El Amor Brujo
Essências da música espanhola e Manuel da Falla


El Amor Brujo

El Amor Brujo: essências de la música de Manuel de Falla

Falla; Rodrigo; Scarlatti; Cantemir; Tárrega.

Euskal Barrokensemble; Enrike Solinís.

Alia Vox Diversa
AV9921

2017 / CD


É incontornável! Alia Vox é sinónimo de Jordi Savall, dos seus agrupamentos e projectos artísticos.
Pois bem! É altura de nos habituarmos a mudar de perspectiva. Pelo menos foi por esse prisma pelo qual a etiqueta do mestre catalão decidiu enveredar, ampliando a oferta do seu catálogo, com a criação da Alia Vox Diversa – uma série discográfica dedicada a agrupamentos e projectos alheios ao cânone “Savall”, que nos dois primeiros números reúne edições lideradas por Enrike Solinís e seus agrupamentos.
“Euskel Antiqua” foi o título do primeiro número deste novo catálogo, com um disco dedicado ao património musical do País Basco, num jogo de negociação entre as forças da tradição basca e a leitura própria e inventiva de Enrique Solinís. É também esse um elemento estruturante deste novo CD, cujo título é bem elucidativo: El Amor Brujo.

Quem conhece a obra de Manuel de Falla (1876-1946), facilmente consegue imaginar um programa musical em torno deste título. Solinís e o Euskal Barrokensemble delinearam um programa que deixaria muitos melómanos apreensivos, quer pelo repertório escolhido, quer pela abordagem interpretativa. Este “Amor Brujo” consiste numa narrativa histórica e artística diferente da habitualmente associada a Falla. Aqui, Solinís e o seu agrupamento recriam um percurso entre o passado, Falla, e o seu tempo. As raízes de uma identidade de criação musical erudita espanhola e as repercussões da verve criativa de um dos expoentes máximos dessa cultura no seu tempo! As essências viajam desde a música tradicional (extraída do Cancioneiro de Olmeda) e a escrita de Domenico Scarlatti (nome cimeiro da vida musical da corte espanhola entre 1728 e 1757), passando pela magnitude repleta de influências do norte de África em Escena Bestenigar de Dimitrie Cantemir (1673-1723), o fantástico e requintado Capricho Árabe de Francisco Tárrega (1852-1909),  à escrita incomparável e soberba de Manuel de Falla, a par com o icónico Concierto de Aranjuez de J. Rodrigo (1901-1999).

A interpretação é tudo menos consensual! Simplista no efectivo instrumental, mas cheia na cor, expressividade e singularidade, privilegiando um discurso musical eminentemente inventivo, onde a herança da prática da música antiga assume uma preponderância evidente. Ao mesmo tempo Enrike Solinís e o Euskal Barrokensemble, com a voz brilhante de María José Pérez, não se coíbem de gerar novas sonoridades em torno do texto musical, recriando a literatura musical que lhes serve de base – bastará escutar as interpretações das Sonatas de Scarlatti para constatar esse facto.
Gravado nos estúdios Sputnik (Sevilha), de Jorge Gil, este CD será, com certeza, um ponto marcante para a nova vertente da Alia Vox. Não será fácil agradar a todos – uns ficarão “fãs”, outros irão criticar, até acusar o purismo. Mas, uma coisa é certa, não será fácil ficar-lhe indiferente!

 

Tiago Manuel da Hora

Tiago Manuel da Hora

Produtor e Musicólogo, autor de várias publicações, rubricas e argumentos para espetáculos musicais. Com uma intensa actividade no ramo da produção discográfica, assinando edições nacionais e internacionais, tem sido também responsável pela criação, direcção artística e produção de diversos concertos e espetáculos. É investigador do INET-MD da Universidade Nova de Lisboa, onde dedica as suas atenções ao estudo da produção discográfica.

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