluções específicas de uma “récita” radiofónica, agora editadas, 21 anos depois, dizem muito do tanto que ainda há para fazer em torno da edição fonográfica.

Tiago Manuel da Hora

Tiago Manuel da Hora

Produtor e Musicólogo, autor de várias publicações, rubricas e argumentos para espetáculos musicais. Com uma intensa actividade no ramo da produção discográfica, assinando edições nacionais e internacionais, tem sido também responsável pela criação, direcção artística e produção de diversos concertos e espetáculos. É investigador do INET-MD da Universidade Nova de Lisboa, onde dedica as suas atenções ao estudo da produção discográfica.

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