Pedro Janela em entrevista ao XpressingMusic

Pedro JanelaPedro Janela é Compositor, pianista, autor de vários projetos musicais dos quais se destacam “The Casino Royal” e “Grand Hotel”. O seu nome está também associado à banda sonora original de filmes como “Quinze Pontos na Alma” de Vicente Alves do Ó e “República” de Jorge Paixão da Costa. É neste misto de criação e interpretação que fluirá a conversa explanada nas linhas que se seguem.

Pedro Janela faz parte de uma nova geração de músicos de valor acrescentado do nosso país. Qual a faceta profissional que mais o absorve? A de compositor ou a de pianista?
Bom, em primeiro lugar, quero dizer que fico lisonjeado com a consideração. Gosto imenso daquilo que faço e o meu trabalho é um reflexo disso mesmo: paixão pelo som, pela forma como os diferentes timbres se organizam entre si, isto é, pelo "exercício" de pensar o som de forma organizada.
Respondendo à pergunta, nunca me considerei um pianista. Sou um músico que aprendeu piano, mas sempre me interessei por explorar outros timbres. Não sou um pianista no verdadeiro sentido da questão. Tenho algum domínio sobre os instrumentos de tecla e uso esse conhecimento para aprender outras técnicas relacionadas com o orgão Hammond, o clavinet, o Rhodes, os sintetizadores, etc... são instrumentos de tecla com técnicas específicas mas o meu verdadeiro desafio enquanto músico consiste em dominar a arte de combinar timbres e, nesse sentido, a minha constante "inquietação" tem origem na busca da perfeita combinação tímbrica, mesmo que seja uma composição para instrumento solo (o que raramente acontece), é a relação entre melodia/harmonia/ritmo e o consequente resultado sonoro, aquilo que me seduz.
Posso dizer que o meu trabalho enquanto pianista/teclista está constantemente subordinado à composição. Nesse sentido aquilo que mais me absorve é sem dúvida a composição.

Pedro JanelaComo já referimos, o Pedro está ligado à criação de várias bandas sonoras. Os trabalhos realizados para “Quinze Pontos na Alma”, “República” ou para o documentário “Design Atrás das Grades” de Margarida Leitão ou ainda “Dá-me Luz” de Sérgio Nogueira têm ambientes completamente diferentes. Cada obra que concretiza carece certamente de uma absorção das ideias de quem as pensou enquanto mensagem/imagem… Concorda?
Sim, plenamente! Quando faço música para imagem tento perceber de que forma é que a música pode pontuar dramaticamente. No fundo tento criar contextos que ajudem a contar uma história. Tenho aquilo que considero ser a minha matriz sonora, que é transversal a todo o meu trabalho, mas depois tento adaptá-la ao contexto específico. Por exemplo, quando estreámos o "Quinze Pontos Na Alma", os meus colegas do "Casino Royal" cedo perceberam que só podia ter sido eu a fazer aquela bso. A forma como são encadeadas as melodias/harmonias, as combinações tímbricas, a utilização de determinados padrões rítmicos, denunciam-me a quem conhece o meu trabalho. O meu desafio é colaborar com o realizador no sentido de criar um contexto próprio ao filme, mas ao mesmo tempo, enquanto compositor, construir uma identidade  própria.

Pode falar-nos um pouco das suas obras de música contemporânea “Missa Magnificus V.1.05”, “Deliquim” e “Catharsis”? O que nos pretende transmitir quando compõe?
Gosto imenso de trabalhar reportório religioso. Gosto ao mesmo tempo de explorar novas sonoridades com recurso à eletrónica. A junção destes dois universos seduz-me. Poder usar um instrumento orgânico, a voz utilizando uma língua ancestral, o latim, e ao mesmo  tempo explorar uma imensidão de novos timbres no computador abre imensas possibilidades.
Volto a repetir-me, mas o que de facto me interessa na música é o som. Quando faço algo que tenha um texto, procuro fazer com que os ambientes sonoros que crio estejam de acordo com o sentido do mesmo.

Para além desta intensa carreira de compositor de bandas sonoras onde não podemos excluir a sua passagem pela composição musical para teatro, com a participação em “Puta de Vita” de Andrej Kowalsky, sabemos que é também responsável pela criação musical para jogos e aplicações para iPhone e iPad. É um trabalho que surge por acaso na sua carreira ou algo que pensa continuar a fazer?
Pedro JanelaNada acontece por acaso nesta vida... (risos). O convite para fazer a peça "Puta de Vida" surgiu depois do Kowalsky ter visto um concerto da "Missa Magnificus". Tive a possibilidade de desenvolver um trabalho um pouco diferente com um encenador que eu admiro muito. Fui convidado há pouco tempo para fazer um musical. É um projeto que ainda está a ser desenvolvido e por enquanto não posso adiantar grandes detalhes. Será uma grande produção e a ideia é fazer uma digressão planetária.
Em relação aos videojogos, tenho outro trabalho em curso da mesma produtora. É claramente um trabalho para continuar, sem dúvida! Gostava de ter a possibilidade de um dia fazer uma grande produção onde pudesse trabalhar com uma boa orquestra. Existem produtoras estrangeiras que dispõem de mais orçamento para fazer uma bso que uma produtora em Portugal para fazer uma longa-metragem...

Pedro Janela é proprietário do estúdio Mastermix onde desenvolve o seu trabalho como compositor e produtor. Quer partilhar connosco alguns dos últimos trabalhos realizados no Mastermix?
O Mastermix é um estúdio comercial, o que significa que tem as portas abertas a quem lá quiser gravar ou produzir. Nesse sentido, o trabalho que por lá passa abrange, desde bandas rock, a orquestras sinfónicas.
Relativamente aos trabalhos aí realizados, posso destacar o último dos "The Casino Royal" e um disco que estou a compor/produzir atualmente que tem a Sílvia Rizzo como cantora.

Os projectos passam pelo Mastermix mas fica sempre algo que faz de si alguém cada vez mais polivalente e criativo. Concorda?
Absolutamente! Aprendo sempre algo com quem me relaciono. No estúdio tenho a possibilidade de estar em constante aprendizagem com quem trabalho.

Grupos como “The Casino Royal” e “Grand Hotel” estão para o Pedro como um escape para a vida intensamente isolada de um estúdio ou, pelo contrário, o palco é onde vai buscar a vida e a emoção que tão bem faz transparecer nos seus trabalhos de produção?
Sim, sobretudo o "The Casino Royal" já que o "Grande Hotel" não funciona ao vivo.
É verdade que o meu trabalho obriga a isolar-me do mundo. Há dias em que saio para o estúdio de manhã e só volto a falar com pessoas à noite, quando regresso a casa. O palco é de facto um escape. O palco é a festa, a libertação, o contacto com as pessoas, por vezes a catarse. É aí que percebemos quem de facto gosta daquilo que fazemos. O carinho do público dá motivação e inspira-nos.

Por fim, queremos agradecer a prontidão com que aceitou o nosso convite para esta entrevista e pedir-lhe que, como exemplo de um jovem que fez da música profissão, deixe dois ou três conselhos para aqueles que ambicionam também enveredar por esta carreira.
Gostar daquilo que se faz, fazer com paixão e ambição.

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