Elgar / Bax: For the Fallen
A excelência de Elgar e o toque da elegância de Arnold Bax


Elgar / Bax: For the Fallen

For the Fallen

Elgar; Bax

Hallé; Mark Elder; Madeleine Venner; Rachel Nicholls; Jennifer France; Madeleine Shaw; Joshua Ellicott

Hallé
CD HLL7544

2016 / CD


Edward Elgar (1957-1934) é o grande ícone na génese de uma renovada tradição anglicana de composição musical que desponta na segunda metade do século XIX, num panorama de grande vazio na cultura musical inglesa desde os idos do Barroco. For the fallen, uma excelente edição com o carimbo de qualidade e autoridade de Sir Mark Elder e do Coro e Orquestra de Hallé, apresenta um programa em torno de música composta durante a 1ª Guerra Mundial, integrado num plano alargado de gravações que têm sido levadas a cabo em Inglaterra em torno desta temática. Na verdade, os agrupamentos de Hallé têm levado a cabo, desde meados de 2014, uma grande quantidade de edições, com especial enfoque na obra de Edward Elgar. Este programa reúne 3 obras essenciais da melhor produção para canto, coro e orquestra escritas por Elgar, a par com o In Memoriam que Arnold Bax compôs em 1918.
Num momento político e social em que a Europa e uma grande parte do Reino Unido se vêm confrontados com algo tão supreendente como a concretização do Brexit, e a cumprir-se o centenário da Primeira Grande Guerra, o título For the fallen e este programa que circula um pouco em torno de The Spirit of England assumem um significado que, apesar de não prever de forma alguma esse propósito, acaba por inadvertidamente se tornar, no mínimo, desafiador.

The Spirit of England, constituída por 3 movimentos (The Fourth of August, To Women e For the Fallen) com texto de Laurence Binyon (1869-1943), é a última grande criação de música coral de Edward Elgar e, sem dúvida, o grande cartão de visita deste disco que, além de ser cozinhado num pano de fundo peremptoriamente inglês, reúne um programa muito interessante e em que, aqui e ali, a cultura irlandesa marca também presença por diferentes circunstâncias, seja o exemplo evidente do título An Irish Elegy que Arnold Bax originalmente concebeu para o seu In Memoriam, ou o facto de para Grania and Diarmid Elgar ter-se inspirado na literatura irlandesa da viragem do século XIX para o XX, mais concretamente em resposta a um pedido de George Moore (1852-1933) para que Elgar escrevesse música para uma peça teatral baseada na história de Diarmiud e Gráinne – um conto da mitologia irlandesa, aqui sob texto de William Butler Yeats (1865-1939), parceiro de Moore na realização dessa obra dramática.
Falta referir ainda a inclusão de A Voice in the Wilderness, obra escrita durante os primeiros anos de guerra, entre 1914-15, e estreada em 1916. Esta peça em apenas um movimento, parte de um texto do poeta belga Émmile Cammaerts (1878-1953), Une voix dans le désert, e consiste numa obra para narrador, soprano e orquestra, escrita com o intuito de valorizar e apoiar o povo belga aquando dos ataques e atrocidades impostas na Bélgica pelas forças prussianas em 1914.

Além dos reconhecidos méritos artísticos dos agrupamentos dirigidos por Sir Mark Elder, este disco reúne excelentes interpretações de Madeleine Shaw (em grande destaque na canção “There are seven that pull the thread”, de Grania and Diarmid),  Rachel Nicholls (fabulosa em The Spirit of England) e Jennifer France, que interpreta A Voice in the Wilderness, estando aí a narração ao cargo de Joshua Ellicott.
Exceptuando Grania and Diarmid, todo o restante programa resulta de gravações em concerto entre Novembro de 2014 e Abril de 2016, e aí The Spirit of England acaba por deixar um pouco a desejar do ponto de vista da captação sonora. Ao contrário do restante programa gravado ao vivo, aquela que é a obra mais sonante deste programa apresenta uma sonoridade muito distante e muito densa, em que a voz de Rachel Nicholls encontra-se num plano superior à orquestra e coro, mas em que estes últimos perdem muita definição, tornando-se por vezes difusa a mistura final.
Este CD conta com a participação de Andrew Keener, exclusivamente em Grania and Diarmid (a única obra gravada em registo de “estúdio”), um grande nome da produção discográfica e da divulgação musical em Inglaterra de há cerca de meio século a esta parte. O restante trabalho de som esteve a cargo de Steve Portnoi, também ele uma referência no panorama actual da produção musical em Inglaterra, que se tem destacado precisamente por inúmeras e excelentes gravações ao vivo. No que diz respeito à captação e mistura de The Spirit of England, ao contrário do restante programa, não podemos atestar esse rótulo de excelência, infelizmente. E, aí, ainda mais surpreendente é o facto de In Memoriam de Bax, gravado no mesmo concerto da captação de The Spirit of England, ter um som incomparavelmente melhor, de uma clareza e definição superiores.

Este é, no entanto, um programa que vale pela sua pertinência história, pela excelente selecção do repertório de acordo com a temática, pela qualidade excecional das obras e pela autoridade e naturalidade que os intérpretes lhe conferem, sublinhando de forma exemplar a riqueza dramático-musical patente em todo o programa.
As excelentes notas à margem a cargo de Michael Kennedy, Richard Bratby, Andrew Burn, bem como o trabalho editorial sóbrio e cuidado, garantem a esta edição um rótulo de excelência inquestionável.

 

Tiago Manuel da Hora

Tiago Manuel da Hora

Produtor e Musicólogo, autor de várias publicações, rubricas e argumentos para espetáculos musicais. Com uma intensa actividade no ramo da produção discográfica, assinando edições nacionais e internacionais, tem sido também responsável pela criação, direcção artística e produção de diversos concertos e espetáculos. É investigador do INET-MD da Universidade Nova de Lisboa, onde dedica as suas atenções ao estudo da produção discográfica.

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