Jacinta em entrevista ao XpressingMusic

JacintaO XpressingMusic foi ao encontro de uma das vozes portuguesas mais respeitadas em todo o mundo. Jacinta foi referida por José Duarte como “a cantora de jazz portuguesa”. A sua voz é inconfundível e detentora de um timbre que nos passa emoção e uma sensação de “porto seguro” aliada à sua inquestionável solidez técnica e à garra inerente às suas interpretações.

Jacinta, não é muito comum no percurso de uma cantora de jazz a aprendizagem musical começar pelo estudo da música clássica em piano e composição. Considera que esta fase do seu percurso pode estar na base da sua singularidade enquanto cantora?
Sim. Apesar de me ter afastado do jazz mais abstrato que comecei a fazer no início da minha carreira, creio que se nota no meu tipo de música as minhas bases de “música exata” ou música clássica, como vulgarmente se chama. Tenho preciosismos, às vezes, para além de alguns estilos jazzísticos mais soltos que, penso, poderão afetar positivamente o resultado musical dos meus projetos.

Há por vezes uma certa resistência por parte de alguns músicos em participar em concursos de programas televisivos. No caso da Jacinta, a sua visibilidade pública teve início exatamente num desses concursos. Considera que a sua participação, aos 22 anos, no programa Chuva de Estrelas foi o “click” de que precisava para iniciar a sua carreira?
Foi o “click” para de repente ter acesso a músicos de jazz profissionais – pois essa “fama” resultou em cachets que me permitiram chamar esses músicos, mas tão depressa veio como desapareceu. Foi só uma vontade muito forte que eu já tinha de vir a fazer carreira nisto, que me manteve neste trilho até o conseguir concretizar a sério, profissionalmente. Além de ter continuado e solidificado os meus estudos musicais, claro.

Deu sempre grande importância ao seu crescimento académico e profissional. Ir, em 1997, para Nova Iorque para frequentar a Manhattan School of Music, foi um grande passo. Concorda? O que mudou na sua vida a partir desta decisão?
Tudo! Eu fui fazer esse mestrado, como um meio para estar na cidade mais jazzística do mundo, naquela época. A nível musical, mudou radicalmente a minha forma de estar no jazz – creio que me distanciei definitivamente do estilo “erudito /abstrato” que estava a seguir até aí.

Nova Iorque, trouxe-lhe ainda a possibilidade de trabalhar com grandes nomes da música como Elvin Jones, Maria Schneider, Ed Neumeister, Mark Murphy, Dave Holland, Annie Ross, Chris Rosenberg da banda de Ornette Coleman e Peter Eldridge dos New York Voices. Foram estas experiências que a encorajaram a iniciar a sua carreira num país estrangeiro? Como foi para si iniciar uma carreira num país que não o seu?
JacintaTudo acontece de forma natural e “orgânica” - é o dizer que sim a projetos para os quais nos convidam; é o fazermos os nossos próprios projetos e, se necessário, até pagar do nosso bolso aos músicos, para poder atuar em determinada sala… é um foco no e pelo amor à música e uma necessidade intrínseca de estar no palco e ser “ouvisto” – assim se vai fazendo aquilo a que outros chamam “carreira”. Eu fui investindo na minha “carreira” desde que me lembro – tanto em Portugal como noutros países. E continuo a fazê-lo diariamente. É um “espírito de sacrifício” que só os líderes de banda compreendem…

Mais tarde mudou-se para São Francisco, Califórnia, o que lhe traz a possibilidade de atuar no Kimball’s East ou no Yoshi’s. O que foi para si mais fascinante nestas experiências?
O mais fascinante nesta época que estava grávida da minha filha e depois com ela recém-nascida, é que eu não tive que ser líder – pela primeira vez eu era chamada como “sideman” para duas bandas enormes de jazz latino – sendo cantora convidada nos concertos todos.

Em fevereiro de 2003, surge o disco Tribute to Bessie Smith com edição da Blue Note atingindo os tops de vendas e sendo reconhecido com o disco de ouro por vendas superiores a 25000 unidades. Nunca na história do Jazz português tal tinha acontecido. Pode falar-nos um pouco deste trabalho? A que fatores atribui o enorme sucesso deste álbum?
Acredito que a grande recetividade do público a este projeto teve a ver com o facto de serem Blues tocados de forma Cool com músicos de jazz, e também pela minha abordagem vocal completamente crua e nua – ouvem-se todas as articulações vocais, sem filtros de estúdio. Isso tornou o projeto extremamente apelativo. Além disso, como foi uma encomenda do pelouro da Cultura da CM de Lisboa, o “Baby Won’t you please come home” passou nas ruas do Chiado na época de Natal, o que catapultou ainda mais o trabalho da EMI.

Do primeiro álbum até março de 2006, data do seu segundo álbum, abraçou vários e diversificados projetos. Quer destacar algum ou alguns deles?
O mais diferente de todos e o que me deu um gozo especial, foi a temporada com a Orquestra Metropolitana de Lisboa, com o projeto Monk – escrito para orquestra e quarteto de Jazz por Paulo Perfeito.

Como já referimos, em março de 2006 a Blue Note/EMI Portugal lança Day Dream, o seu segundo trabalho discográfico. Greg Osby surge como produtor deste projecto.Foi uma opção pessoal da Jacinta? O que nos quis trazer com Day Dream?
Conheci o Greg numa Master Class que deu no Porto. Depois disso voltámos a encontrar-nos em Nova Iorque, onde eu já não parava desde os meus tempos de estudante. Aí o Greg manifestou interesse em produzir um disco comigo. Este projeto foi um “voltar às origens” – com músicos hipermodernos do jazz de mainstream – ou seja, com o swing pesado de New Orleans, mas numa linguagem completamente vanguardista. Foi o meu primeiro disco – com as minhas escolhas, tendo uma sonoridade bem mais aberta e “abstrata” que o da Bessie Smith.

Como se consegue conjugar num mesmo trabalho autores tão distintos como Djavan, Cole Porter, Tom Jobim, Duke Ellington, Zeca Afonso, Martin e Monk?
O elo condutor foi mesmo a abordagem aos temas e a forma de tocar dos músicos – todos grandes virtuosos e com um domínio notável do tempo, o que permitia que tudo se tornasse elástico e fresco – a noção de compasso e os sons à volta de cada tempo em cada compasso, conferiram uma sonoridade completamente nova a cada canção.

Na Tournée de Day Dream, realizou 20 concertos a nível Nacional. Qual foi a reação do público?
Tivemos a maior parte das salas esgotadas – os nossos concertos são pensados como um todo – tudo é pensado ao pormenor entre mim e a minha atual manager, para que a música cresça em palco e chegue totalmente às pessoas. O auge do espetáculo tornou-se A Canção de Embalar, do Zeca Afonso – toda a gente cantava comigo – isso deu ideias à minha manager para o disco seguinte.

JacintaHá alguma razão específica para, no início de 2007, avançar com produção independente de agenciamento e management?
Sim, a minha atual manager, Maria Joana Pereira, já fazia parte da equipa na tournée do Day Dream. Ela viu como decorriam as coisas fora e em cima do palco e achou que muita coisa poderia ser diferente e melhor – falámos muito sobre isso e eu resolvi desligar-me da Agência a que estava ligada e convidá-la para minha Manager de Carreira. Passado um ano, tínhamos toda uma equipa formada por nós, que tratava de tudo na minha carreira: agenciamento, management de carreira e produção de concertos – uma máquina cara de manter com um único artista, mas que permitiu a concretização de muitos mais projetos.

Zeca Afonso aparece por várias vezes ao longo da sua carreira, inclusivamente no seu terceiro disco. É para si um autor de referência? Fale-nos um pouco deste seu terceiro trabalho discográfico que, mais uma vez, vendeu mais de 20000 unidades em Portugal.
Redescobri o Zeca com este projeto. Fomos buscar os temas mais complexos musicalmente e os menos políticos a nível de mensagem. Percebi a genialidade deste grande autor português, inclusivamente nos arranjos que tem nos seus discos – melodia em 4 por 4, com acompanhamento em 6 por 4 (em Que Amor não me Engana). Quarteto de trompas a acompanhar uma única voz num cantar mais tradicional (em Adeus ó Serra da Lapa), métricas melódicas polirrítmicas (em Redondo Vocábulo), etc. No nosso disco, aceitei o desafio da minha manager de fazer com um formato sui géniris, sem contrabaixo: apenas voz, bateria e piano – o que obrigou a uma forma de tocar diferente, originando sonoridades distintas do jazz tradicional.

Também foi em 2007 que a revista Seleções do Reader’s Digest escolhe Jacinta como a melhor jovem artista de jazz do continente europeu no âmbito da iniciativa “O Melhor da Europa”. Deve ter sido um momento de grande emoção para a Jacinta…
Sem dúvida pois na Europa o mercado é bem maior que em Portugal e há muito mais artistas de Jazz, por isso foi um prémio mais precioso…

2009 foi um ano muito intenso na sua carreira. Pode falar-nos um pouco do projeto “Songs Of Freedom”, da “Residência Artística” de 11 dias que inaugurou musicalmente o espaço BES Arte & Finança e do seu 4º álbum mais uma vez com etiqueta da Blue Note?
"Songs of Freedom" foi mais um projeto criado pela minha manager, Maria Joana Pereira, estreado no Jardim de Inverno do São Luiz – com 9 noites esgotadas, que inclui temas Pop dos anos 60,70 e 80. A Residência Artística no Bes, foi uma série de ensaios abertos, Master Classes, workshops, e aulas que orientei ao longo daquelas semanas, e que culminou com os dois concertos que sobrelotaram aquele espaço, também com o projeto Songs of Freedom. Depois de alterações nos arranjos, acabámos por gravá-lo em Estúdio e lançar o Disco na Blue Note – mais uma vez um formato diferente: voz, piano e saxofones.

Em 2010, a sua carreira expande-se para o mercado internacional com participações em vários festivais de jazz em Atenas, Cartago e Istambul. É também neste ano que abraça o projeto em duo com o pianista Jason Moran. Jacinta é a prova viva de que ser português não é impeditivo para ser respeitada musicalmente em todo o mundo. Alguma vez, ao longo da sua carreira, sentiu que tinha que provar mais do que outros artistas por vir de um país pequeno, longe dos grandes centros de decisão?
Sim – com a minha aparência de branca, olhos azuis e um sotaque forte no inglês, várias vezes senti que rapidamente seria posta de lado – mas toda a desconfiança se desvanecia quando me ouviam cantar – sem sotaque estranho, e com uma linguagem jazzística completamente universal, sabendo liderar musicalmente uma banda com grandes músicos convidados, em qualquer tipo de palco do mundo.

Queremos agradecer-lhe a amabilidade e gentileza com que prontamente aceitou dar esta entrevista ao XpressingMusic. Pode partilhar connosco e com os nossos leitores alguns dos projetos futuros que tem em mente?
São tantos que quero concretizar! O tempo é sempre pouco e o segredo a alma do negócio!... Obrigada!

Jacinta

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