Segue-me à Capela. O canto tradicional no feminino.

Segue-me à Capela

A voz e a percussão juntam-se para trazer aos nossos dias o património musical no feminino. A frase é simples mas resumirá em parte o trabalho do projeto “Segue-me à Capela”. Um projeto desprovido de elementos de distração e que tem levado bem longe sonoridades ímpares. Mensagem, melodia e ritmo estão lá da forma mais pura e sempre prontos para acolher ou serem acolhidos por mais alguém. Embalados por este ambiente trazemos aos nossos leitores esta entrevista em véspera de dois grandes concertos em Coimbra e em Lisboa. Em Coimbra «Vai ser um concerto dialogado com os Galandum Galundaina, com quem temos afinidades e que, aliás, participaram numa música do nosso último disco». No Misty Fest, em Lisboa, «acontecerá a partir do convite que a Amélia Muge nos fez, e que muito nos orgulhou, para celebrarmos, juntamente com outras 30 mulheres, o canto tradicional de mulheres, o canto a capella».

A voz é o cerne do trabalho que nos apresentam. Consideram que a voz, enquanto instrumento, é o elemento mais fiel para transmitir a vossa mensagem musical?
Os cantos tradicionais de mulheres do nosso património falam de cada momento do quotidiano de uma forma muito poética e, ao mesmo tempo, muito acutilante; são, também, ricos dos pontos de vista melódico e harmónico. Bastam-se, por isso, a si próprios, ou seja, achamos que não carecem dos extras que iriam ser introduzidos por quaisquer instrumentos tonais que considerássemos utilizar. Reconhecemo-nos e reencontramo-nos nessas cantigas e, evidentemente, recriamo-las porque a nossa abordagem foi, desde sempre, feita pela via erudita, já que o fio condutor dependente da transmissão oral foi cortado há muito tempo.

As melodias e as harmonias da música tradicional conjugadas com a belíssima poesia desses cantos (atente-se em muitas das letras) resultam em excelentes obras artísticas. E a mensagem está toda aí.

A música tradicional, sendo antiga, nunca passará de moda, citando aqui uma frase retirada do filme “A Propósito de Llewyn Davis”, dos irmãos Coen: “Se é antiga e não passou de moda, então é uma música folk”.

Segue-me à Capela

O vosso reportório assenta essencialmente em recolhas de Michel Giacometti, José Alberto Sardinha e GEFAC. Ponderam alargar o vosso reportório?
Recorremos grandemente aos trabalhos do Michel Giacometti, do Lopes-Graça, do José Alberto Sardinha e do GEFAC. Porém, também cantamos músicas açorianas recolhidas pelo Artur Santos, músicas da Madeira que conhecemos da série televisiva “Povo que Canta”, com autoria de Ivan Dias e Manuel Rocha. Recorremos ao espólio do Ernesto Veiga de Oliveira e, também, ao espólio Sefardita. E vamos “roubando” aqui e acolá (à Brigada Victor Jara, às Cramol...) umas quantas músicas que achamos mais interessantes. Quem sabe se num futuro próximo não alargaremos o repertório a outros cantos de mulheres espalhados pelo mundo. (sorrisos)

A percussão aparece no vosso projeto como elemento potenciador de alguma segurança rítmica? Os arranjos para a percussão têm sempre em conta a “não sobreposição” relativamente ao trabalho vocal?
Valorizamos a intervenção da percussão porque permite a construção de ambientes mais ricos, não só em termos rítmicos mas também tímbricos e, além disso, porque a percussão instala uma “cama” quase visual do contexto do próprio canto. Por vezes construindo um diálogo, por vezes para tornar mais poderosas as intervenções vocais, a percussão surge quase sempre em igualdade de forças com a voz. Há que realçar, porém, a sensibilidade dos excelentes percussionistas que nos têm acompanhado ao longo deste nosso percurso – Quiné Teles, Jorge Queijo, Fernando Molina, André Sousa Machado (baterista) e, também, Joao Luis Lobo e João Balão –, que intencionalmente procuram pela sua arte a não sobreposição da percussão à voz.

Qual a razão que vos levou a dar particular relevo ao adufe?
Porque o adufe é o único instrumento de cariz eminentemente feminino, tradicionalmente tocado pelas mulheres nos momentos festivos e, também, para marcar a passagem da infância à fase púbere. Como é um instrumento atonal, não se intromete na harmonia e promove a liberdade rítmica no canto, o que não sucederia se fossemos acompanhadas por cordofones ou outros instrumentos harmónicos, com o devido e enorme respeito, é claro, por tais instrumentos.

Segue-me à CapelaTrabalham a música numa perspetiva integrada com outras áreas do conhecimento artístico?
Sim; cantamos mas também investimos numa perspetiva performativa da música em cena; daí o nosso interesse, por exemplo, nas artes cénicas e na declamação.

Podem apresentar-nos então os elementos que constituem este “Segue-me à Capela”?
Por ordem alfabética (sorrisos) - Ananda Fernandes, Catarina Moura, Guida Pinheiro, Joana Dourado, Maria João Pinheiro, Mila Bom e Sílvia Franklim

Os elementos do projeto dedicam-se exclusivamente à música, ou têm outras atividades?
Dedicarmo-nos só à música e aos cantares tradicionais seria uma muito difícil sobrevivência. Não é que nos desagradasse a ideia – fazer umas digressões mundiais, levando os nossos traços culturais aos quatro ou cinco cantos do mundo seria fantástico! (risos). Mas, sim, temos outras profissões que, consideradas no todo, são transversais a toda a vida portuguesa, desde o ensino à intervenção cultural e investigação científica, passando pelas áreas da saúde e da justiça.

Dos inúmeros concertos que protagonizaram ao longo de todos estes anos, há alguns que vos tenham marcado mais devido ao contexto em que aconteceram?
Todos os concertos foram e são importantes. Porque pergunta, realçamos, então, o primeiro espetáculo em Segóvia, porque foi a nossa internacionalização (risos) e pelo impacto que teve no público, com honras de primeira página na imprensa, e para nós, que aí tomámos consciência do interesse do nosso trabalho na perspetiva artística; o concerto no Auditório 1º de maio na Festa do Avante, porque será sempre uma honra participar numa das maiores festas portuguesas de cariz cultural e política; o concerto no Festival Cultural Europeu em Argel, a convite da embaixada portuguesa, por ser um país culturalmente diferente mas com diversos pontos de contacto e pela adesão entusiástica do público (grande parte jovem) e também dos elementos dos corpos diplomáticos representados no festival; a nossa participação nos concertos “Somos Nós os Teus Cantores”, em Lisboa e Coimbra, desde logo pelo valor enorme dos homenageados (Adriano e Zeca) e, também, pelos participantes envolvidos; o concerto das Quintas do Conservatório, por ter acontecido no dia da mulher e no âmbito de uma iniciativa cultural de elevado interesse para a cidade, e não só; a nossa participação na ação cultural no movimento “1% Para a Cultura”, pelo importante motivo da sua realização e que continua atual. Outros mais haveria que realçar, mas ficaria longa a lista. (sorrisos)

Segue-me à CapelaO trabalho “Sanjoanices, Paganices e Outras Coisas de Mulher” já tem sucessor?
Estamos, ainda, no rescaldo do lançamento do último trabalho e a usufruir dele, com muito prazer. Não pomos de parte, é claro, a possibilidade de um 3º disco, a pensar com muita serenidade e muita dedicação.

Muito obrigado pelo tempo que dedicaram aos nossos leitores. Marcarão em breve presença nas Jornadas de Cultura Popular em Coimbra e ainda no Misty Fest. Podem revelar um pouco daquilo que irá acontecer nestes dois ambientes distintos?
É verdade. São dois concertos próximos que nos vão dar muito contentamento e que consideramos de grande interesse para o público.
Assim, quanto ao do dia 10 de novembro, cumpre realçar a enorme importância do GEFAC, organismo autónomo da Associação Académica de Coimbra, no meio académico coimbrão. Dele saíram grupos musicais para além do nosso - Macadame, Diabo a Sete, Remendos e Côdeas. Foi no GEFAC que a maioria de nós teve o primeiro contacto interessante com as manifestações e os meios musicais de raiz tradicional.

Há já 32 anos que o GEFAC organiza bianualmente as Jornadas de Cultura Popular, e sendo este ano o ano do seu 50º aniversário e o das XVI as Jornadas de Cultura Popular, ficamos muito contentes por termos sido convidadas para nelas participar. Vai ser um concerto dialogado com os Galandum Galundaina, com quem temos afinidades e que, aliás, participaram numa música do nosso último disco.

O concerto de Viva Voz no âmbito do Misty Fest, a realizar no dia 12 de novembro, no Teatro Tivoli, em Lisboa, acontecerá a partir do convite da Amélia Muge nos fez, e que muito nos orgulhou, para celebrarmos, juntamente com outras 30 mulheres, o canto tradicional de mulheres, o canto a capella.

Estarão em palco Cramol, Maria Monda, Sopa de Pedra e Segue-me à Capela, num concerto orientado pela Amélia e que vai mostrar algumas bonitas novidades e originalidades. Ficam todos convidados.

Segue-me à Capela. O canto tradicional no feminino.

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