Mafalda Carvalho. A flautista em entrevista.

Mafalda Carvalho, Flauta

Entrevistámos a flautista Mafalda Carvalho que recentemente conquistou o Prémio Jovens Músicos. A nossa entrevistada sente que teve sorte em nascer num período de ascensão do ensino da música em Portugal. «Nasci realmente numa fase de ascensão do ensino da música em Portugal, e isso é demonstrado por todos os enormes jovens talentos que encontramos sempre a ganhar lugares em orquestras e a mostrarem-se vencedores em grande em concursos. O nível está muito alto, e a exigência é cada vez é maior». Atualmente encontra-se na Madeira diz ter mais tempo para estudar e preparar-se para concursos internacionais e audições para outras orquestras. «Em breve gostaria de participar em alguns concursos internacionais e fazer mais audições para orquestra esperando um dia conseguir ter um trabalho numa grande orquestra, acompanhando grandes solistas e interpretando grandes obras».

É sobejamente conhecida a tradição musical da vila do Troviscal. Sendo a Mafalda natural desta localidade, sente que esta realidade foi um fator preponderante para que seguisse a música enquanto profissão?
O Troviscal é realmente uma vila cheia de música e de cultura musical. Não digo que tenha sido um fator determinante para ter seguido a música como profissão, mas foi a minha rampa de lançamento para aprender música. De momento no Troviscal temos a Escola de Música da União Filarmónica do Troviscal e a Escola de Artes da Bairrada onde estagiei no ano letivo passado, nota-se bem a aposta na formação.
A Escola de Música da União Filarmónica do Troviscal (UFT) foi onde tive iniciação musical e onde aprendi a tocar flauta transversal. Devo o facto de ter escolhido a flauta ao Dr. Silas Granjo que um dia me disse que tinha aptidão para a flauta depois do meu pai ter comprado uma. Com a UFT conheci maravilhas da música e da cultura que me deixaram fascinada, como na ida à Holanda, à República Checa e a Hong Kong, Macau e Taiwan.

Mafalda Carvalho, FlautaRecorda com admiração algumas personagens que tenham passado pelo início do seu percurso formativo?
Recordo com muito carinho a minha primeira professora de Flauta Transversal, Patrícia Oliveira, com quem aprendi as primeiras notas e que me preparou para entrar no Conservatório de Música de Aveiro. Já no Conservatório, estudei dois anos com Florbela Gonçalves, depois mais dois anos com José Abreu e do quinto grau até à conclusão com a professora Ana Maria Ribeiro. A professora Ana Maria Ribeiro foi a professora que fez com que fosse estudar música, admirava-a e continuo a admirar pela sua força e energia, e pela boa música que faz.

Jorge Salgado Correia e Ana Raquel Lima foram mestres que passaram pela sua vida mais tarde...
Vinha do Conservatório de Música de Aveiro apaixonada pela flauta e pela música, mas foi na ESMAE que a música teve um significado mais especial e devo-o à professora Ana Raquel Lima. Todas as aulas foram um investimento, um motivo de continuar a lutar pelo sonho, uma inspiração que me ajudou e continua a ajudar sempre.
O professor Jorge Salgado Correia, para além de meu professor de flauta, foi meu orientador na minha dissertação de mestrado na Universidade de Aveiro. Foram dois anos de muita aprendizagem e trabalho, mas acima de tudo boa disposição.
Para além destes dois grandes mestres gostava de sublinhar a importância que teve a professora Daniela Coimbra, que para além de me ter orientado na minha dissertação no meu Mestrado em Interpretação Artística na ESMAE, continua a acompanhar-me e apoiar-me como amiga.

O Conservatório de Música de Aveiro Calouste Gulbenkian tinham já ficado para trás mas certamente foi uma boa escola que muito ajudou a posteriores conquistas... Florbela Gonçalves, José Abreu e Ana Maria Ribeiro também foram elementos preponderantes para que seguisse uma carreira musical?
Todos estes professores tiveram um papel especial, mas sublinho a importância da Professora Ana Maria Ribeiro em me fazer apaixonar pela flauta, em levar-me a participar em concursos, e a fazer com que eu quisesse tocar sempre mais e melhor. Só decidi que queria seguir a música como profissão no meu 12º ano, quis manter todas as possibilidades em aberto e fiz ao mesmo tempo que o Conservatório o Curso de Ciências e Tecnologias no Instituto de Promoção Social da Bairrada que também desempenhou um importante papel na minha formação.

Mafalda Carvalho, Flauta

Enquanto docente já passou por várias instituições...
É verdade. Comecei por dar aulas na Escola da União Filarmónica do Troviscal, o que me foi dando alguma experiência. Na temporada passada podia dizer que todos os flautistas da UFT, para além de mim, tinham sido ou eram meus alunos e não podia estar mais orgulhosa deles. Seguiu-se o cargo de docente na Escola de Música da Banda Musical São Tiago de Silvalde de 2011 a 2013. De janeiro a junho de 2013 substituí a professora Carla Rodrigues na Academia de Música de Paços de Brandão e de novembro do mesmo ano a março de 2014 estive a substituir a professora Inês Fernandes na ESPROARTE – Escola Profissional de Arte de Mirandela. Nos dois últimos anos lecionei na Escola de Música de Perosinho, escola pela qual guardo muito carinho e agradecimento. Sou uma sortuda por ter conseguido conhecer meninos tão talentosos e que muitos ainda façam parte da minha vida, como amigos.

Atualmente ainda abraça a docência?
Este ano não estou a dar aulas, mas claro que se essa oportunidade aparecesse, para além da minha função enquanto flautista aqui na Madeira, eu iria aceitar.

Mafalda Carvalho, FlautaE enquanto performer? Quais os projetos que mais a marcaram?
Em primeiro lugar marcou-me muito ter tocado a solo com a Orquestra Gulbenkian no Concerto de Laureados do Prémio Jovens Músicos, foi um momento mágico e inesquecível. Também me apresentei enquanto solista em 2011 com a Orquestra Clássica da Madeira e em 2012 com a Orquestra Sinfonieta da ESMAE e com a Orquestra Metropolitana de Lisboa na Final do Concurso Jovens Flautistas 2012. Em 2013, fui solista numa obra de Daniel Moreira na Sala Suggia da Casa da Música, nas comemorações do Dia Mundial da Música, com uma Orquestra de 100 Flautas e 100 Saxofones.
Em orquestra, destaco a tour a Abu Dhabi com a Orquestra Sinfónica da Galiza em janeiro deste ano, onde interpretámos a Sexta Sinfonia de G. Mahler. A orquestra é fantástica e estar ali com eles foi um ponto marcante na minha vida, tenho muito boas recordações de todos os concertos que realizei com esta orquestra e com a sua Orquestra de Jovens.
Outro momento marcante foi tocar o “Prélude d’aprés midi d’un faune” de Debussy com o Estágio Gulbenkian de Orquestra, com direção da maestrina Joana Carneiro. Com a Orquestra Gulbenkian, todos os programas foram interessantíssimos, onde aprendi imenso.
Com a União Filarmónica do Troviscal posso dizer que todos os concertos fora do país foram marcantes, em especial o concerto inserido na WASBE em Taiwan no ano de 2011.
Por fim, todos os concertos com os meus grupos de Música de Câmara, com o Ensemble Éolia, com o Trio Densité e com o Trio Cadenza me marcaram, pela boa amizade e música que nos une.

A Orquestra Clássica da Madeira obrigou-a a deixar a sua zona de conforto... concorda?
Sinto muito a falta dos meus pais e dos meus amigos, mas aqui estou a fazer algo que sempre quis, estar a tocar em orquestra e para já tenho uma temporada onde o posso fazer. Foi uma mudança que foi necessária para concretizar objetivos. É diferente estar cá, estou numa ilha, mas é uma ilha lindíssima, o clima é ótimo e sou muito bem tratada por todos.

Sentiu muitas diferenças laborais quanto chegou à Madeira?
A minha vida profissional sempre foi atribulada, cheia de viagens, de correrias. Era uma semana em casa, outra na Corunha, outra em Lisboa, para além das aulas, quase não parava. Aqui consigo fazer o que gosto no mesmo sítio. As diferenças foram mais nesse aspeto, ao abrandar o ritmo. Assim consigo ter tempo para estudar o mais possível para concretizar outros objetivos.

Mafalda Carvalho, FlautaO Prémio Jovens Músicos 2016, no nível superior foi um prémio que a marcou muito?
Sem dúvida que me marcou muito. Pelo reconhecimento do meu trabalho, principalmente. Depois de ter concorrido em 2010 e ter ficado com o terceiro lugar, este ano conseguir ficar em primeiro lugar foi uma evolução e reconhecimento do que fiz ao longo dos meus estudos. Nos anos de 2011, 2012 e 2013 concorri em Música de Câmara onde os meus grupos conseguiram sempre o 2º lugar. O Prémio Jovens Músicos é, para mim, o concurso mais prestigiado em Portugal e que maior projeção traz, daí que tenha concorrido tantas vezes. Para além do concurso em si, o momento em que toquei a Solo com a Orquestra Gulbenkian, como já disse, foi algo importantíssimo na minha vida.

Há outras conquistas que com igual significado?
Já tive outros primeiros prémios noutros concursos, mas o Prémio Jovens Músicos foi o que trouxe mais projeção na minha carreira e na minha vida.

Sente que teve a sorte de nascer numa fase de ascensão do ensino da música em Portugal?
Nasci realmente numa fase de ascensão do ensino da música em Portugal, e isso é demonstrado por todos os enormes jovens talentos que encontramos sempre a ganhar lugares em orquestras e a mostrarem-se vencedores em grande em concursos. O nível está muito alto, e a exigência é cada vez é maior.

Muito obrigado pela partilha que acabou de protagonizar com os nossos leitores. Tem algum sonho profissional que gostasse de ver concretizado em breve?
Eu é que agradeço o convite, foi um prazer. Em breve gostaria de participar em alguns concursos internacionais e fazer mais audições para orquestra esperando um dia conseguir ter um trabalho numa grande orquestra, acompanhando grandes solistas e interpretando grandes obras.

Mafalda Carvalho. A flautista em entrevista.

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