Trompas Lusas: concertos, masterclasses e o novo CD passados em revista

Trompas Lusas

José Bernardo Silva, membro fundador do quarteto Trompas Lusas, respondeu às perguntas do XpressingMusic e revelou os objetivos deste projeto para 2017. «Em 2017 as Trompas Lusas pretendem continuar a desenvolver os dois grandes objetivos que movem o grupo desde o seu início: uma atividade concertística regular, divulgando o repertório original para a formação e alargando o repertório com novas composições; e atividades pedagógicas de forma a promover a trompa e incentivar o estudo do instrumento. Para além de trompistas ativos somos também professores e assim sendo, a vertente pedagógica foi sempre muito importante. Além disso, nos próximos meses iremos continuar a promover o nosso novo CD fazendo várias apresentações».

Podem falar-nos um pouco de como foi o vosso início? Antes de 2010 já ambicionavam construir uma formação com as características atuais?
As Trompas Lusas são um quarteto de trompas português, fundado no ano de 2010, que está radicado na zona do Porto. O projeto nasceu de uma relação de amizade de vários anos. Fizemos a nossa formação inicial na mesma escola, Artave, e fomos convivendo regularmente tocando inicialmente em Bandas Filarmónicas, e mais tarde colaborando em várias orquestras. Durante anos tivemos em mente o projeto de criar um quarteto de trompas, pelo grande prazer em fazermos música de câmara e por podermos fazê-lo entre amigos. Por uma razão ou outra o projeto ia sendo adiado até que em 2010 surgiu a oportunidade para um concerto, e esse foi o ponto de partida.

Recordam-se bem da vossa primeira apresentação pública?
Sim, foi em 2010. Foi em Espanha, como solistas com a Orquestra Sinfónica da Cidade de Pontevedra, apresentando o Konzerstück para 4 trompas de Robert Schumann. Foi um enorme desafio começar com uma obra de dificuldade tão elevada, mas os sucessivos ensaios e o resultado do concerto deu-nos a motivação necessária para continuar com o projeto. Fez-nos acreditar que poderíamos ter um projeto de sucesso.

Onde têm sido mais bem recebidos? Portugal, Espanha, Alemanha, Inglaterra...
Fora de Portugal as Trompas Lusas já se apresentaram em Espanha, Alemanha, Inglaterra e Finlândia. Felizmente temos sido sempre muito bem recebidos. Podemos destacar três dessas apresentações: o concerto no 46º Congresso Internacional da Sociedade Internacional de Trompas (IHS), em Londres 2014; em julho de 2016, na Finlândia, tivemos uma dupla apresentação no conceituado festival de metais Lieksa Brass Week; e em dezembro de 2016 apresentação do nosso novo CD em Madrid, por ocasião do 1º Congresso Internacional de Trompa de Madrid.

Houve outros projetos internacionais em que se tenham inspirado para construir o vosso “Trompas Lusas”
Sim, há vários excelentes agrupamentos que nos inspiraram, assim como a várias gerações de trompistas: American Horn Quartet (AHQ), Budapest Festival Horn Quartet, Leipzig Horn Quartet, Berliner Philharmonic Horn Quartet e Deutsche Naturhorn Solisten. Mas tal como a maioria dos trompistas da nossa geração, a primeira grande referência em quartetos de trompas foi o AHQ. Era um agrupamento que se distinguia pela sua virtuosidade e coesão técnica, o equilíbrio sonoro e com um fantástico repertório. O trabalho que o AHQ desenvolveu continua a ser um exemplo para quem quer ter sucesso com um quarteto de trompas. Por um lado divulgou fantásticas obras que eram desconhecidas do grande público e por outro alargou o repertório com excelentes novas composições e entusiasmantes arranjos.

Trompas LusasApresentem aos nossos leitores os elementos do projeto “Trompas Lusas”...
O quarteto Trompas Lusas é um agrupamento formado por quatro trompistas portugueses: José Bernardo Silva é membro efetivo da Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música, colaborando ainda regularmente com várias outras orquestras, tanto em Portugal como em Espanha. Leciona na Universidade de Aveiro e Escola Profissional de Música de Espinho; Bruno Rafael leciona na Academia de Música de Guimarães, Universidade do Minho e Escola Profissional de Música de Viana do Castelo. É membro da Orquestra de Guimarães, colaborando ainda regularmente com várias outras orquestras nacionais; Nuno Costa leciona no Conservatório do Vale do Sousa, Escola Profissional de Música e Academia de Espinho. É membro da Orquestra de Guimarães, colaborando ainda regularmente com várias outras orquestras nacionais; Hugo Sousa leciona no Conservatório Regional de Vila Real, Academia de Música Sociedade Vizelense e Academia de Música de Vila Verde. Especialista em trompa grave, é muito requisitado para colaborar com as principais orquestras nacionais.

O projeto tem também uma função pedagógica... Podem falar-nos dessa caminhada que tem passado pela divulgação do instrumento e pela formação?...
A função pedagógica do projeto é fundamental, até porque somos os quatro professores bastante ativos. Paralelamente à atividade de concertos o quarteto tem orientado masterclasses e organizado o seu próprio festival, o Festival Trompas Lusas que conta já com três edições. Um festival que promove vários eventos dedicados à trompa e que tem contado com a presença de jovens trompistas de todo o país. Este Festival tem apresentado convidados de renome internacional, como Hermann Baumann, Ab Koster, Radovan Vlatkovic, Marie-Luise Neunecker, Javier Bonet, Abel Pereira, Jonathan Luxton ou Sören Hermansson. O grupo orienta frequentemente masterclasses, promovendo aulas e atividades individuais e em grupo. Para nós é muito importante incentivar a prática em conjunto, a interação e o trabalho em equipa. Através destas ações queremos contribuir para que os jovens trompistas portugueses, e os adeptos da trompa em geral, tenham oportunidade de ouvir, aprender e conviver com os melhores. A realização destas atividades requer um grande esforço mas realiza-nos muito.

Como caracterizam o vosso reportório? Quais os compositores mais revisitados pelas Trompas Lusas?
Tem sido nossa prioridade apresentar, em primeiro lugar, o repertório original para 4 trompas, que é bastante diversificado em estilo. Procuramos que as temáticas abordadas nos nossos concertos sejam sempre variadas. Com esse objetivo também apresentamos regularmente programas tendo como tema um diferente país, compilando repertório de compositores do país retratado. Assim podemos dar a conhecer ao público, de uma forma mais abrangente, as músicas e sonoridades desses países. Já apresentámos programas dedicados a Portugal, Alemanha e Rússia. Em 2017, em concerto na Casa da Música do Porto, apresentaremos um programa dedicado à “Música Britânica para Quarteto de Trompas” com obras originais de James W.Langley, Frank Cordell e Andrew Downes e alguns arranjos de obras de William Byrd e Henry Purcell, entre outros. O grupo procura dar especial atenção à execução de obras com trompas naturais. Embora não nos possamos considerar especialistas, pensamos que diversifica os concertos e a sonoridade do grupo. É interessante para o público conhecer o instrumento antecessor da trompa moderna e assim ter oportunidade de apreciar a sonoridade muito rica e sempre vibrante da trompa natural. Um compromisso nosso é também o de alargar o repertório original para a nossa formação. Neste sentido as Trompas Lusas têm promovido várias encomendas a diferentes compositores, o que tem originado várias estreias. Já realizámos mais de uma dezena de estreias de compositores de Portugal (Eurico Carrapatoso, Sérgio Azevedo, Luís Carvalho, Jorge Prendas e Vítor de Faria), EUA (Kerry Turner e Jon Hansen) e Brasil (Liduino Pitombeira).
Em relação aos compositores mais revisitados pelas Trompas Lusas, podemos destacar Sérgio Azevedo, Kerry Turner e Paul Hindemith. De Sérgio Azevedo, as suas duas Sonatinas para 4 trompas foram já apresentadas em concertos e registadas em gravação; de Kerry Turner apresentamos várias das suas obras e, por último, a Sonata de Paul Hindemith é uma obra referencial para esta formação e que revisitamos com alguma frequência.

Trompas Lusas, The Eternal CityO que trouxe o CD “The Eternal City” de novo em relação ao vosso primeiro trabalho discográfico?
As Trompas Lusas editaram já 2 CDs, “Trompas Lusas” em 2012 e “The Eternal City” em 2016. Ambas as gravações são demonstrativas do trabalho que as Trompas Lusas têm vindo a desenvolver. Uma seleção de repertório muito variado e dinâmico, com obras que exploram as diferentes características e potencialidades da trompa e da formação quarteto de trompas. Procuramos fazer uma mistura de obras de compositores de referência na composição para quarteto de trompas e outros agrupamentos de câmara para instrumentos de sopro (“Trompas Lusas” - Nikolay Tcherepnin, Henri Tomasi; “The Eternal City” - Paul Hindemith e Jan Koetsier), obras novas que nos foram dedicadas (“Trompas Lusas” - obras de Cláudio Moreira e Luís Carvalho; “The Eternal City” - obras de Kerry Turner, Liduino Pitombeira e Sérgio Azevedo) e obras de compositores menos conhecidos mas que no nosso entender são obras interessantes e que são uma excelente adição ao repertorio tradicional para quarteto de trompas (“Trompas Lusas” - obras de Carl Oestreich e Sérgio Azevedo; “The Eternal City” - obras dos compositores Alexander Mituschin e Ito Yasuhide).
O título do nosso novo CD, “The Eternal City”, está relacionado com a obra que abre o CD. Uma viagem em 2013 a Roma, a Cidade Eterna, serviu de inspiração a Kerry Turner para compor esta pequena obra, em género de fanfarra. A obra resultou de uma encomenda que fizemos ao compositor Kerry Turner (membro fundador do AHQ). Consideramos que seria um grande desafio ter uma obra do Kerry Turner escrita para nós. É uma obra que apresentamos regularmente nos nossos concertos, como peça de abertura. Para finalizar o CD “The Eternal City” colocamos como Bonus Track um arranjo de Martin Yates para quarteto de trompas do célebre tema de Georg Gershwin “I got Rhythm”, foi uma forma mais descontraída de concluir o CD.

Podem apresentar-nos a equipa que trabalhou convosco no último disco?
Como ficamos muito satisfeitos com o resultado do nosso primeiro CD decidimos manter a equipa que trabalhou connosco, desde a fotógrafa Susana Neves, designer João Pescada, e o produtor Paulo Constantino da Afinaudio. O Paulo tem muita experiência em gravar diferentes agrupamentos de sopro e é extremamente profissional e perspicaz. Foi gravado no Auditório da FEUP e Sala Suggia da Casa da Música (neste caso a Sonata de Paul Hindemith).

A trompa é hoje vista de forma diferente? Sentem que contribuem para um novo olhar sobre este instrumento?
A trompa é, pela sua natureza, um instrumento impar. A sua sonoridade é única e cativante. O seu papel dentro de uma orquestra sempre foi fundamental e faz uma ligação muito importante entre as famílias dos instrumentos das madeiras e metais. Com o aperfeiçoamento técnico dos seus instrumentistas a trompa passou cada vez mais a ter um lugar de destaque e um papel de solista.
Na música de câmara há formações mais tradicionais e de alguma forma consensuais, como o quarteto de cordas, o quinteto de sopros ou metais. Mas o quarteto de trompas é uma formação muito interessante e com muito potencial, tem sido uma descoberta para grande parte do público, mas as reações têm sido fantásticas e muito motivadoras.

Muito obrigado pelo tempo que dedicaram aos nossos leitores. Quais os principais objetivos e quais os principais projetos para este ano de 2017?
Em 2017 as Trompas Lusas pretendem continuar a desenvolver os dois grandes objetivos que movem o grupo desde o seu início: uma atividade concertística regular, divulgando o repertório original para a formação e alargando o repertório com novas composições; e atividades pedagógicas de forma a promover a trompa e incentivar o estudo do instrumento. Para além de trompistas ativos somos também professores e assim sendo, a vertente pedagógica foi sempre muito importante. Além disso, nos próximos meses iremos continuar a promover o nosso novo CD fazendo várias apresentações.
Nós é que agradecemos a oportunidade e atenção que deram ao nosso agrupamento. Aproveitamos para desejar os maiores sucessos pessoais e profissionais para 2017 aos leitores e a toda a equipa da XpressingMusic.

Trompas Lusas: concertos, masterclasses e o novo CD passados em revista

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