João Bettencourt da Câmara. Pianista ao serviço da música e da obra.

João Bettencourt da Câmara

João Bettencourt da Câmara diz ter um único objetivo na vida enquanto pianista: «servir a música, servir a obra, ser um mero veículo à sua concretização. Mais do que um espetáculo, um recital ou um concerto deverá ser visto como o momento em que uma obra ganha vida. Devemos, enquanto pianistas e intérpretes, ter em conta que não somos nada para além do veio de transmissão que permite que a obra viva. É ela que deve ser o centro deste transcendente processo, e não nós». Brahms e Debussy são apontados como os seus compositores favoritos e explica: «Julgo que nenhum compositor, em toda a história da música, poderá ser justamente comparado a Johannes Brahms e Claude Debussy. Brahms, por seu lado, pelo seu gigantesco e incomparável sentido de transcendência e nobreza; de uma outra perspetiva, Debussy é, talvez, o mais revolucionário de todos, pela imensa sensualidade da sua música e, também, pelo facto de ter conseguido explorar timbricamente o piano como nenhum outro».

Muito obrigado por partilhar com os nossos leitores um pouco das suas vivências e do seu percurso enquanto músico. Foi o João que pediu ao seu pai que lhe ensinasse música aos 3 anos de idade?
A música acompanha-me desde sempre. Contam os meus pais que entrei em casa, com poucos dias, vindo do hospital, a ouvir a Sonata Primavera, de Beethoven. Com poucos meses cheguei a assistir, ao colo da minha mãe, à Paixão Segundo São Mateus, na Fundação Calouste Gulbenkian. Não me recordo de alguma vez ter feito esse pedido ao meu pai de forma tão direta, mas visto passar grande parte do tempo em bicos de pés a rondar o piano, na sala, ele decidiu sentar-me ao seu colo e começar a ensinar-me a tocar. Tinha, então, dois anos e meio.

Quais os principais mestres que passaram pelo seu percurso de aprendizagem?
Ainda por volta dos meus doze ou treze anos, marcou-me verdadeiramente o mestre Vladimir Viardo que, para mim, é ainda o maior pianista vivo. Como pedagogo, destacou-se, na minha opinião, pelo facto de me dar a conhecer, como nenhum outro mestre com quem tive contacto, a escola de Nehaus. Para além dele, tive a honra de poder trabalhar com grandes nomes, como Dmitri Bashkirov, Elina Eguiazarova, Sequeira Costa, entre outros. Devo dizer, no entanto, que foi Ruth Nye, a principal protegida do grande Cláudio Arrau durante mais de 30 anos, quem mais me marcou enquanto jovem pianista.

De todos os prémios conquistados até hoje, há alguns com um significado mais profundo?
Sem hesitar, diria que foi o prémio “Sarah Mundlak”, para o melhor finalista de piano do Royal College of Music, que recebi em 2010. Foi, sem dúvida, um grande marco na minha vida, visto estarmo-nos a referir a uma das maiores e mais prestigiadas instituições de ensino da música em todo o mundo.

João Bettencourt da Câmara

Começou a tocar ao lado de orquestras muito cedo. Foi importante este contacto de perto com orquestras e maestros? Percebeu precocemente como funcionava o meio musical e o que esperavam de si enquanto solista?
É-me difícil responder a essa questão, já que a música me acompanhou profissionalmente desde sempre e tudo aconteceu de forma perfeitamente natural. Em retrospetiva, devo dizer que poder apresentar-me como solista com orquestra desde cedo foi extremamente gratificante. Sempre me entusiasmou muitíssimo tocar com orquestra! Mais que um desafio, é uma oportunidade única de partilhar o palco com grandes músicos.

Em Londres poderia ter entrado para a Royal College of Music, a Guildhall School of Music and Drama ou para a Royal Academy of Music. Quais as principais razões que o levaram a optar pela Royal College of Music?
Optei pelo Royal College of Music para poder estudar com a professora Ruth Nye, a quem já me referi anteriormente. Para além do facto de me haverem aconselhado nesse sentido por ser globalmente considerada como a grande, e já histórica, pedagoga de piano no Reino Unido, era, a meu ver, quem mais me poderia fazer crescer e transformar-me enquanto pianista, sobretudo tendo em conta todo o seu passado enquanto protegé do grande Cláudio Arrau.

Sente que foi a opção certa? Quais os momentos que mais o marcaram enquanto aluno desta instituição? O Sarah Mundlak Memorial Prize For Piano foi certamente um deles...
Sem qualquer sombra de dúvida! Como havia referido, receber um tão prestigiado prémio destinado ao melhor finalista de piano da histórica instituição que nas últimas duas décadas tem formado alguns dos melhores pianistas do mundo constituiu um dos momentos mais marcantes da minha vida artística e pessoal.

Para o seu mestrado, optou pela Guildhall School... O que o levou desta vez a optar por outra instituição? Foi o desejo de trabalhar com Martin Roscoe?
Após quatro intensos anos no Royal College of Music e de haver sido transformado enquanto pianista pelas mãos da mestre Ruth Nye, julguei então ser a altura certa para experimentar algo de diferente. O facto de poder optar por outra grande e prestigiada escola de música, como é a Guildhall School of Music and Drama, e, para mais, ter a oportunidade de trabalhar com um dos maiores nomes do piano britânico, com uma enorme carreira internacional, facilitou-me uma decisão que, à partida, não seria, de todo, fácil de tomar.

João Bettencourt da CâmaraA crítica foi sempre positiva nos comentários que teceu a seu respeito?
Tenho a felicidade de nunca ter tido que ler uma crítica negativa, ou até mesmo menos positiva, a meu respeito. Guardo na minha memória, especialmente, uma crítica da prestigiada All Arts Review, após um recital em Washington, nos Estados Unidos da América, em que o crítico Stephen Neal Dennis escreveu: “Only 19, Bettencourt da Câmara possesses a fearsome technique, something that has become so routine a component in concerts by younger pianists that audiences almost yawn when promised something spectacular. What is unexpected is the emotional depth of personal involvement that this pianist brings to each piece he plays. For a generation that never knew the young Sviatoslav Richter, one is forced to wonder how much more Richter himself could give at the age of 19.” Claro que, para além do óbvio sentimento de alegria perante tamanho elogio, é um tanto ao quanto assustador ser-se comparado àquele que é por muitos considerado como o maior pianista da História!

Quais os seus compositores preferidos? Admira algum período da História da Música em particular?
Julgo que nenhum compositor, em toda a história da música, poderá ser justamente comparado a Johannes Brahms e Claude Debussy. Brahms, por seu lado, pelo seu gigantesco e incomparável sentido de transcendência e nobreza; de uma outra perspetiva, Debussy é, talvez, o mais revolucionário de todos, pela imensa sensualidade da sua música e, também, pelo facto de ter conseguido explorar timbricamente o piano como nenhum outro.

Liszt foi o primeiro a ser revisitado em disco pelo João Bettencourt da Câmara. Já tem planos para os próximos CD’s? Qual será o próximo compositor a ser abordado em disco?
Pelas razões que acabo de apontar, gostaria certamente de abordar grandes obras de Brahms e Debussy em próximos CD’s.

A carreira docente é outra das facetas da vida do João Bettencourt da Câmara. As suas aulas são também uma oportunidade para que reflita sobre aspetos da sua própria praxis?
Absolutamente! Para além do óbvio entusiasmo que causa o facto de ver os meus alunos a se desenvolverem, não só enquanto pianistas, mas, sobretudo, enquanto artistas e músicos, o ensino do piano apresenta-se como uma grande oportunidade de reflexão sobre o meu próprio trabalho e sobre o meu desenvolvimento enquanto pianista.

Muito obrigado por toda esta partilha. Depois de tantas conquistas e de tantas etapas vencidas na sua vida, ainda tem alguns sonhos por concretizar?
Tenho e continuarei a ter um único objetivo na minha vida enquanto pianista: servir a música, servir a obra, ser um mero veículo à sua concretização. Mais do que um espetáculo, um recital ou um concerto deverá ser visto como o momento em que uma obra ganha vida. Devemos, enquanto pianistas e intérpretes, ter em conta que não somos nada para além do veio de transmissão que permite que a obra viva. É ela que deve ser o centro deste transcendente processo, e não nós.

João Bettencourt da Câmara. Pianista ao serviço da música e da obra.

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