Rute Fernandes. A(s) história(s) de uma flautista portuguesa na Suíça.

Rute Fernandes, Flauta

A flautista Rute Fernandes aceitou o desafio do XpressingMusic para uma entrevista a mais de 2000 quilómetros de distância. A entrevista percorreu várias fases da sua vida, começando pelos tempos em que frequentou a ARTAVE. Também os tempos passados na Haute Ecole de Musique de Genève, na Musikhochschule Luzern e o lugar que ocupa de Flauta Solo e Flautim na Philharmonia Zürich não podiam escapar nesta “conversa” à distância. Quanto aos compositores que mais admira disse-nos: «Gosto muito de tocar Mahler, Strauss e recentemente comecei a descobrir o mundo da ópera, o qual adoro. Mozart, Puccini e Rossini estão entre os favoritos até agora (risos). Além disso, a música de câmara é uma das minhas prioridades atualmente, por isso todo o bom reportório é entusiasmante».

Muito obrigado por partilhar com os nossos leitores o seu percurso académico e artístico. Podemos começar mesmo por aí. Quando teve início a tua aprendizagem? Até entrar para a ARTAVE, quais foram os nomes que mais a motivaram para o que veio a seguir?
Olá Bruno, desde já obrigada pelo convite, é com muito gosto que faço esta entrevista.
O meu percurso, como o de muitos músicos de sopro, começou na banda filarmónica da minha vila, na Sociedade Musical de Pevidém, quando tinha 8 anos de idade. Como o meu irmão e primos são músicos, foram eles que conseguiram despertar em mim o interesse pela música. Aliás, a Artave já era conhecida para mim desde os meus 3 anos, pois o meu irmão Ângelo Fernandes, trompetista, estudou lá. Íamos com frequência assistir aos seus concertos e recitais. O ambiente musical acabou por se desenvolver na família, e quando a idade chegou, estudar música era mesmo o que queria e a Artave pareceu ser a escolha mais acertada.

A ARTAVE tem sido um ninho de grandes revelações. Em sua opinião, o que contribui para o sucesso desta escola que tantos e bons músicos tem trazido à luz do dia?
Na minha opinião é sobretudo o empenho dos professores que traz à escola tanto sucesso. A motivação, inspiração e o rigor com que se dedicam aos alunos sempre me puxou a levar mais longe os meus objetivos, assim como tentar alcançar uma nova meta todos os dias. A cada aula mais um desafio era ultrapassado, e assim evoluímos continuamente durante os 6 anos. O ritmo de estudo também influencia bastante, pois tinha um horário bastante preenchido, consequentemente, o tempo de estudo era muito organizado e foi fácil aprender a estudar corretamente e aproveitar ao máximo cada hora, pois havia tanto para fazer desde estudar o instrumento aos trabalhos de casa de cada disciplina!

Rute Fernandes, Flauta

A Haute Ecole de Musique de Genève veio logo a seguir à conclusão do seu curso na ARTAVE? Como surgiu esta possibilidade?
O desejo de estudar fora de Portugal já existia há muito, e depois de uma tentativa falhada para entrar na Royal Academy em Londres, conheci a Prof. Sarah Rumer (solista na Orchestre de la Suisse Romande e Professora em Lucerna, na Hochschule desde 2011). Conheci-a na masterclasse anual que a Artave organiza e foi ela quem me falou sobre o ensino na Suíça e sobre os professores de flauta no país. O interesse foi demasiado grande, e decidi concorrer e tentar a minha sorte. Entrei então na classe do Prof. Michel Bellavance em Genebra.

Houve nomes que a tenham influenciado bastante nesta instituição?
O meu professor foi, sem dúvida alguma, a pessoa que mais me marcou nessa escola. Cresci muito como flautista e como pessoa, e a motivação e a vontade de trabalhar eram enormes. Assim, fui começando a fazer audições para orquestras de jovens e concursos, o que me lançou realmente no “verdadeiro” mundo da música.

E na Musikhochschule Luzern? O que mais a marcou?
Fazer o mestrado em Lucerna foi um verdadeiro desafio. No início, a língua foi um obstáculo, mas aprendi imenso, porque diversos seminários, sessões de orquestra, assim como workshops e masterclasses faziam parte do programa. Além disso, é uma cidade que transpira cultura, que tem o seu próprio festival, por isso as oportunidades de ouvir e conhecer grandes nomes da música clássica eram imensas. O que mais me marcou foi sobretudo o tipo de trabalho feito com a minha professora Sarah Rumer, em relação à preparação de concursos de orquestra, que sempre foi a carreira que quis seguir.

Rute Fernandes, FlautaPodemos dizer que a sua história parece tirada de um conto? Porque as conquistas sucedem-se...
Estou muito feliz por estar onde estou, claro! Penso que essas conquistas são o reflexo de todos os anos de trabalho e confesso que por vezes é preciso insistir muito e ter uma certa força mental, pois hoje em dia o nível dos flautistas e de todos os jovens músicos em geral é extremamente alto e abundante. Creio que um fator crucial é a persistência e ter convicções. É muito gratificante seguir os muitos triunfos dos colegas de classe, amigos e isso claro, é sempre uma inspiração. Além disso, sempre pude contar com o apoio incondicional dos meus pais, que sempre estiveram presentes em cada etapa e sempre apoiaram cada decisão minha. Isso foi e ainda é o meu pilar, e estou-lhes muito grata por isso.

Admira de forma particular algum ou alguns flautistas? Segue atentamente a carreira de algum?
Admiro imenso os professores de flauta que tive: Joaquina Mota, Elisa Trigo, Michel Bellavance, Sarah Rumer e alguns flautistas mais jovens, como a Adriana Ferreira. A Adriana desde cedo esteve presente no meu percurso, pois estudámos ambas na classe da Professora Joaquina Mota. Sempre foi o modelo a seguir assim como uma excelente colega e amiga e tento seguir de perto a sua carreira.

Qual o reportório que mais a entusiasma?
Gosto muito de tocar Mahler, Strauss e recentemente comecei a descobrir o mundo da ópera, o qual adoro. Mozart, Puccini e Rossini estão entre os favoritos até agora (risos). Além disso, a música de câmara é uma das minhas prioridades atualmente, por isso todo o bom reportório é entusiasmante.

Que sentimentos a invadiram quando conquistou o lugar de Flauta Solo e Flautim na Philharmonia Zürich?
Foi um dia realmente marcante, cheio de emoções, demasiadas! Sobretudo alegria, claro! Por outro lado, alívio e satisfação, pois queria continuar a viver em Zurique e começar a trabalhar. Já conhecia o trabalho desta orquestra, e foi muito gratificante poder começar a trabalhar aqui.

O facto de ser uma orquestra onde já figuravam portugueses como a clarinetista Filipa Nunes, o oboísta Samuel Bastos, o tubista Ricardo Carvalhoso e o trompetista Marco Silva facilitou muito a sua integração? Eles deram-lhe alguns conselhos?
Sim, claro. Foi muito bom saber que estavam lá, e falar português no meio das tantas línguas comuns da orquestra. O ambiente na orquestra é bastante positivo e todos foram muito acolhedores.

Rute Fernandes, Made in TrioE a Rute Fernandes, tem alguns conselhos para deixar aos que agora iniciam os seus percursos académicos na área da música?
Penso que o conselho é o mesmo de sempre. Que continuem a trabalhar, porque sem isso é realmente difícil ir mais longe; ser persistente, tentar sempre ultrapassar uma meta a cada dia, creio que os músicos portugueses sempre foram bastante lutadores! Mas sobretudo, que gostem do que fazem e que tenham prazer em partilhar a música. Penso que isso é o mais importante.

Quais as principais diferenças que sente relativamente ao investimento que se faz na cultura no país em que agora se encontra e a forma como a cultura é encarada em Portugal?
Como estou fora de Portugal há 6 anos, não posso dizer certamente o que se passa em Portugal, mas por vezes é frustrante tentar organizar concertos e poder voltar a tocar aí e não ter resposta ou saber que os colegas têm de estudar na Universidade e dar aulas em várias escolas para poderem pagar os estudos e não terem tempo para trabalhar individualmente. Pelo contrário, aqui o interesse está sempre presente e as instituições querem conhecer o trabalho, é normal ir uma vez por semana à ópera ou a um concerto sinfónico, e os preços para estudantes são acessíveis, o que desperta mais a curiosidade dos alunos. Creio que aqui, como noutros países da Europa como a Alemanha e a Áustria a cultura musical está um pouco mais implantada do que em Portugal.

Neste momento abraça somente a carreira performativa ou também se dedica ao ensino ou outra área?
Neste momento dedico-me bastante à música de câmara. Sou membro do Made in Trio (flauta, clarinete e piano), com David Dias da Silva e Sinforosa Petralia. Trabalhamos juntos há 3 anos e fazemos vários concursos e concertos. Desenvolvemos pouco a pouco a nossa carreira, sobretudo aqui na Suíça. Recentemente fomos finalistas no CAG Competition em Nova Iorque, o que foi uma grande aventura. Vamos brevemente atuar em Portugal também.

Muito obrigado por este tempo que nos dedicou. Com tantas conquistas sente qua ainda há muitos sonhos por concretizar? Pode revelar-nos alguns?
Sim, claro que sim. Num futuro próximo gostaria de aprofundar o meu estudo em instrumentos antigos, como o traverso e a flauta clássica. E poder tocar regularmente com La Scintilla, orquestra de instrumentos antigos que faz parte da Ópera de Zurique. Como acabei os estudos ainda este ano, uma maior dedicação à carreira de solista estará em vista, claro. Mas sobretudo, gostaria de poder voltar a tocar mais vezes em Portugal.

Rute Fernandes. A(s) história(s) de uma flautista portuguesa na Suíça.

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