Mickael Viegas apresenta: “The Complete Guitar Works of Heitor Villa-Lobos”

Mickael Viegas apresenta: “The Complete Guitar Works of Heitor Villa-Lobos”

«O meu objetivo com este álbum foi dar vida a uma música que tem vindo a ser silenciada ao longo do tempo pela guitarra devido às limitações inerentes ao instrumento e consequentemente partilhar a experiência auditiva de como soará a guitarra tocada ao vivo se nos dedicarmos à produção daquilo que eu acredito ser o próximo patamar evolutivo do instrumento, ao qual chamei “guitarra do futuro”. Para este fim partilhei no booklet do álbum assim como no vídeo-documentário que aborda o processo de gravação do álbum, realizado pelo Duarte Domingos, uma solução que me parece ser a mais eficaz e que poderá ser estudada pelos luthiers para dar vida a este projeto».

Mickael Viegas seja bem-vindo ao XpressingMusic. Pode falar-nos um pouco sobre o que nos traz com o álbum “The Complete Guitar Works of Heitor Villa-Lobos - The Prospect of a Future Guitar”?
Muito obrigado, o prazer é todo meu. O meu objetivo com este álbum foi dar vida a uma música que tem vindo a ser silenciada ao longo do tempo pela guitarra devido às limitações inerentes ao instrumento e consequentemente partilhar a experiência auditiva de como soará a guitarra tocada ao vivo se nos dedicarmos à produção daquilo que eu acredito ser o próximo patamar evolutivo do instrumento, ao qual chamei “guitarra do futuro”. Para este fim partilhei no booklet do álbum assim como no vídeo-documentário que aborda o processo de gravação do álbum, realizado pelo Duarte Domingos, uma solução que me parece ser a mais eficaz e que poderá ser estudada pelos luthiers para dar vida a este projeto. Para este fim escolhi o compositor Heitor Villa-Lobos devido à estima, respeito e fascínio que a sua obra me causa. Trata-se de uma música revitalizante e que é fruto de uma cosmopolidade de estilos musicais muito particular e singular, onde se encontram claramente influências do seu contacto com a música ocidental, associando-a, em diversos casos, á música folclórica e popular brasileira.

Mickael Viegas

Gravar Villa-Lobos era um sonho antigo?
Foi uma ideia que sempre me atraiu, creio que devido à proximidade que tive com o trabalho do compositor desde muito cedo durante o percurso académico. Mas foi principalmente durante o período em que realizei o mestrado na Universidade da Extremadura que comecei a analisar profundamente as obras do compositor e, tal como em inúmeras outras peças escritas para guitarra, também nesta obra reparei que, devido às limitações polifónicas, e consequentemente harmónicas do instrumento, o compositor retirou ou alterou material constituinte das várias harmonias referenciadas em parte da sua obra. Estas alterações referem-se a, por exemplo, notas simplesmente suprimidas e/ou transpostas para oitavas superiores ou inferiores. É evidente que estes atos são justificados pela vontade de diminuir a dificuldade técnica das obras ou ainda pela impossibilidade de executar determinadas estruturas harmónicas devido à afinação estática do instrumento que tem de se manter preferencialmente inalterada no decorrer de uma música. Tendo em conta estas causas, é normalmente elaborado pelo compositor, um trabalho de “polimento harmónico” derivado da “composição em bruto” para que seja possível uma interpretação eficiente pelo instrumentista. É claro que este tipo de polimento harmónico trata-se de um processo totalmente imprescindível feito pelos compositores quando estes possuem um determinado texto musical e têm de adaptá-lo ao instrumento para o qual pretendem escrever.

Mickael ViegasPode revelar-nos a equipa que participou na gravação e produção do álbum?
Este projeto foi levado a cabo juntamente com o meu amigo engenheiro de som João Santos que partilhou do mesmo entusiasmo e vontade de embarcar nesta aventura assim que lhe expus aquilo que pretendia fazer. Assim iniciou-se uma longa jornada de aproximadamente 3 anos de trabalho, experiências e fantásticas descobertas nos ramos da gravação, edição e masterização do som da guitarra do século XX, mais conhecida como guitarra clássica.

Onde poderá ser adquirido este trabalho discográfico?
O álbum encontra-se à venda, em versão física, nas FNAC e El Corte Inglés. Podem também adquirir exemplares se me contactarem diretamente através do site www.mickaelviegas.com, facebook ou instagram. Em versão digital poderão adquiri-lo em diversas plataformas na internet, nomeadamente iTunes, Amazon, Spotify, etc.

Como surgiu a oportunidade de gravar pela editora parisiense “Paraty” e ver o seu trabalho distribuído pela “Harmonia Mundi”?
Inicialmente, contactei diretamente com a editora Paraty no âmbito de saber se existiria interesse para editar este trabalho. Depois de este ser demonstrado, optámos pela Paraty, primeiramente, devido à visão fresca, jovem e ambiciosa que esta editora continha, contrariamente a outras com quem estive em contacto, e também devido às condições de trabalho expostas que melhor se adequavam aos objetivos do projeto. A Paraty tinha também protocolo com a prestigiada distribuidora de música erudita “Harmonia Mundi” o que reforçou a minha decisão em editar pela Paraty.

Há um documentário dirigido pelo realizador Duarte Domingos que explora o processo de gravação do disco. Sentiu que as especificidades deste trabalho careciam de uma contextualização junto do público?
Não considero que fosse estritamente necessário a elaboração de um documentário para contextualização junto do publico, mas acredito que a elaboração de um vídeo, particularmente hoje em dia, faz com que o trabalho tenha muito mais visibilidade e consequente oportunidade de se dar a conhecer ao público do que de uma outra forma qualquer. O vídeo é atualmente, a meu ver, a forma mais eficaz de exposição e comunicação social. De qualquer modo, o principal objetivo foi partilhar a maior parte do processo de gravação do álbum porque o resultado atingido pode ser considerado novo e suscita interesse quanto ao processo utilizado. O outro objetivo foi apresentar visualmente as soluções que me parecem viáveis para resolver determinadas problemáticas inerentes ao instrumento, tais como a impossibilidade da alteração eficaz da afinação estática atual do instrumento durante o ato de tocar.

Mickael Viegas

O Mickael Viegas também se encontra a participar numa longa-metragem cinematográfica, com o realizador Duarte Domingos... Pode revelar-nos mais sobre esta longa-metragem?
Sim, atualmente estou a realizar uma longa-metragem juntamente com o realizador Duarte Domingos baseada num argumento que escrevi e que tem como objetivo estar associado à minha performance enquanto guitarrista ao vivo durante os espetáculos de apresentação do álbum Villa-Lobos.
Pretende-se com este projeto, criar uma viagem inédita que compreende um vasto cosmopolitismo artístico, tendo este como objetivo inovar e reformar o panorama cinematográfico através da fusão das várias artes já existentes (nomeadamente a Dança erudita, popular e contemporânea, a literatura, a música erudita, popular e eletrónica, a arquitetura, a animação, artes plásticas...) assim como, sensibilizar e apresentar ao mundo um novo formato de espetáculo que estimule e sensibilize as pessoas através da exploração das múltiplas emoções humanas provenientes de todo dinamismo, novidade e diversidade que referenciei.

Mickael ViegasComo foi a reação do público à apresentação realizada em outubro no “Festival de Guitarra de Lagoa”?
Houve já uma apresentação sobre uma versão mais curta do espetáculo no festival de guitarra de Lagoa no dia 16 de outubro, que se revelou ser uma prova singular na minha carreira, tanto pela experiência de tocar prolongadamente sobre uma plataforma visual antecipadamente criada, como pelo feedback do público que foi espetacular e próprio de uma experiência única.
Estamos agora a finalizar a versão integral do vídeo e esperamos conseguir apresentá-lo a todo o mundo tantas vezes quanto possível.

Muito obrigado pela partilha aqui protagonizada com os nossos leitores. Até agora falámos do Mickael e dos seus trabalhos mais recentes mas há certamente um longo caminho já percorrido... Pode falar-nos resumidamente do seu percurso de aprendizagem e daqueles que foram os seus grandes mestres?
Sim, claro. Comecei os estudos de guitarra clássica no Conservatório Regional do Algarve quando tinha 9 anos. Tive na altura professores, hoje grandes amigos, que continuamente me motivaram e me apresentaram inúmeras pérolas artísticas que fizeram com que eu continuasse maravilhado com o mundo da música, professores como, o José Alegre e Eudoro Grade.
Paralelamente aos meus estudos frequentei diversas formações em Portugal e no estrangeiro sob orientação de fantásticos intérpretes e compositores, nomeadamente, Masterclasses com Roland Dyens, Leo Brouwer, Sergio e Odair Assad, Alberto Ponce, Manuel Barrueco, entre outros.
Em 2006 ingressei na Escola Superior de Música de Lisboa onde obtive a Licenciatura em Guitarra sob a orientação do Professor António Jorge Gonçalves, exímio professor na arte do requinte e da sensibilidade sonora extraída do instrumento.
Concluí o curso com a minha primeira performance como guitarrista solista no Concerto nº6 de Leo Brouwer, acompanhado por uma orquestra de cordas na Escola Superior de Música de Lisboa.
Em 2009 ingressei na Universidade da Extremadura onde frequentei as aulas na residência do Luthier Paulino Barnabé, em Madrid, onde obtive o Mestrado no curso “Guitarra Clásica e Interpretacion Musical” sob orientação do fantástico guitarrista espanhol Ricardo Gállen. Foi um privilégio ter tido a oportunidade de ser orientado pelo Ricardo. Todo o seu conhecimento sobre a guitarra, teoria musical e corpo humano transformavam as suas aulas em deleitosas palestras científicas com resultados práticos magníficos em cada um de nós alunos. O curso estimulou todo o potencial e motivação que desconhecia ter ainda em mim.
Na tese de mestrado consegui introduzir o tema que vinha já a trabalhar há algum tempo, o que me ajudou a finalizar o projeto - O livro “Drums on Guitar – The Guitar Rudiments” - que foi publicado pela AVAeditons pouco depois da defesa de tese. Este livro consiste numa obra didática que explora técnicas de percussão, tais como os rudimentos e outros padrões um pouco mais alternativos, adaptando-os à guitarra através do seu exercício ao nível dos dedos, mãos e pulsos. Toda esta adaptação é fundamentada numa base teórica científica acerca da fisiologia do corpo humano exposto no método de execução do livro.
Atualmente sou docente na AMEC Metropolitana em Lisboa.
Para além de todo o estudo que apliquei na guitarra, sempre me dediquei modestamente à aprendizagem de outros instrumentos musicais, particularmente ao piano e percussão, à composição de obras eruditas e bandas sonoras para filmes e outros projetos audiovisuais e arranjos musicais.

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