Entrevista com Danças Ocultas

Danças OcultasNuma entrevista onde passámos pela história dos Danças Ocultas e pelos contornos da sua carreira atual, tivemos ainda o prazer de melhor entender a génese das criações deste grupo que deixa preciosas dicas aos que agora iniciam os seus projetos e aprendizagens musicais. “Uma ilação que podemos tirar da nossa carreira artística é que vale bem a pena investir em projetos artísticos diferenciados, únicos e não em cópias de modelos de sucesso e popularidade. A afirmação artística pode custar e demorar mas, se houver paciência, a consagração e o reconhecimento virão!”

Antes de sabermos um pouco mais sobre a concertina e sobre a(s) história(s) dos Danças Ocultas, gostaríamos que dessem a conhecer aos nossos leitores a origem do vosso nome.
A concertina, em todo o mundo, sempre foi um instrumento para fazer dançar. Como a música que nos propusemos fazer, inédita e distante do folclore, não tinha formas de dança associada, digamos que a dança estaria oculta. Curioso foi, mais tarde, virmos a ter colaborações com a Companhia Paulo Ribeiro e com o Ballet Gulbenkian na área da dança contemporânea!

Podem partilhar connosco um pouco da história desta formação?
São 4 amigos que se conhecem nos finais dos anos 80 no meio folclórico de Águeda e que tocam o mesmo instrumento, a concertina. A propósito de umas sessões de preparação artística para uma deslocação ao Canadá de um grupo folclórico local, continuaram-se esses encontros a experimentar repertório não convencional na concertina. Dada a nossa atitude inquieta perante a relação do instrumento com a tradição, surgiu a necessidade de se transcrever material para esta formação, entre o qual se destaca alguma música clássica e repertório tradicional e popular de outros países. Já no início dos anos 90 vêm as composições inéditas.

Danças OcultasO que diferencia a concertina e a torna tão especial ao ponto de apostarem numa formação constituída somente por estes instrumentos?
O acordeão diatónico – em Portugal conhecido por concertina – é um instrumento concebido na primeira metade do século XIX da família dos aerofones de palheta livre. É um instrumento polifónico com um teclado na mão direita desde o registo de médio grave ao sobre agudo e, na mão esquerda, com baixos e acordes previamente formados. Isto permite que um só destes instrumentos faça ao mesmo tempo melodia, contraponto, baixo e harmonia. O nosso objectivo foi que, à semelhança dos quartetos de câmara, essas funções musicais fossem repartidas pelos quatro músicos.

No primeiro disco, “Danças Ocultas” (1996), predominam as composições de Artur Fernandes. O Artur assume-se como o líder deste projeto, ou, cada um dos elementos tem funções distintas embora com o mesmo grau de importância? Pode aproveitar para apresentar os elementos do grupo.
O Filipe Ricardo toca habitualmente o baixo, no caso na concertina baixo, instrumento concebido por nós especificamente para as Danças Ocultas; o Filipe Cal toca a harmonia e eu, Artur Fernandes, juntamente com o Francisco Miguel tocamos alternadamente melodias e contrapontos. Quanto ao trabalho de composição e arranjo, no início foi mais desempenhado por mim mas, ao longo dos tempos, foi-se equilibrando passando para um sistema de composição colectiva em oficina. Para além da música repartem-se depois também outras funções administrativas, logísticas e de gestão de carreira artística.

De 1996 até 1998 sentiram certamente evoluções individuais e colectivas que conduziram ao lançamento do disco “Ar”. Podem falar-nos deste período? O que mudou durante estes dois anos?
Efetivamente o primeiro álbum foi gravado em 1994 e só editado em 1996 pelo que para nós o período de separação entre os dois álbuns foi de 4 anos. Neste período houve uma grande evolução técnica individual e coletiva que permitiu um segundo álbum mais arrojado. Foi o tempo das primeiras internacionalizações (Marrocos e Espanha). Introduziu-se neste período a concertina baixo.

Só voltaram a editar um novo trabalho em 2004 (Pulsar). Este tempo de interregno foi programado ou fruto do acaso e das vidas profissionais paralelas de cada um dos elementos do grupo? O que nos quiseram trazer com o trabalho: “Pulsar”?
Este interregno foi causado pela intensa atividade artística: A nível nacional presença em grandes eventos e festivais, a nível internacional concertos e tournés em diversos países europeus (33 espetáculos em 8 países), as colaborações com a dança contemporânea - Companhia Paulo Ribeiro e Ballet Gulbenkian com espetáculos em Portugal e diversos países europeus, a edição em França do álbum Travessa da Espera e a edição do livro Alento - Danças Ocultas.
O álbum Pulsar é a partilha da nossa música com outros instrumentos e outros músicos, destacam-se as participações do sírio Abed Azrié, Maria João e Mário Laginha, Gaiteiros de Lisboa, Edu Miranda entre outros. Grande parte das músicas incluídas neste álbum foram criações originais para “Tristes Europeus” e “White”, as coreografias de Paulo Ribeiro.

Danças OcultasTarab surge como uma celebração dos sucessos atingidos com os discos e com os inúmeros espetáculos realizados até então? Podemos saber mais sobre o que pensam, enquanto autores, relativamente a este disco?
Tarab é um termo árabe para designar o estado de elevação, celebração e comunhão espiritual – um êxtase – que é atingido simultaneamente pelo executante e pelo ouvinte durante um ato musical bem conseguido: Tarab é o objetivo da música e dos esforços de quem a pratica. A chegada a este estado, mais pela emoção do que pela razão, é mais facilmente atingido pelo poder hipnótico da repetição. O repertório de Tarab são instalações rítmico harmónicas muito simples, por vezes uma única harmonia do princípio ao fim.
Tarab assinalou o recentramento do grupo numa reinterpretação dinâmica do seu percurso comum, e uma nova afirmação da música como linguagem de fraternidade universal. O espetáculo de palco, com projeção multimédia de Luís Girão, foi estreado no X Festival de Músicas do Mundo de Sines.

Os Danças Ocultas foram eleitos para a Seleção oficial da Womex 2010. Este factor teve influência na vossa carreira mais recente? De que forma?
Este evento teve um impacto tremendo na nossa carreira artística internacional. Nestes 2 anos pós Womex temos 40 concertos em 13 países. Em alguns casos a tocar nas principais salas de espetáculo desses países: Luxemburgo, Dinamarca, Hungria e Taiwan.

São hoje um grupo internacional. Podem dizer-nos que países já tiveram o privilégio de ouvir a vossa música?
Para além de Portugal e por ordem de presença: Marrocos, Espanha, França, Itália, Bélgica, Holanda, Inglaterra, Sérvia, Alemanha, Suíça, Áustria, Dinamarca, Luxemburgo, Hungria, Suécia, Croácia e Taiwan. Poderão encontrar as listas e mapas detalhados de todos os nossos concertos em dancasocultas.com/mapas-concertos.

Duas questões finais. A primeira prende-se com projetos para um futuro próximo. Podem revelar-nos o que se pode esperar dos Danças Ocultas para 2012/2013? A segunda questão é relativa aos conselhos que podem dar, após todo o vosso percurso, para aqueles jovens que agora dão início aos seus projetos.
O ano de 2013 será essencialmente para preparar um novo álbum que neste momento está ainda numa fase de esboço composicional. Entretanto até ao fim deste ano temos uma intensa atividade onde se destacam concertos na Fundação de Serralves e na Casa da Música, Festivais na Itália e na Alemanha (neste caso com Maria João como convidada) e tourné de 9 espetáculos na Bélgica. (Mais detalhes em dancasocultas.com/agenda)
Uma ilação que podemos tirar da nossa carreira artística é que vale bem a pena investir em projetos artísticos diferenciados, únicos e não em cópias de modelos de sucesso e popularidade. A afirmação artística pode custar e demorar mas, se houver paciência, a consagração e o reconhecimento virão!

Muito obrigado por terem acedido ao nosso convite para esta entrevista.
Danças Ocultas agradecem imenso o interesse do XpressingMusic na nossa atividade.
Aproveitamos para indicar diversos links Danças Ocultas: Site Oficial, facebook, myspace, YouTube.

Danças Ocultas

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