Entrevista com Luísa Caiano

Luísa CaianoTemos hoje o privilégio de ter connosco a Professora Luísa Caiano. Nos próximos instantes tentaremos saber mais sobre esta Pianista, natural do Porto que abraça a música em várias frentes. Professora, Concertista e Diretora Pedagógica do Curso Silva Monteiro, Luísa Caiano mostra-nos como consegue conciliar todos estes aspetos com a sua vida pessoal.

Como já referimos anteriormente, a Luísa é natural do Porto. Considera que o facto de ter nascido numa cidade com fortes tradições musicais a influenciou nas suas escolhas e, mais tarde, nas suas opções profissionais?
Penso que mesmo antes da “cidade” a maior influência que tive foi a familiar. Tendo tido como professora a minha tia, Conceição Caiano, professora e uma das diretoras pedagógicas do CMSM, desde muito cedo vivi a música de uma forma natural e quotidiana. O fato de o acesso à vida musical portuense me ter sido facilitado e estimulado, foi com certeza uma forte motivação para a ter abraçado profissionalmente.

Sabemos que iniciou o estudo de piano no Curso de Música Silva Monteiro (CMSM) com as professoras Teresa Matos e Conceição Caiano e, posteriormente com o professor Constantin Sandu. Estes nomes tiveram muita influência naquilo que a Luísa é hoje?
Sim, claro. Sei exatamente o que “herdei” de cada um deles. Com a Teresinha (Teresa Matos) lembro-me da forma como dividíamos cada obra em partes e me dizia exatamente o que trabalhar em casa em cada uma das partes. Hoje faço isso com os meus alunos. A minha tia (Conceição Caiano) não era minha professora “oficial”, mas dava-me aulas, eram mais sessões de estudo, 3 vezes por semana. Foi com ela que aprendi as diferentes técnicas de estudo que ainda hoje uso e ensino. Com o professor Sandu foi com quem evoluí mais tecnicamente e com quem comecei a perceber mais sobre as obras que tocava ao nível estrutural e histórico. Mas, sem dúvida, que quem mais marcou a forma como hoje toco e que não posso deixar de mencionar, foi o professor Covalenco, com quem trabalhei sobretudo questões musicais. Foi com este professor que eu senti... que soube desenvolver a minha musicalidade e ainda hoje é com quem trabalho com alguma regularidade.

O facto de participar com regularidade em Masterclasses é revelador da sua preocupação com a sua formação e atualização. Considera que esta deveria ser a postura de todos os músicos?
Claro, acho muito importante ouvir várias opiniões e depois construir a nossa própria interpretação. Neste momento tenho frequentado menos pois trabalho sobretudo música de câmara e é difícil encontrar oferta nesse campo. Acho que é uma área que seria importante de desenvolver. Investir em formação é para mim muito importante e todos os anos me envolvo nalguma formação em diferentes áreas, mas sempre ligadas à minha atividade. No ano passado estive a frequentar um Curso em Workshop Music Leadership em Londres na Guildhall School of Music and Drama e adorei, pois é uma área ainda pouco desenvolvida em Portugal e como também dou vários workshops de música em universidades no estrangeiro para futuros professores de pré-escolar e 1º ciclo, senti que tinha de desenvolver, após ter frequentado o VI Curso de Animadores Musicais da Casa da Música, com os mesmos formadores de Londres. No próximo ano vou investir noutra área que neste momento é importante para mim, que é a Administração e Gestão Escolar.

Em sua opinião, Portugal oferece oportunidades formativas suficientes para que os seus músicos evoluam de forma consistente?
Acho que sim, que temos muito bons professores na área da música nas universidades portuguesas. Claro, que quem quer fazer carreira acaba por ir para o estrangeiro porque abrem-se mais portas e o mercado é maior. Mas acho que temos concertistas portugueses a fazer carreira internacional com a sua formação feita em Portugal e com muita qualidade. Em todas as áreas musicais há muita oferta de diferentes formações e normalmente estou sempre atenta para ver as que me interessam: Masterclasses, workshops, cursos de curta duração, etc. Há muita oferta, só é preciso estar atento!

Pode partilhar com os nossos leitores os seus atuais projetos enquanto concertista? Tem projetos para o futuro que nos possa revelar?
Normalmente tenho um projeto por ano em música de câmara. No ano passado foi com uma cantora e há dois anos com violino. Para o próximo ano ainda não decidi… mas devo integrar a programação do III Ciclo de Recitais que é organizado pelo Curso de Música Silva Monteiro em parceria com a CMP. Apesar de não ter muito tempo para estudar, acho importante manter-me no ativo e continuar a tocar, e claro, porque também gosto muito de o fazer! Quanto a projetos futuros são muitos, no próximo ano letivo o CMSM vai abrir uma vertente diferente na música, mais virada para a música Pop/Rock que vai ser o Rock in School Silva Monteiro, onde alunos de todas as idades podem aprender guitarra elétrica, baixo, voz, bateria ou teclado. Também no próximo ano letivo iremos iniciar um Ciclo de Novos Talentos em parceria com a CMP a funcionar no Teatro do Campo Alegre, que pretende ser um espaço para divulgar os premiados do Concurso de Santa Cecília, concurso organizado todos os anos pelo CMSM e que no ano passado se tornou internacional.

Não deve ser fácil conciliar o estudo do instrumento com a carreira docente e com a direção pedagógica do Curso de Música Silva Monteiro. Qual a atividade que lhe absorve mais tempo?
Não é muito fácil… sem dúvida que a atividade que me absorve mais tempo é a direção, pois as aulas têm horário definido para começar e acabar, mas sempre que tenho tempo livre há alguma coisa para tratar por isso é difícil arranjar tempo para estudar. Muitas vezes não consigo sequer tocar diariamente. Quando tenho algum concerto próximo, que tento estrategicamente marcar para a seguir aos períodos de interrupção letiva, é que me concentro mais no estudo e são sempre alturas que me dá muito prazer voltar a estudar mais intensivamente.

A licenciatura em Pedagogia Musical na vertente de piano na Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa e o mestrado em Ensino da Música na mesma instituição mostram uma clara opção pela vertente pedagógica que sabemos abraçar com muito carinho e empenho. Partilha da opinião tantas vezes veiculada de que um bom instrumentista não é forçosamente um bom professor?
A vertente pedagógica é claramente a que mais me atrai, pois adoro dar aulas e estou sempre a pensar em atividades e estratégias diferentes para motivar os meus alunos. Quanto a essa questão dos professores/instrumentistas acho que ser bom instrumentista não é sinónimo de ser bom professor. Mais importante do que a qualidade concertística é gostar de dar aulas e dos alunos, isso é que faz um bom professor, assim como investir na sua formação, sempre. O contacto com novos colegas, novos professores, novas ideias e partilhar diferentes opiniões é sempre muito benéfico para os professores e para os seus alunos.

Se tivesse algum cargo que lhe conferisse o poder de fazer algumas reformas no âmbito da educação artística e da educação musical, quais seriam as primeiras que empreenderia?
Bem… essa é uma pergunta difícil, pois sabemos facilmente enumerar o que está mal, mas não é assim tão fácil empreender mudanças. No entanto, como também estou ligada à educação musical no ensino pré-escolar e 1º CEB reparo na pouca formação dos professores destes níveis ao nível da educação artística. Penso que em primeiro lugar era necessário investir na formação dos professores, pois se os alunos nestas fases, pré-escolar e 1º ciclo, tiverem uma sensibilização artística em geral e musical também mais estruturada e rica, seria mais fácil começarem a estudar música pois já teriam muitas das ferramentas que considero necessárias: sensibilização auditiva, coordenação motora, capacidades rítmicas e melódicas. Muitas vezes deparo-me com alunos universitários que estão a frequentar licenciaturas em pré-escolar e 1º ciclo e não sabem sequer cantar uma canção afinada! Penso que esta é uma situação grave, pois se não se sentem à vontade para cantar, que é a base da educação musical, de certeza que não vão estimular os seus futuros alunos a fazê-lo. Temos de ter noção da importância do estímulo por parte destes professores e nestas faixas etárias pois, neste momento, a maior parte dos alunos só começa a estudar música formalmente com 10 anos de idade, que é quando podem integrar o ensino articulado, e é importante que já tenham essas capacidades básicas desenvolvidas, pois senão é muito difícil para eles acompanhar os programas vigentes.

Concorda com os programas oficiais que vigoram nos conservatórios portugueses?
Penso que os programas estão muito desatualizados e é preciso analisar o novo panorama musical. Como já disse anteriormente, a maior parte do alunos integra o 1º grau com 10 anos de idade sem ter tido estudos musicais prévios, e se formos a ver o programa do 1º grau, é quase impossível e desmotivante exigi-lo a um aluno que acabou de começar a estudar música! Os programas a partir do 1º grau estão pensados para alunos que tiveram os 4 anos de iniciação musical, mas essa não é a realidade de hoje. Apenas uma pequena percentagem dos alunos o faz, e esses sim, não têm problemas em cumprir os programas, mas exigir, por exemplo, a um aluno que não teve iniciação que toque Bach no seu primeiro ano de instrumento é impensável! É muito urgente restruturar os programas e adaptá-los a esta nova realidade que foi a “massificação” do estudo da música, com o regime articulado.

Pode eleger uma característica que diferencie o Curso de Música Silva Monteiro das restantes ofertas formativas existentes no nosso panorama educativo?
Uma só é difícil… tenho de referir várias! Mas a mais especial penso que é o ambiente que se vive na escola. A escola desde sempre funcionou numa casa e o ambiente que se vive é muito acolhedor. É um ambiente muito especial que se vive quando se entra na escola. O que eu acho que a diferencia das outras escolas são os inúmeros projetos em que a escola está envolvida. Quando se deu o boom dos alunos do regime articulado, o CMSM quis ir mais longe e levar o ensino articulado a alunos socialmente desfavorecidos. Nasceu assim o projeto “Música para todos” em parceria com a Fundação Porto Social e o ensino articulado foi implementado em agrupamentos TEIP do Cerco e do Viso. A FPS providencia os instrumentos para estes alunos e o CMSM as aulas funcionando em regime articulado na própria escola do ensino regular ou na Quinta da Bonjóia (sede da FPS). Também desta parceria nasceu a Orquestra Juvenil da Bonjóia que inclui todos os alunos do CMSM e já conta com cerca de 130 elementos e se apresenta regularmente no Rivoli Teatro Municipal. Este é um projeto que o CMSM abraçou com muito carinho pois o objetivo foi que todos os alunos, de todos os contextos sociais pudessem conviver através da música, e este projeto tem sido um sucesso a todos os níveis. Todos os alunos estão muito motivados e isso é muito gratificante de assistir. No próximo ano, e em parceria com a CMP, o CMSM vai organizar o III Ciclo de Recitais. Os Ciclos de recitais têm início de Outubro a Julho e o CMSM é responsável pela programação mensal de 3 espaços municipais – Museu Romântico, Palacete Viscondes de Balsemão, Quinta da Bonjóia. Este Ciclo é muito importante porque dá oportunidade aos professores do CMSM de tocarem em público e oportunidade aos alunos de assistir a uma programação cultural muito diversificada e de poderem ver os professores tocar, que é muito importante para a formação deles.

Agradecemos à Luísa a prontidão com que acedeu em facultar-nos esta entrevista. A curiosidade natural de quem vê a Luísa ligada a reportórios mais eruditos leva-nos a elaborar estas últimas questões. Ouve outros géneros musicais nos seus momentos de lazer? Quais? Quer aconselhar aos nossos leitores alguma das suas últimas audições?
Não, não ouço muito outros géneros de música, por isso é difícil de aconselhar. Nunca comprei nenhum cd de música que não fosse “clássica”. Ouço outros géneros de música, sobretudo quando ouço rádio ou quando estou com os amigos, mas muitas vezes gosto de uma música ou outra, mas nem sei de quem é! Quando estou em ambientes mais descontraídos gosto de ouvir música brasileira, mas também gosto ocasionalmente de sair para dançar! Agora, em concertos de música Pop/Rock não correm o risco de me encontrar pois é muita confusão, apesar de gostar de uma música ou outra.

Luísa Caiano

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