Entrevista com Maria do Céu Aguiar Mota

Entrevista com Maria do Céu Aguiar MotaNa entrevista de hoje iremos aflorar aspetos da arquitetura, da música e da acústica em Portugal. Para concretizarmos estes nossos anseios e verificar as íntimas relações que existem entre estes três polos do conhecimento, convidámos Maria do Céu Mota que nasceu no Porto em 1972 e viu editado pela Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto o seu livro: “Arquitectura, Música e Acústica no Portugal Contemporâneo”. A nossa convidada é Licenciada em Ensino de Música pela Universidade de Aveiro e mestre em História da Arte Contemporânea pela Universidade Nova de Lisboa. Profissionalmente, é professora de Piano e de História da Cultura e das Artes no Conservatório de Música da Jobra em Albergaria-a Velha – Aveiro - Portugal.

XpressingMusic (XM) – Agradecemos desde já a amabilidade demonstrada para com o nosso site aceitando o nosso convite. A primeira questão que gostaríamos de lhe colocar prende-se com uma curiosidade nossa e, certamente, de muitos dos nossos leitores. O que leva uma pianista e ao mesmo tempo docente de piano a interessar-se pela área da arquitetura?

Maria do Céu Mota (M.C.M.) – Houve um tempo que pensei em fazer o curso de Arquitetura (estaria no 9ºano de escolaridade). Senti-me por essa altura dividida entre estudar Música e Arquitetura. Acabei por dedicar-me à primeira! Durante a licenciatura apaixonei-me pela História da Arte porque descobri que as artes não são domínios estanques, impermeáveis ou imunes a influências recíprocas. São, pelo contrário, estruturas inter-relacionadas, interpenetráveis, como preconiza o Estruturalismo. O que é fascinante, do meu ponto de vista.

A primeira grande descoberta, que deu origem a todo um processo que levou uns anos mais tarde ao Mestrado em História da Arte, foi o caso do pintor Kandinsky que se sentiu fortemente influenciado pela música atonal deEntrevista com Maria do Céu Aguiar Mota Schoenberg (primeira década do século XX). A partir deste momento interessei-me pelas analogias e influências entre a pintura e a música, sobretudo.

Já no curso de Mestrado, dei comigo a investigar sobre um tema que não tinha nada a ver com a Música: dediquei imensas horas ao estudo dos azulejos e fábricas de azulejos na cidade de Aveiro onde residia. Um dia, numa pesquisa bibliográfica sobre o referido assunto, encontrei um livrinho intitulado Quatro Palavras sobre Arquitetura e Música escrito em 1947 pelo arquiteto Raul Lino. Estava aqui o ponto de partida para a minha tese de mestrado: as relações entre estas duas artes que Santo Agostinho considerava irmãs!

Hoje percebo que não foi deitado fora, aquele tempo que despendi com a investigação sobre os azulejos. Esta levou-me a Raul Lino e este, por sua vez, ao tema que eu queria aprofundar!

XM – Sente que este trabalho materializado em livro poderá constituir em si próprio uma mais-valia para as gerações vindouras que se interessem por fazer crescer esta área do conhecimento?

M.C.M. – Acredito que sim. Para começar, só pelo facto de ter encontrado a editora FAUP Publicações interessada em editá-lo, mostra o seu valor. Também a Fnac quis apresentar o livro… A tese está, portanto, acessível ao grande público.

É um tema que desperta a atenção: em Janeiro de 2007, a Casa da Música levou a cabo uma conferência sobre a relação da Música com a Geometria e a Arquitetura, em que eu e o professor e arquiteto João Pedro Xavier proferimos uma comunicação. Em Setembro de 2011 a Casa da Música volta a apostar neste tema e promove um novo ciclo de conferências cujas temáticas se centram na Música e na Arquitetura, dando lugar a uma reflexão profunda sobre a estreita ligação entre estas duas atividades, e onde o compositor Iannis Xenakis, (nome indissociável da Arquitetura e da Construção), foi figura central de algumas comunicações. "A Música no Espaço" (nome dado ao ciclo) constituiu o ponto de partida para diversas conferências sobre as semelhanças e as diferenças entre a Música e a Arquitetura nos seus diversos períodos históricos e estilísticos.

Por isso, tenho muitas razões para acreditar que este trabalho, agora em livro, na Biblioteca Nacional e divulgado na internet, pode ajudar muitos estudantes e investigadores a aprofundar esta matéria. O livro reúne uma bibliografia muito rica, e nele se transcreveu, traduzindo-se, alguns artigos e excertos de obras que abordam a relação entre a arquitetura e a música.

Uma vez que aborda três disciplinas, pode captar igualmente a atenção de arquitetos, músicos e especialistas na área da Acústica (aliás, o co-orientador da minha tese é o diretor do Laboratório de Acústica da Faculdade de Engenharia do Porto, o professor Oliveira de Carvalho).

Entrevista com Maria do Céu Aguiar MotaXM – O arquiteto Raul Lino ocupa uma parte considerável do seu trabalho. Este arquiteto que diz que a arquitetura o conduziu à música, é uma figura incontornável para um trabalho com as características do seu?

M.C.M. – Se quisermos aprofundar a relação entre a arquitetura e a música, este arquiteto não passa despercebido. Não encontrei nenhum outro arquiteto português que tivesse escrito uma obra teórica intitulada e dedicada justamente à reflexão sobre este tema. Refiro-me à obra que mencionei atrás. Mas Raul Lino escreveu muito. E posso garantir que em praticamente todos faz alusão à música, uma das suas grandes paixões e a sua «segunda natureza». Aliás, os seus grandes amigos foram Alexandre Rey Colaço, a quem devia muito da sua grande cultura musical, Ruy Coelho, Ivo Cruz, Tomás Borba ou, ainda, Francisco Lacerda.

XM – Na segunda parte do seu livro fala-nos na influência da arquitetura na música. Podemos então concluir que existirão correlações entre as estruturas arquitetónicas e as estruturas musicais? Pode dar um exemplo aos nossos leitores?

M.C.M. – Sim, esse foi um dos aspetos mais entusiasmantes da minha investigação: descobrir de que forma pode também a arquitetura inspirar estruturas musicais (na primeira parte eu trato do inverso – a influência da música na arquitetura). O exemplo mais paradigmático é encontrado no Renascimento. Eu encontrei um artigo fabuloso do arquiteto Charles Warren em que ele demonstra a correspondência entre o moteto de Guillaume Dufay com a cúpula da catedral de Florença desenhada pelo arquiteto italiano Brunelleschi, contemporâneo do compositor. Warren analisou o moteto e as proporções do interior da catedral e encontrou as mesmas proporções ou relações proporcionais em ambas as obras.

XM – Durante a sua investigação encontrou ao longo dos tempos uma evolução positiva na relação entre a arquitetura e as preocupações acústicas?

M.C.M. – A evolução não foi positiva ao longo dos tempos. Sempre que a função do edifício destinado à audição musical foi ou é colocada em segundo plano, relativamente à forma, resulta que a qualidade acústica fica comprometida. A evolução não foi em crescendo. Refiro apenas o exemplo do Teatro de Epidauro, a escassos quilómetros de Atenas. Um teatro com uma acústica perfeita para época, e ainda hoje utilizado para espetáculos. Estamos a falar numa construção que remonta ao séc. IV a.C.! A Música para os gregos era fundamental e o Teatro não era nada sem ela. Eram indissociáveis, daí a importância de se fazer ouvir nas melhores condições.

Entrevista com Maria do Céu Aguiar MotaXM – No capítulo seis do seu livro fala-nos da Acústica das salas para audição de música em Portugal. Os exemplos dados relativamente aos séculos XX e XXI refletem preocupações com estas questões de que temos vindo a falar? A acústica tem estado presente no ensino da arquitetura, na composição e na interpretação musicais?

M.C.M. – Em Portugal, há bons e maus exemplos. Os bons exemplos dados de edifícios construídos durante o séc. XX, refletem a sensibilidade e a formação musical do arquiteto que esteve na origem do projeto. No séc. XXI, refere-se no livro o exemplo da Casa da Música, um exemplo bem sucedido do ponto de vista acústico e ainda dos teatros desenhados pelo arquiteto Filipe Oliveira Dias, autor dos Teatros Municipais de Vila Real e Bragança e que teve o cuidado de trabalhar com consultor(es) acústicos.

XM – Agradecemos mais uma vez a partilha que proporcionou a todos aqueles que seguem o XpressingMusic. Para terminar gostaríamos de lhe perguntar se tenciona continuar este trabalho. Esta é uma temática que quererá abordar numa futura tese de Doutoramento?

M.C.M. – Se enveredar futuramente por uma tese de doutoramento, com certeza que não resistirei a aprofundar a relação da música com uma outra arte, que poderá ou não ser a arquitetura. É fascinante conhecer a visão que as outras artes têm da nossa Música! Eu não fazia ideia, até realizar este trabalho, que a Música já foi a primeira entre as artes e, no séc. XIX, a rainha das artes e modelo a seguir por muitos artistas dadas as suas qualidades não-imitativas.

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