A soprano Ana Maria Pinto, a pianista Joana Resende e o CD Anterianas

A soprano Ana Maria Pinto, a pianista Joana Resende

«Mais do que um sonho, a gravação da música portuguesa é, desde o início, uma diretiva muito clara. Em janeiro de 2013, altura em que começámos a desenvolver o projeto “Anterianas”, os sonetos de Antero de Quental ressoaram veementemente dentro de nós. Esta vontade de sentir e perseguir algo que possa estar no céu da Ideia, esse lá, mas aonde é lá?, é precisamente o que nos move dentro da música, no domínio da Arte de Música que o poeta Jorge de Sena tão bem pintou nas suas palavras dedicadas à sinfonia da ressurreição de Mahler: Ante este ímpeto de sons e de silêncio, ante tais gritos de furiosa paz, ante um furor tamanho de existir-se eterno, há Portas no infinito que resistam? Estas portas escancaradas para o infinito, encontram-se aí, entre os nossos artistas, que merecem a nossa máxima atenção! Urge pois registar, divulgar e avivar de todas as formas esta herança!».

A Ana Maria e a Joana tocam juntas há quanto tempo? Como se conheceram e como surgiu a ideia de tocarem juntas?
Trabalhamos conjuntamente desde dezembro de 2012. A ideia de constituir um duo que desse especial atenção à palavra poética maturava há já muito tempo em cada uma. No final de 2012, quando Ana Maria regressou de Berlim para Portugal, surgiu um primeiro contacto e percebemos de imediato que havia terreno fértil para desenvolvermos parceria. Tínhamos vários interesses em comum e uma vontade especial de interpretar e dar vida aos compositores e poetas portugueses, que, do nosso ponto de vista, não foram nem são suficientemente valorizados, tanto os modernos como os antecessores. Na esperança de inverter esta tendência, e porque a palavra portuguesa acaba por ser o nosso veículo mais natural, criámos o conceito “da poética à canção”. E muitos têm sido os frutos colhidos do legado dos nossos maiores artistas! Por outro lado, há uma clara vontade de “limpar” a palavra cantada em português, torná-la natural, simples e cristalina, acarretando tanto de carinho como de responsabilidade. E os ensaios começaram precisamente com música de Luís de Freitas Branco (sob poesia de Antero de Quental) e Franz Schubert, com o Lied An die Musik!

A soprano Ana Maria Pinto, a pianista Joana ResendeEmbora nunca nos tenhamos propriamente cruzado, ambas estudamos na ESMAE com professores que muito nos influenciaram e inspiraram da melhor maneira, pelo entusiasmo que nutrem pelo Lied, pela Canção, pela simples cor de um acorde ou pela magia de uma introdução (Joana recorda as aulas passadas com 4 compassos das Fantasiestücke op.73 de Schumann ou a introdução de Morgen! De Strauss). Foram, de facto, os mentores ideais para aquilo que veio a mostrar-se como o ponto central do nosso trabalho artístico; falamos do professor Rui Taveira e do professor Jaime Mota, a quem estamos muito gratas.

O novo disco Anterianas é certamente um sonho concretizado. Este projeto discográfico é o resultado do amadurecimento desde o primeiro dia em que tocaram juntas?
Mais do que um sonho, a gravação da música portuguesa é, desde o início, uma diretiva muito clara. Em janeiro de 2013, altura em que começámos a desenvolver o projeto “Anterianas”, os sonetos de Antero de Quental ressoaram veementemente dentro de nós. Esta vontade de sentir e perseguir algo que possa estar no céu da Ideia, esse lá, mas aonde é lá?, é precisamente o que nos move dentro da música, no domínio da Arte de Música que o poeta Jorge de Sena tão bem pintou nas suas palavras dedicadas à sinfonia da ressurreição de Mahler: Ante este ímpeto de sons e de silêncio, ante tais gritos de furiosa paz, ante um furor tamanho de existir-se eterno, há Portas no infinito que resistam? Estas portas escancaradas para o infinito, encontram-se aí, entre os nossos artistas, que merecem a nossa máxima atenção! Urge pois registar, divulgar e avivar de todas as formas esta herança! Este projeto resulta sem dúvida de um amadurecimento artístico, fomos levadas pela mão dos poetas que trabalhamos: Antero de Quental, Jorge de Sena, Miguel Torga... e temos chegado a alguns lugares onde pressentimos a eterna Primavera, um lugar onde sempre encontraremos novas respostas e onde a holder Kunst, a música, justifica todo e qualquer esforço! Talvez seja este mesmo o sentido que nos move com uma força inabalável, e que nos permite caminhar sem nunca desanimar. Razão pela qual finalizamos este trabalho com o hino à música de Franz Schubert, An die Musik.

A soprano Ana Maria Pinto, a pianista Joana Resende, AnterianasComo caracterizam o trabalho Anterianas?
“Anterianas” é sobretudo um mergulho nesse grande oceano português existencial, um trabalho que tem raiz no horizonte aberto das novas descobertas, sempre com ponto de interrogação como facho de luz a arder. Luís de Freitas Branco foi um dos compositores que conseguiu revolucionar o panorama musical português na sua altura, trazendo consigo a Europa e o que de melhor lá se fazia.
Pelo facto de nós termos viajado, estudado e vivido fora, naturalmente trazemos também na bagagem a vontade de interpretar grandes mestres como Schubert, Brahms, Wolf... Esta é a principal razão pela qual incluímos a canção alemã neste trabalho. Por outro lado, o Lied Der Tod und das Mädchen, cria o espaço perfeito para sintetizar e responder a determinadas questões que pressentimos na poesia de Antero de Quental. “Frente a frente, morte e rapariga, é do mistério que brota a revelação”, frase que colocamos no texto introdutório do nosso CD. É algo audaz, mas é precisamente a partir do mistério inerente à morte que tecemos este programa, sem medos e com a irremediabilidade daquilo que nunca se mostra na mente sem antes passar pelo coração.

Luís de Freitas Branco, Franz Schubert e a poesia de Antero de Quental formam um corpo uno e sólido no vosso trabalho?
Podemos dizer que o que torna este trabalho uno e sólido é a própria universalidade da palavra poética anteriana. A partir da nossa disponibilidade para navegar no desconhecido, tendo como fio condutor o verso acorda, é tempo... vamos naturalmente ao encontro de um sem fim de paralelos que se distribuem no espaço e no tempo. Diz-se que os artistas unem os pedaços soltos do mundo e é mesmo assim, um fenómeno que se desenha através da intuição ante os nossos olhos e só no momento final a obra se mostra por completo. Mais do que factos e circunstâncias que possam unir Freitas Branco a Schubert e a Antero de Quental, importante é o sentido que cada um semeou com a sua obra, e que nos nutre a nós enquanto seres humanos. Esta é a filosofia de base deste trabalho. Quanto às questões musicais e poéticas, ao intercalarmos a Ideia com canções de Schubert, abrimos uma brecha para a reflexão, um espelho de outro tempo, um espectro que nos permite ganhar perspetiva. Der Tod und das Mädchen, Der Geistertanz, Romanze e Der Leiermann, foram escolhidos de modo muito específico para servir esse espelho em determinado momento da espiral que Antero Quental constrói com a sua Ideia. No entanto, ao invés de especificarmos o porquê desta escolha, preferimos deixar o espaço livre para a interpretação do ouvinte. No CD não colocamos poemas nem traduções, preferimos imagens do Cosmos como suporte. Isto serve não só a resposta que encontramos no domínio do indizível, como também a possibilidade de encontrar uma aberta nesse céu incorruptível da consciência.

A soprano Ana Maria Pinto, a pianista Joana Resende

No vosso processo de construção, a poesia é sempre o ponto de partida?
O ponto de partida é a ideia. Naturalmente, cantando e pintando palavras, a poesia impõe-se-nos como forma primordial. Temos criado pontes com a imagem, a sonografia, sensações olfativas ou, como no futuro projeto dedicado a Francisco de Lacerda, a dança. No caso do programa 1914 | 2014, 4 quadros para Luís de Freitas Branco, o que nos motivou foi a construção de um paralelo entre épocas diferentes. Este foi um recital que envolveu muitas questões - musicais, poéticas e sociopolíticas - em que incluímos um excerto do livro “Die Welt von gestern” de Stefan Zweig e de “As portas da percepção” de Aldous Huxley. Realizou-se no Ateneu Comercial do Porto e no Palácio Foz e seria fantástico realizá-lo uma outra vez pois apresentou grandes desafios, assim como questões muito importantes que envolvem uma Europa que está a ser posta à prova das mais variadas formas.

Há mais pessoas envolvidas na concretização deste CD. Quais os nomes envolvidos nesta produção?
Desde a iniciativa à concretização, a produção foi 100% nossa. Na captação de som contamos com o exímio profissional e grande amigo José Fortes. Confinamos a imagem de retrato criativo a Alexandre Costa, a fotografia espacial a Carlos Soares e o trabalho de design a Guilherme Barbosa. Contamos ainda com o apoio do Conservatório de Música do Porto, do Auditório Municipal de Gondomar, da Casa-Museu Teixeira Lopes, do Observatório de Astronomia do Parque Biológico de Gaia, da Livraria Unicepe, da Cooperativa Árvore, de Nigel Randsley e de J. Pinto Leitão SA.

A soprano Ana Maria Pinto, a pianista Joana ResendeEmbora já tenham andado por esse mundo fora, o Porto também está muito vivo na forma como abraçam e transmitem a vossa música?
É a portugalidade que está viva em nós. Gostamos de ir aos lugares onde a palavra portuguesa está pura e em flor como nos diários de Miguel Torga, a essência que é transversal a tudo. Teve enorme importância estudar e viver lá fora, colhe-se muito conhecimento que acaba por, na verdade, intensificar a identidade portuguesa. Valoriza-se mais o que temos e apercebemo-nos de muitas qualidades que devem ser contempladas e assumidas com integridade. Relativamente à linda cidade do Porto, talvez a persistência seja uma qualidade do artista portuense, que, invariavelmente, tem que cantar e tocar como quem lavra a terra, e esperar que a folha nasça a seu tempo. Nada nos é dado ou sugerido, somos nós que criamos e propomos os nossos programas já sabendo de antemão que o mais provável é obter uma resposta negativa; mas não é isso que nos desanima, antes pelo contrário, é motivo para cuidar ainda mais da terra, com todo o carinho e amor pelas coisas que nos movem e que sentimos ter raiz no melhor que há em nós e em Portugal. E não deixa de nos surpreender o público fiel que temos desde o primeiro instante e que, curiosamente, na sua maioria, pertence não à música mas às Artes e às Letras, sinestesia que abraçamos desde o nosso primeiro projeto!

No dia 7 de janeiro apresentarão este disco pelas 15:00 horas na Casa-Museu Teixeira Lopes em Vila Nova de Gaia. Há mais apresentações previstas para os próximos tempos?
Confirmadas, temos para já apresentações no Porto, dia 8 de fevereiro na Livraria Unicepe, em Aveiro, na Biblioteca da Universidade em parceria com Departamento de Comunicação e Arte, e em Lisboa no dia 22 de março no ISEG.

A soprano Ana Maria Pinto, a pianista Joana ResendePara além deste trabalho que agora apresentam em conjunto, cada uma de vocês abraça outros projetos a nível individual?
Ambas acreditamos profundamente no papel da Arte na vida em sociedade e do seu grande potencial na formação de crianças e jovens. Cada uma de nós possui, ainda que em diferentes moldes, projetos próprios na área do ensino. A Joana é responsável, juntamente com o pianista Fausto Neves, pelo projeto musicolorum, que, mais que uma escola, é um conceito de aprendizagem. Partindo de um piano, ensina-se o apreço pela música e pela arte, sem descurar a componente formativa alargada, audições, exames, mas criando igualmente espaço para visitas de estudo, gravações e atividades complementares em espaço exterior. Desenvolve desde 2009 um trabalho conjunto com o pianista Fausto Neves (piano a 4 mãos) e desde 2013 com o tenor João Terleira, em programas tão diversos como “A bela moleira” de F. Schubert, “a t i m e t h e r e w a s” (Britten e Wolf) ou “Como um rio, mar de lava” (Haydn, Lopes-Graça e Schumann). A Ana Maria Pinto é fundadora e presidente da NOVATERRA, Associação Cultural Arte e Ambiente, que abarca uma série de projetos que têm vindo já a decorrer durante o último ano e que servem a inovação e a construção de pontes entre realidades distantes, como é o caso do projecto “Classic meets Africa”, que funde a música clássica com as danças africanas, do Programa “1 ano, 7 projetos para amar o Planeta Terra”, que funde a educação artística e a educação ambiental, o projeto “Clube dos poetas em Flor” que pretende criar pontes entre jovens poetas, compositores e intérpretes ou o “Allatantou Vocal Ensemble”, um grupo de 13 vozes femininas dirigido pela Ana, que se dedica à recolha e interpretação de cânticos da cultura ancestral africana e indígena, estes são alguns dos vários projetos da NOVATERRA, Associação Cultural Arte e Ambiente.

Mais uma vez, muito obrigado por este tempo que dedicaram aos nossos leitores. 2017 será um ano muito centrado na apresentação do CD Anterianas ou já há outros projetos na calha?
O início do ano está essencialmente focalizado na apresentação do CD. Faremos depois novos concertos com o recital “Diários em música, paisagens de Miguel Torga e Lopes-Graça” (programas I e II), assim como o desenvolvimento do novo projeto “Ou a Fragueira ou Paris” dedicado a Francisco de Lacerda, com Rui Silva no adufe e a bailarina Joana Peres. O programa “Folhas caídas, Sehnsucht e saudade” sobre Almeida de Garrett e música de Robert Schumann será também apresentado com o barítono Job Tomé. E no Verão de 2017 está prevista a gravação dos nossos dois recitais sobre os Diários de Miguel Torga. Para já, é o que nos é possível revelar.

A soprano Ana Maria Pinto, a pianista Joana Resende e o CD Anterianas

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