Anterianas
A procura de um céu interior

16/02/2017, Ricardo Vilares

Anterianas

Anterianas

Franz Schubert; Luís de Freitas Branco

Ana Maria Pinto; Joana Resende

Edição de Autor

5 600472 803243 / CD


O projeto artístico Anterianas, das jovens intérpretes Ana Maria Pinto (canto) e Joana Resende (piano), inspirado nas Schubertíades oitocentistas – encontros intimistas e informais de músicos, poetas, pintores e filósofos, em torno de Schubert – já apresentado em diversos pontos do país, deu recentemente lugar à gravação de um CD. O registo fonográfico teve lugar no Conservatório de Música do Porto, a 16 e 17 de agosto de 2016. A música é de Franz Schubert e de Luís de Freitas Branco e a poesia de Antero de Quental, embora outros poetas, como Wilhelm Müller ou Matthias Claudius, sejam evocados através dos Lieder do compositor austríaco.

A canção e a poesia portuguesas ocupam um lugar central no disco, confirmando uma diretiva clara do projeto, e um dos seus principais desideratos, divulgar o património poético e musical português. Mas será a música de Schubert um corpo estranho na gravação? Perder-se-á o sentido unificador? Diríamos que não, pois «os artistas unem os pedaços soltos do mundo». Pedaços de céu, como aqueles que ilustram o CD, pontos dispersos que unidos formam constelações e dão uma perspetiva diferente do céu. A ideia das intérpretes parece assentar na criação de um Todo feito de uma diversidade relacionada que, por sua vez, cria um Todo-uno.

Este é um trabalho que dá especial atenção à “palavra poética”. Da poesia à música abrem-se as portas do infinito, do inefável, de uma metafísica, também sugerida pela poesia anteriana, marcada pela fé na Ideia como luz da humanidade e da vida intelectual como matéria poética, o que conduziu as intérpretes no seu dizer a uma «vontade de sentir e perseguir algo que possa estar no céu da Ideia».

A gravação está emoldurada por duas composições de Schubert – da poesia puramente instrumental, na peça para piano Ester Verlust, à poesia cantada, no hino An die Musik. A sua espinha dorsal é constituída por dois ciclos de canções de Luís de Freitas Branco em torno da poesia de Antero, autor por quem o compositor nutria uma grande empatia, A Ideia – ciclo poético constituído por 8 sonetos – e Três Sonetos de Antero (I. A Sulamita, II. Idílio, III. Sonho Oriental). Pelo meio são interpolados poemas anterianos declamados e a música de Schubert, que por um lado aprofunda o sentido dos ciclos e por outro abre caminho a novas leituras. As artistas desenham desta forma um novo ciclo poético-musical a partir de três vozes diferentes, unificado através daquilo a que Antero designou como «a procura de um céu interior, tão puro e tão belo” (…) e de uma «luz, que sai de dentro, e distante dos nossos olhos se agita convidando-nos a segui-la em seu correr», na revelação constante chamada vida.

Para as jovens artistas «palavra e música estão intimamente ligadas em 21 formas de dizer o mesmo, interligados pelo fio condutor do que nunca se mostra na mente sem antes passar pelo coração». A conceção artística, o interesse do repertório gravado, a qualidade interpretativa, patente na compreensão e no sentido dado aos conceitos filosóficos, inerentes à poesia e à música gravadas, ou a preocupação demonstrada com a inteligibilidade da palavra e com o seu significado poético, fazem desta gravação uma referência no panorama musical nacional.

O CD teve já a sua apresentação na Casa-Museu Teixeira Lopes, em Vila Nova de Gaia, no dia 7 de janeiro, e na Livraria Unicepe, em Aveiro, na Biblioteca da Universidade, em parceria com o Departamento de Comunicação e Arte, no dia 8 de fevereiro. Está ainda prevista nova apresentação, no ISEG, em Lisboa, no dia 22 de março.

 

Ricardo Vilares

Ricardo Vilares

Ricardo Vilares é licenciado em História e Teoria da Música, pela Universidade de Évora, e mestre em musicologia, pela Universidade de Aveiro, com a dissertação intitulada “Um sagrado enlevo: Moreira de Sá e o culto da música de câmara no Porto”.
Foi professor assistente convidado no Instituto Piaget Nordeste e na Universidade do Minho. Presentemente, é docente de História da Cultura e das Artes – História da Música no Conservatório de Música do Porto. Tem, igualmente, desenvolvido uma atividade enquanto redator de notas de programas e comentador de recitais e concertos, entre os quais se destaca “Um recital e uma obra de arte”, promovido pelo CMSM e Câmara Municipal do Porto.

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