Yolanda Soares. Fado, ópera e a nobreza de um povo numa voz.

Yolanda Soares

Yolanda Soares revela aspetos únicos da sua carreira numa entrevista em que o fado, a ópera e a nobreza inerente a estes géneros musicais se interliga com a sua personalidade. Falámos do novo cd, Royal Fado, e de toda a atmosfera que dele tomou conta ao ter como protagonistas nomes sonantes da música mundial. Para além da conceituada harpista da casa Real de Inglaterra, Claire Jones, «Este disco conta ainda com os arranjos do compositor e percussionista Chris Marshall, o cantor crossover do País de Gales Rhydian Roberts que ficou conhecido no Factor X de Inglaterra, o mestre da guitarra portuguesa Custódio Castelo e o grupo de cante Alentejano "A Moda Mãe". Este disco foi gravado nos estúdios de Peter Gabriel com músicos excecionais organizados pelo produtor musical deste CD, o Chris Marshall».

Yolanda Soares, muito obrigado por ter aceitado este nosso desafio. Aparece agora com o novo disco “Royal Fado”. Como caracteriza este disco?
“Royal Fado” é um trabalho com alma e tradição portuguesa. É também o oposto. É Real. É verdadeiro. É histórico. É transversal. É Amaliano. É um trabalho daqui e do mundo inteiro. É o levar ao mundo o Fado que já lhe pertence.

O que distingue “Royal Fado” do seu trabalho “Fado em Concerto” lançado em 2006 pela Universal?
Começo antes por falar na única semelhança que é a de me ter inspirado em fados Amalianos e novamente criar um trabalho diferente em jeito de homenagem ao Fado. Mas as diferenças são muitas. Enquanto no meu primeiro CD foram utilizados muitos "motivos" musicais barrocos onde se pretendeu fazer uma fusão entre o barroco, o lírico e o fado, para além de mais algumas influências eletrónicas e mais modernas, neste CD "Royal Fado" centrei-me mais numa época romântica. Decidi ir buscar influências minhas do universo da Ópera romântica e muitas da World Music (tango, flamenco, oriental etc..). A "força" clássica que coloquei no meu primeiro trabalho Fado em Concerto tornou-se agora menos densa, mais leve em termos de orquestração e abordagem musical.

Yolanda Soares, Royal FadoNeste disco conta com a companhia de uma artista muito especial. Como surgiu a hipótese de trabalhar com a harpista da casa Real de Inglaterra, Claire Jones?
Vou começar por explicar também como me surgiu a ideia que me levou a tomar esta decisão de ir buscar a Claire Jones. Eu comecei a pensar neste disco há sensivelmente 3 anos. Inspirada num aspeto curioso com o qual me senti identificada. Amália sempre foi a minha referência no Fado, e na minha curiosidade normal de gostar de ouvir e pesquisar mais sobre as minhas referências encontro a expressão "lá vai ela para as óperas" e encontro também a referência a um CD que se intitula de "As Óperas"de Amália. Esta expressão " lá vai ela para as óperas" surgiu na época mais irreverente (se é que posso chamar de irreverência) da vida de Amália. Quando ela decide cantar poetas mais eruditos como Camões por exemplo e as composições de Alain Oulman. Muitos dos guitarristas dessa época não conseguiam tocar esses fados, pela complexidade que exigiam, e ironicamente diziam "... lá vai ela para as óperas..." Eu sou uma cantora com formação lírica e o curso de canto do Conservatório Nacional de Lisboa canalizou a minha voz e os meus gostos para universos musicais muito diferentes do Fado. Como a música clássica e Ópera por exemplo. Depois, durante a minha vida profissional abordei vocalmente tantos géneros musicais diferentes que sou hoje considerada uma "crossover singer". No entanto a Ópera continua muito presente na minha vida musical. Faço espectáculos e eventos com a minha empresa By the Music produções há cerca de 15 anos. Muitos dos espetáculos (além de Fado) são com árias de ópera, comigo e com mais cantores líricos. Abordo continuamente compositores da época da ópera mais romântica. Pucinni, Verdi, entre outros. Claro que tenho uma forte influência dessa época. E para mim, a época mais romântica de Amália é exatamente a época onde me inspirei para este CD. Tudo isto me levou a pensar na harpa como instrumento diferente, improvável e ideal para este trabalho. Eu queria que a harpa fosse o instrumento romântico por excelência neste CD, a dialogar com a guitarra portuguesa (ou seja, com o mais tradicional).

Toda esta junção de influências, inspirações e "experiências" musicais que fui fazendo deram inevitavelmente lugar ao "Royal Fado" onde a harpa é tão importante quanto a guitarra portuguesa. Eu queria uma harpista que fosse também solista e que já tivesse trabalhos próprios. Que tivesse este caráter romântico mas que gostasse igualmente de abordar outros estilos musicais. Encontrei a Claire Jones e foi automático. Senti empatia imediata . A hipótese surgiu desde o momento em que ela me responde dizendo que estava interessada e que também gostava do meu estilo de trabalho. Ela é uma harpista do País de Gales e é uma harpista de excelência, não só por estar ligada á realeza de Inglaterra e ter sido harpista oficial do Prince Charles, mantendo-se ainda embaixadora de "The Prince of Wales’s Children and the Arts Foundation" (ou seja, sob parâmetros a nível de exigência muito elevados) como por integrar no seu currículo vários outros aspetos que a tornam única. Para mim é uma honra e sinto-me muito grata por ter esta oportunidade de a ter ao meu lado neste CD.

Mas há outros nomes de peso envolvidos na produção e execução deste disco...
Há sim. Este disco conta ainda com os arranjos do compositor e percussionista Chris Marshall, o cantor crossover do País de Gales Rhydian Roberts que ficou conhecido no Factor X de Inglaterra, o mestre da guitarra portuguesa Custódio Castelo e o grupo de cante Alentejano "A Moda Mãe". Este disco foi gravado nos estúdios de Peter Gabriel com músicos excepcionais organizados pelo produtor musical deste CD, o Chris Marshall.

Como poderemos catalogar a sua música? Insere-se na denominada World Music?
Sim. É música de fusão . No entanto penso que World Music é o título mais adequado agora.

Yolanda Soares, Fado, ÓperaÀ sua faceta de cantora junta ainda as de autora, compositora e diretora artística. Como tem sido a sua vida? Podemos dizer que tem vivenciado o mundo do espetáculo em todas as suas perspetivas? Fale-nos também do seu papel na empresa “By the Music”.
Há 15 anos que sou a diretora artística da minha empresa By the Music produções. O meu currículo inclui experiências diversas. Fui ginasta e depois comecei por querer tirar o curso de Ballet no Conservatório Nacional de Lisboa (onde estive 5 anos), acabei por ir para o curso de canto estudando durante todo o curso com a professora Manuela de Sá. Depois fiz teatro, cantei em diversos locais e cantei diversos estilos musicais. Tive tantas experiências que olho para um palco e vejo tudo numa perspetiva criativa para além do canto. Mas desde pequena que sou assim.Lembro-me de ouvir vezes sem conta antes de adormecer o musical do Fantasma da Ópera, e como não tinha a possibilidade na altura de ir a Londres ver, era eu que o imaginava todo em palco enquanto ouvia. Nos saraus de ginástica ajudava o meu pai a construir as coreografias das ginastas. Eu também passava horas no quarto a escrever e a imaginar histórias . Está-me no sangue. Logo, quando formei a empresa By the Music, há cerca de 15 anos, comecei a imaginar espectáculos para mim, para os outros e para empresas que me solicitavam e ainda me solicitam propostas. Querem sempre propostas únicas e diferentes do comum. Isso foi-me obrigando a criar continuamente e a pensar muito em me reinventar . Aliás , foi assim que surgiu o meu primeiro trabalho discográfico em 2006. O Musicbox Fado em Concerto. Veio na sequência de um pedido de uma entidade para a qual já tinha cantado e feito espectáculos várias vezes. Desafiaram-me a criar algo único para um espetáculo de solidariedade. Eu fiz a proposta e gostaram. Correu tão bem que decidi gravar o CD daquilo que tinha sido feito. Por isso é que o meu primeiro trabalho discográfico quase parece um musical de Fado. Eu pensei-o assim em palco inicialmente. Depois é que gravei o CD. Gosto de criar e tenho um prazer enorme em construir espetáculos e projetos com ideias inovadoras e diferentes.

O facto de ver o mundo do espetáculo na ótica da performer e na de produtora torna o seu trabalho mais completo nas duas vertentes?
Acho que sim. Eu gosto de dirigir todos os campos porque concebo logo tudo na minha mente. Claro que não tenho a sabedoria técnica para todos eles. Mas sei exatamente o que quero e dou as ideias para tudo. Para os cenários, roupa, coreografias, música, vídeo etc..etc.. todo o conceito é idealizado por mim. Depois, obviamente que preciso dos profissionais especializados em cada área para colocar em prática tudo o que tenho em mente (claro que também recebo depois, de muitos deles, outras ideias que se vão adicionado às minhas... acaba por ser sempre um trabalho conjunto). No entanto, e acontece-me muitas vezes, acabo por me preocupar demais com aspetos completamente diferentes daquilo que eu tenho de fazer como performer, como cantora. Às vezes estou em palco preocupada se determinado aspeto está a correr bem em vez de estar preocupada só comigo (risos).

Houve alguma razão especial para ter escolhido para primeiro single o tema “O nosso povo”?
Começou por ser uma paixão à primeira vista (literalmente). Ao ler o poema apaixonei-me pelo tema. Foi o primeiro tema escolhido para este CD, mesmo não constando do rol de temas da época onde me inspirei, pois este tema foi feito pelo Carlos Paião para Amália já mais tarde. Mas, senti-o de uma forma tão forte, que tinha de o cantar. Há uma carga e mensagem implícitas tão lusitana e tão tocante que quase nos faz heróis de todas as eras. Já somos um povo heróico ao ter descoberto meio mundo, e depois continuamos a sê-lo na luta para sobreviver. Somos tão especiais que transformamos tristezas em Fado, e dificuldades em esperança "... Dêem-lhe remo, uma vela, um navio e outros mares surgirão...".
Além do mais considero que somos o povo mais romântico do mundo.

Associa o fado à nobreza? É uma adepta da monarquia?
A nobreza está subentendida aqui. Royal Fado é o enaltecer da alma de um povo que tem intrínseca a capacidade de se re inventar. O Fado é Rei em Portugal pelo poder de um povo que sem poder efetivamente, e mesmo assim, consegue ascender ao trono. Um trono muito nobre. A nobreza do Fado é tal que até os outros povos nos entendem sem saberem a nossa língua.É um povo Real no Fado. É Royal Fado. Sim, sou adepta desta monarquia (risos).

Mais uma vez agradecemos a amabilidade. Onde poderão os nossos leitores escutar este trabalho ao vivo em breve?
Peço para estarem atentos à minha página oficial de facebook (Yolanda Soares crossover singer) ou ao meu perfil de facebook pois estou sempre a colocar lá as próximas novidades. Obrigada pelo vosso interesse e desejo-vos as maiores felicidades.

Yolanda Soares. Fado, ópera e a nobreza de um povo numa voz.

Yolanda Soares, Royal Fado

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