João Vaz. O órgão, a carreira e a vida do organista português.

João Vaz, Órgão

«Tenho muitos projetos e, infelizmente, nem sempre o tempo necessário para os concretizar... Em 2017 cumprem-se trezentos anos sobre a data do lançamento da primeira pedra do Palácio Nacional de Mafra e haverá um número de eventos envolvendo os seis órgãos. Saliento, em maio, a celebração do Dia da Europa, com a participação de organistas de diferentes países da União Europeia, e as atividades em torno da reunião anual da ECHO (European Cities of Historic Organs), associação de que Mafra é membro desde 2014 da qual assumirá a presidência neste ano. Por coincidência, ocorre também o tricentenário do nascimento de João Fontanes de Maqueira, construtor do órgão de São Vicente de Fora, pelo que também aí haverá motivo para comemorações especiais, prevendo-se o lançamento de um DVD sobre o instrumento. E há mais novidades para este ano, mas esperarei pelo momento certo para as anunciar...».

Agradecemos desde já a sua amabilidade. Como foi o seu percurso de aprendizagem musical antes de estudar com Antoine Sibertin-Blanc e José Luis González Uriol?
Nasci no seio de uma família sem qualquer tradição musical. No entanto, tive a sorte de ter crescido em frente a uma igreja com órgão (o que, na época, não era uma circunstância comum), pelo que o som do instrumento sempre me foi familiar. Um dia, ouvi Antoine Sibertin-Blanc na Sé Patriarcal de Lisboa (longe de sonhar que viria a ser seu aluno) e, a partir desse momento, nada mais foi igual. Lancei-me então na aprendizagem do órgão, inicialmente de uma forma pouco sistemática e, pelo menos em algumas áreas, relativamente autodidata. Eventualmente, o meu interesse e inclinação tornaram-se de tal forma evidentes que levaram várias pessoas a encorajar-me a seguir um estudo musical regular.

Antoine Sibertin-Blanc e José Luis González Uriol foram os seus grandes mestres?
Antoine Sibertin-Blanc foi uma figura decisiva – ou melhor, «a» figura decisiva – na minha formação. Como já referi, foi ao ouvi-lo tocar que se definiu em mim a vocação para ser organista. Mais tarde, foi com ele que fiz todo o meu percurso de aprendizagem no Instituto Gregoriano de Lisboa e na Escola Superior de Música de Lisboa. Foi com ele que conheci o repertório e, sobretudo, o instrumento. O contacto com José Luis González Uriol deu-se numa fase mais adiantada da minha formação (quando estudei em Saragoça, como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian) e foi fundamental, não só porque me permitiu aperfeiçoar os meus conhecimentos na área da música ibérica, mas também porque me abriu os horizontes para o contacto com diversas correntes performativas. Em resumo, posso dizer que o organista que sou hoje tem muito a ver com o contacto com José Luis González Uriol mas, se sou em primeiro lugar um organista, devo-o a Antoine Sibertin-Blanc.

Há outros nomes que o tenham marcado muito no seu processo de aprendizagem?
Durante o meu percurso enquanto estudante, houve várias pessoas com quem contactei e que me influenciaram. Posso referir duas: Édouard Souberbielle, com quem trabalhei já no final da sua vida e que me impressionou pela sua cultura universal, disciplina de trabalho e visão da música, e Joaquim Simões da Hora que me introduziu no mundo da Música Antiga e da interpretação historicamente informada. Mas, para um músico, o processo de aprendizagem nunca termina e, ao longo de toda a vida tenho beneficiado de uma constante troca de ideias com colegas das mais variadas zonas do mundo.

João Vaz, ÓrgãoA música de órgãos portugueses do final do século XVIII é uma área pela qual tem preferência? O que o levou a debruçar-se academicamente sobre este período, empreendendo até uma investigação doutoral neste âmbito?
Durante muito tempo, o repertório português para órgão conhecido cingia-se aos séculos XVI e XVII. Por outro lado, a esmagadora maioria dos órgãos históricos portugueses data da segunda metade do século XVIII ou das primeiras décadas do século XIX. Na tentativa de explicar esta contradição era frequentemente dito que o repertório dos séculos XVIII e XIX não tinha sobrevivido às catástrofes naturais ou aos tumultos sociais, ou mesmo que nunca tinha existido. A curiosidade por este assunto levou-me a desenvolver uma investigação que, eventualmente, se transformou numa tese de doutoramento. O tema é, no entanto, vastíssimo e a investigação continua...

Após essa investigação, quais foram os grandes pilares temáticos que emergiram do seu trabalho? Quais as principais conclusões?
A primeira conclusão é que a produção musical para órgão nos séculos XVIII e XIX não só existiu como foi extremamente intensa. Este fluxo composicional só foi interrompido (ou, pelo menos, drasticamente diminuído) em 1834, devido à extinção das ordens religiosas e do Seminário Patriarcal. Atualmente já foram estudadas e publicadas várias obras para órgão solo de compositores como Frei Jerónimo da Madre de Deus, Frei Francisco de São Boaventura, Marcos Portugal ou Frei José Marques e Silva. Se considerarmos ainda a produção vocal com órgão daquele período, apercebemo-nos de que é das mais vastas de toda a história da música portuguesa. A segunda conclusão é que há uma íntima ligação entre o repertório e os instrumentos. A partir dos finais do século XVIII desenvolveu-se em Portugal um tipo particular de órgão, com recursos específicos que se afastam da tradição ibérica, e todo o repertório português produzido naquela época procura fazer uso dessa especificidade.

Os órgãos históricos portugueses têm merecido a atenção daqueles que têm vindo a tutelar as pastas da Cultura em Portugal?
Há indubitavelmente uma crescente consciência da importância do património organístico por parte das entidades responsáveis. No entanto, as políticas não têm sido consistentes (por exemplo, chegou a existir uma Comissão dos Órgãos Históricos, no seio do então designado IPPAR, a qual deixou de reunir) e as ações tomadas até à data são ainda manifestamente insuficientes (nunca se definiu uma política nacional de classificação e salvaguarda dos órgãos históricos, à semelhança do que sucede noutras áreas do património, e não existe sequer um inventário central dos órgãos portugueses). Há, no entanto, exceções, como por exemplo as Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira, as quais, de forma diversa, têm desenvolvido uma política consequente de restauro, documentação e vitalização do património organístico (são, de resto, as duas únicas zonas do país com inventários oficiais publicados), ou algumas autarquias, como por exemplo Mafra ou Santarém, onde se tem verificado um investimento regular nesta área.

A sua carreira divide-se entre a parte performativa e a prática docente. Estas áreas convivem e entreajudam-se entre si?
No campo do ensino, creio que o facto de o docente ser um executante é uma vantagem quer para o professor quer para o aluno. O contacto com o repertório – e, no caso específico do órgão, com os diversos tipos de instrumento – é muito menos imediato para alguém que não tenha uma carreira como executante. Os alunos apercebem-se deste facto e tendem a sentir uma segurança adicional junto a um professor que é um intérprete. Inversamente, para um intérprete que ensina, a necessidade de revisitar uma obra ao trabalhá-la com um aluno é sempre uma experiência estimulante, uma redescoberta que pode trazer novos contributos para a própria conceção interpretativa.

Onde se encontra a ensinar atualmente?
Na Escola Superior de Música de Lisboa, onde coordeno o curso de Órgão. Colaboro também, todos os anos, no Curso de Música Antiga ESMAE/ESML.

João Vaz, ÓrgãoAté aos dias de hoje têm-lhe sido entregues grandes “empreitadas”. Exemplo disso mesmo foi a sua nomeação para consultor permanente para o restauro dos seis órgãos da Basílica de Mafra. Este foi um projeto que abraçou com todas as suas forças?
Tenho estado ligado a vários projetos, muitos deles relacionados com o restauro de órgãos históricos. O restauro dos órgãos da Basílica de Mafra (levado a cabo entre 1998 e 2010 pelo organeiro Dinarte Machado) foi um projeto fascinante, pela sua dimensão, pelos desafios que apresentou e por todas as implicações ao nível da compreensão da organaria portuguesa do final do século XVIII e do repertório a ela associado. Foi também um projeto que correu bem (merecendo um Prémio Europa Nostra em 2012) e que teve um enorme impacto junto do público: Mafra é hoje uma espécie de «templo do órgão», atraindo todos os anos milhares de pessoas que vêm ouvir os seis instrumentos. O crescente interesse pelo órgão histórico levou a um aumento exponencial do número de restauros, mas, dada a ausência de um mecanismo legal de classificação e proteção dos instrumentos, este aumento não é isento de perigos. Ao longo dos últimos vinte e cinco anos, foram realizados trabalhos de excelente qualidade (tanto por organeiros portugueses como estrangeiros), mas foram também feitas intervenções que levaram à descaracterização (e, em alguns casos, à destruição) da matéria histórica. A reflexão crítica, tanto na escolha do organeiro como no acompanhamento dos trabalhos, é fundamental.

Também a direção artística do Festival Internacional de Órgão de Lisboa e do Festival de Órgão da Madeira foram desafios que abraçou com agrado...
A divulgação da cultura organística tem sido um dos meus objetivos. Graças ao esforço de muita gente, temos hoje, por comparação com duas ou três décadas atrás, mais órgãos (novos ou restaurados), mais escolas, mais professores e mais alunos. Temos, também, um público muito mais numeroso. Creio que o Festival Internacional de Órgão de Lisboa contribuiu decisivamente para a formação desse público (pelo menos na região de Lisboa) e serviu de modelo para muitas iniciativas de norte a sul do país. O Festival de Órgão da Madeira é um caso excecional, pois resulta de uma política consistente de recuperação, documentação e divulgação do património organístico, desenvolvida pelo Governo Regional madeirense ao longo de mais de vinte anos. Tendo estado ligado a esse processo desde o final da década de 1990, é com grande satisfação que vejo o Festival de Órgão da Madeira afirmar-se como um dos eventos do género com maior expressão em todo o país.

O facto de ser organista titular de São Vicente de Fora, em Lisboa, permite-lhe ter uma prática performativa intensa e com apresentações regulares?
Enquanto titular, tenho procurado sobretudo valorizar o instrumento. Ao longo das últimas décadas, especialmente após o restauro de 1994, o órgão de São Vicente de Fora tem-se afirmado como um dos símbolos da paisagem organística portuguesa. É um dos órgãos históricos mais visitados por organistas (portugueses e estrangeiros) e, com a criação da série de concertos mensais, um dos instrumentos mais próximos do público (centenas de pessoas acorrem a cada concerto). Tenho também procurado que todos os alunos da Escola Superior de Música de Lisboa passem por ali durante o seu percurso: para muitos deles, aquele instrumento tem sido uma porta para o mundo do órgão histórico e da Música Antiga (especialmente a ibérica). Num registo mais pessoal, o maior privilégio é poder contactar regularmente com um instrumento com aquela qualidade e aquela história: há algo de especial em tocar todas as semanas num teclado com mais de duzentos e cinquenta anos!

Mais uma vez agradecemos a atenção que dedicou aos nossos leitores e à nossa equipa. Tem ainda muitos projetos guardados “na gaveta” que gostasse de colocar em prática num futuro próximo? 2017 vai ser um ano de novos desafios?
Tenho muitos projetos e, infelizmente, nem sempre o tempo necessário para os concretizar... Em 2017 cumprem-se trezentos anos sobre a data do lançamento da primeira pedra do Palácio Nacional de Mafra e haverá um número de eventos envolvendo os seis órgãos. Saliento, em maio, a celebração do Dia da Europa, com a participação de organistas de diferentes países da União Europeia, e as atividades em torno da reunião anual da ECHO (European Cities of Historic Organs), associação de que Mafra é membro desde 2014 da qual assumirá a presidência neste ano. Por coincidência, ocorre também o tricentenário do nascimento de João Fontanes de Maqueira, construtor do órgão de São Vicente de Fora, pelo que também aí haverá motivo para comemorações especiais, prevendo-se o lançamento de um DVD sobre o instrumento. E há mais novidades para este ano, mas esperarei pelo momento certo para as anunciar...

João Vaz. O órgão, a carreira e a vida do organista português.

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