Eduardo Lopes em entrevista ao XpressingMusic...

Eduardo Lopes em entrevista ao XpressingMusicPelos caminhos da bateria e da percussão cruzámo-nos com Eduardo Lopes. O nosso entrevistado de hoje efetuou estudos de bateria jazz e percussão clássica no Conservatório de Roterdão, na Holanda e Licenciou-se com a mais alta distinção atribuída pela Berklee College of Music (EUA) em Instrumento e Composição. Eduardo Lopes é ainda Doutorado em Teoria da Música pela Universidade de Southampton, no Reino Unido.

XpressingMusic (XM) – Durante a sua carreira académica e artística tem recebido inúmeros prémios e bolsas de estudo de instituições portuguesas e estrangeiras. Algum desses prémios assume especial relevância para si? Pode falar-nos de alguns desses reconhecimentos?

Eduardo Lopes (E.L.) – As especificidades das áreas das Artes, em comparação com, por exemplo, as Ciências, fazem com que também a sociedade veja e posicione as Artes de forma diferente das outras áreas. Se por um lado isto é óbvio e até desejável para os artistas, por outro criou também procedimentos e hábitos que nem sempre beneficiam a Arte e o avanço artístico. É comum reconhecer-se o mérito científico de alguém através de financiamento de um projeto ou de um valor pecuniário. Este tipo de procedimento não é muito comum nas Artes; mais facilmente um músico que ganhe um concurso ou que receba um prémio de carreira é agraciado com um diploma de mérito ou uma medalha. A título de exemplo (exagerado) compare-se o Prémio Nobel e os prémios Oscar e Grammy – em que para além do prestígio, o primeiro consiste numa considerável soma monetária e os últimos não. Nesta linha de ideias, a título pessoal e tendo que diferenciar prémios em termos de relevância, vejo obviamente como mais importantes aqueles que me têm permitido continuar a desenvolver as minhas capacidades artísticas e disseminação do meu trabalho. Sabendo nós que o estudo de música é (ainda e também a alto nível) bastante dispendioso, e que a atividade profissional musical nem sempre reverte quantias significativas de dinheiro para os músicos, eu tive a sorte de ter sido “patrocinado” para poder estudar em algumas das melhores escolas de música do mundo. Também, em certas ocasiões, obtive alguns apoios pontuais para levar o meu trabalho a uma maior audiência. Para além dos apoios que tive de vários organismos do governo Português e de algumas instituições nacionais e do reconhecimento que inerentemente estes apoios trazem, foi muito importante para mim constatar que as instituições internacionais também reconheceram o meu trabalho. Assim e quase sempre que obtive uma bolsa oriunda de Portugal para estudar no estrangeiro, a instituição estrangeira, de uma forma ou de outra, acabava por também me conceder alguma bolsa de mérito. Isto para mim foi sempre muito importante, pois de certo modo era uma forma de validar o mérito e o apoio que o meu país me concedia.

XM – Como instrumentista atua regularmente com prestigiadas formações nacionais e estrangeiras. Tem sido fácil conciliar a carreira académica com a de performer?

E.L. – Não é de todo fácil. A atividade de músico (concertos, master classes, etc.), é geralmente planeada a médio e longo prazo, enquanto a atividade académica tem mais uma caraterística de curto prazo. Trabalhos de uma turma de teoria ou investigação de um orientando de mestrado ou doutoramento, têm que ser lidos e corrigidos num pequeno período de tempo e por vezes são entregues com prazos muito curtos para resposta por parte do professor. Isto, e outras tarefas académicas (como por exemplo reuniões), tornam difícil a gestão da agenda artística. Mantendo-me então ativo nestas duas frentes passa por um processo de estabelecer prioridades, deixando obviamente assim algo de fora. Na realidade ter que recusar certas solicitações tem sido um processo difícil para mim, pois quando se faz algo que realmente gostamos é sempre difícil recusarmos certos projetos. No entanto e ao longo dos anos acabamos por conseguir selecionar melhor quais os projetos aos quais nos dedicamos, e felizmente no meu caso tenho tido a oportunidade de escolher aqueles que mais prazer e desafios me colocam.

XM – Tem como principais áreas de investigação os Estudos Performativos, Música do Século XX, Teoria da Música e Rítmica e Métrica Musical. Estes são os quatro ramos em que pretende continuar a investigar? São áreas estanques ou relacionam-se entre si alimentando-se mutuamente?

E.L. – Sendo eu Baterista (e muito ligado à percussão de uma maneira geral) a minha atividade de investigação começou pela área do Ritmo. Tendo em conta a importância genérica do ritmo em toda a música e mesmo noutras áreas, a minha investigação começou a ramificar-se para outras áreas da musicologia. Comecei a desenvolver trabalho em Estudos Performativos e Música do Séc. XX exatamente pela importância que o ritmo tem nestas áreas; e pela própria natureza da investigação científica, isto levou a outros caminhos. De qualquer forma, eu acredito que ao considerar-mos a música com a arte que “molda” sons - e toda a música independentemente da sua origem assume esta premissa - qualquer perspetiva epistemológica (crítica ou explicação) poderá sempre ser relacionada uma com a outra. Atualmente tenho também desenvolvido investigação na área do Ensino de Música; essencialmente sobre a inclusão de “novas” músicas e instrumentos no cânone académico ocidental.

XM – O que o levou a estudar Bateria e Percussão no Conservatório de Roterdão (Holanda)? Foi uma opção muito refletida?

Eduardo Lopes em entrevista ao XpressingMusicE.L. – Há cerca de 30 anos atrás, quando comecei a estudar Bateria e Percussão, não existia nenhum curso oficial de Percussão em Portugal, e muito menos de Bateria. Apesar de mais tarde terem começado a surgir cursos oficiais, eu sabia que o tipo e nível de trabalho que eu almejava passaria forçosamente pelo estrangeiro. No entanto, na altura em que me fizeram o convite para ir estudar percussão para o Conservatório Superior de Roterdão eu estava bastante integrado no mercado de trabalho em Portugal, lecionando e participando em vários agrupamentos profissionais. A minha primeira resposta foi recusar a ida pois não queria deixar os compromissos assumidos em Portugal. Felizmente tive a oportunidade de refletir melhor com a ajuda de alguns amigos da altura, e assim parti para a Holanda. Foi uma experiência fantástica do ponto de vista de formação artística bem como de formação humana, que de certa maneira também moldou o meu percurso. No Conservatório de Roterdão percebi a importância de ter a possibilidade de usufruir de uma educação inclusiva, em que à distância de algumas salas de aula co-existiam estilos musicais com postura tão diversa como a música contemporânea de vanguarda; a música pop; o jazz; e a música ‘clássica’ de tradição europeia. Para além de tudo o que aprendi, lembro-me também do prazer enorme que era caminhar pelos corredores do conservatório e ouvir, vinda de cada sala, música de todos os quadrantes do mundo.

XM – A ida para os Estados Unidos para realizar a sua licenciatura assumiu certamente uma grande importância. Porquê a Berklee College of Music?

E.L. – Ainda hoje a Berklee College of Music representa, para muitos, o epitomo do que é ou poderá ser uma escola de música do presente e para o futuro. Nela, e considerando os imensos recursos materiais de topo que possuiu, bem como os seus excelentes professores, o estudante de música é efetivamente preparado para o mercado contemporâneo de trabalho nas suas mais variadas vertentes. Apesar de ter uma conotação muito grande ligada à música jazz, as inúmeras disciplinas oferecidas e departamentos que constituem a faculdade, fazem dela uma instituição de verdadeiro largo espectro no que concerne ao ensino da música. Foi então este perfil que me levou a Boston. Um passo à frente do que tinha visto no Conservatório de Roterdão (em que apesar de se promover o ensino de vários estilos musicais, estes ainda eram um pouco estanques entre eles), na Berklee promovia-se ativamente uma interligação de estilos no seu ensino. A título de exemplo, tendo eu terminado a licenciatura com uma concentração em composição ‘clássica’ e performance, tive (entre muitas outras) aulas de direção de orquestra com um maestro assistente da Orquestra Filarmónica de Nova York, e de bateria jazz com artistas de renome que estão na história do instrumento. Este tipo de organização de ensino inclusivo é, ainda hoje pouco comum, só mesmo possível nas melhores e mais prestigiadas escolas de música do mundo. Obviamente e para além do ensino, viver numa cidade altamente ligada à arte como Boston e a três horas de distância de Nova York, complementou em grande medida a minha experiência a nível de performance; tendo assistido a imensos concertos do mais alto nível, bem como ter tido também a oportunidade de tocar com excelentes músicos de todo o mundo.

XM – Depois de se ter Doutorado em Teoria da Música na Universidade de Southampton no Reino Unido, realizou o pós-doutoramento na Universidade Técnica de Lisboa. Pode-nos resumir um pouco estas duas experiências?

E.L. – O meu trabalho de investigação de doutoramento e pós-doutoramento foi algo que surgiu de forma espontânea e de certa maneira natural, considerando o meu constante interesse por aprofundar questões da música (no seu sentido mais lato). Achei a área da teoria da música interessante para, e numa certa perspectiva, aprofundar melhor aquilo que fazia na prática. Dentro da teoria acabei por me dedicar as questões do ritmo e da métrica, em especial aspetos da cognição e qualidades destes parâmetros, visando uma construção teórica de âmbito explanatório e analítico que também servisse para o ensino. Mais tarde e já cá em Portugal, e integrado num grupo de investigação mais ligado às ciências exatas, trabalhei em vários processos sobre a formalização dos parâmetros do ritmo e da métrica, tentando desenvolver software para a composição automática de estruturas musicais.

XM – Sabemos que realiza regularmente Master-Classes em Portugal e no estrangeiro. Para além dos conhecimentos técnico/performativos que transmite aos seus discípulos, que outros saberes e conselhos lhes tenta deixar decorrentes da sua experiência?

E.L. – Tendo em conta o caráter quase momentâneo do que é uma Master Class (algo que acontece num período breve de tempo), é também para mim muito importante transmitir aspetos relacionados com aquilo que é ser músico e o seu lugar na sociedade. Ter uma atividade artística e em especial ser um músico profissional, é algo que sempre foi muito difícil ao longo da história. Apesar de a música estar sempre presente e ser imprescindível para a humanidade, nem sempre esta entende as especificidades dos músicos e da sua atividade. Sabendo isto, tento sempre inspirar os jovens que estão a iniciar-se na música (em que muitos deles já têm uma boa noção das dificuldades que se avizinham) a continuar a lutar por aquilo que querem fazer e mais acreditam, pois todos os sonhos podem ser realizados. O trabalho, esforço e honestidade levam seguramente à competência e reconhecimento.

XM – A sua experiência no Departamento de Música da Universidade de Évora tem sido mais marcada pelo Eduardo Lopes performer ou académico?

E.L. – É para mim impossível separar a minha faceta de académico e de intérprete. Estas minhas atividades profissionais, apesar de serem algo diferentes, têm muito em comum e uma apareceu naturalmente com a outra. Sem querer propriamente definir um inicio daquilo que poderá ser um circulo vicioso de quem ‘apareceu’ primeiro, a primeira vez que terei tido um instrumento musical nas mãos para fazer música, ao seu primeiro som imediatamente terei refletido como iria fazer o som seguinte. Assim, penso que no Departamento de Música da Universidade de Évora, e em todas as funções que ali tenho desempenhado (professor, direções de curso, órgãos de governo, etc.), a minha contribuição é inevitavelmente sempre a do académico e do músico – pois é quem eu sou.

XM – Ao lerem esta entrevista, os nossos leitores ficarão certamente curiosos relativamente a publicações suas onde possam ir “beber” mais um pouco desta rica partilha de conhecimento que amavelmente aceitou protagonizar com o XpressingMusic e que muito agradecemos. A nossa última questão prende-se exatamente com esse pedido. Poderá enumerar algumas das suas publicações que possam ser consultadas?

E.L. – Agradecendo também o simpático convite para a entrevista, deixo-vos então com uma seleção de bibliografia e discografia.

Livros:

  • PLURALIDADE NO ENSINO DO INSTRUMENTO MUSICAL, Fundação Luis de Molina, 2013 (no prelo)
  • PERSPECTIVANDO O ENSINO DO INSTRUMENTO MUSICAL NO SÉC. XXI, Fundação Luís de Molina, 2011
  • A BATERIA: Estudos para estilos básicos, RussoMúsica, 2010

Capítulos de livros:

  • “A INTERCULTURALIDADE NA MÚSICA DE AARON COPLAND” (co-autor Paulo Gaspar), in Fernando Ramos (ed.), Tendiendo Puentes hacia la Interculturalidad, Ediciones K & L Granada –Spain, 2010
  • “O ENSINO DO JAZZ E DA MÚSICA ERUDITA NO SÉC. XXI” (co-autor Paulo Gaspar), in María Angustias Ortiz Molina and Fernando Ramos (eds.), Música. Arte. Diálogo. Civilización, CIMA, Universidad de Granada, Spain, 2008

Artigos em revistas:

  • “THE INDIVIDUAL AND THE GROUP: A practical lesson from the musical rhythm”, Dedica. Revista de Educação e Humanidades, vol. 1, Universidad de Granada, Março 2011, 497-510
  • “RHYTHM AND METER COMPOSITIONAL TOOLS IN A CHOPIN’S WALTZ”, Ad Parnassum Journal, vol. 6, issue 11, Abril 2008, 64-84.
  • “FROM BLUES TO LATIN JUST IN TIME: A rhythmic analysis of ‘Unit Seven’”, Jazz Research Journal, vol. 2, nr. 1, 2008, 55-82.
  • “A MÉTRICA MUSICAL NA PERCEPÇÃO DE MOVIMENTO: o conceito gravitacional”, VIS Revista do Programa de Pós-Graduação em Arte da Universidade de Brasília, vol. 5 nr. 2, Julho/Dezembro 2006, 32-41.

Discografia:

  • Tributo a Benny Goodman – Vários, Numerica
  • Sons da Terra, Eduardo Lopes, Fortes & Rangel
  • O Segredo Maior – João Loio, Fortes & Rangel
  • Rai Timor – Vários, Fortes & Rangel


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