A fadista Joana Rios fala-nos do “Fado de Cada Um”

Joana Rios, Fado

«O Fado é um género suficientemente sólido e grandioso para suportar várias abordagens. A questão “o que é Fado” está na ordem do dia, no entanto, o fado, desde a sua génese foi sempre um género atrevido e expansivo do ponto de vista formal no sentido em que, o dito fado tradicional existiu sempre a par do fado canção e sempre existiram formas e instrumentações muito diversas dentro do género, pelo que essa discussão me parece completamente estéril. O fado chamado de tradicional sempre existirá e sempre existirão fadistas a explorar os limites do género. Nada do que se está a fazer hoje em dia é novidade, basta pensarmos em nomes como Amália Rodrigues, Carlos do Carmo ou Maria da Fé que gravaram vários discos utilizando orquestras ou formações que extravasam os formatos tradicionais». Joana Rios

Joana Rios, muito obrigado por partilhar com os nossos leitores um pouco da sua carreira e da sua paixão pelo fado. Em que altura da sua vida se começou a interessar pelo fado?
Olá! O Fado esteve sempre presente na minha vida. Os meus pais ouviam muita música e o fado fazia parte da escuta lá de casa. No entanto, foi com 19 anos que cantei fado pela primeira vez pela mão de Fernando Maurício.

“Fado de Cada Um” é o disco que se encontra a apresentar nas Fnac. Como tem sentido a reação do público relativamente a este trabalho discográfico?
A reação do público e também da crítica tem sido ótima, especialmente nos concertos ao vivo onde é possível sentir as emoções do público a cada fado. Também nas redes sociais as manifestações têm sido muito positivas.

Como caracterizaria este disco?
O “Fado de cada um” é um disco de fado, no qual sou acompanhada apenas à guitarra e à viola e onde coabitam fado tradicional, fado canção e fados novos compostos à maneira tradicional.

É uma incondicional amante do fado tradicional ou considera que este pode ser reinventado com novas roupagens melódicas, rítmicas e harmónicas?
O Fado é um género suficientemente sólido e grandioso para suportar várias abordagens. A questão “o que é Fado” está na ordem do dia, no entanto, o fado, desde a sua génese foi sempre um género atrevido e expansivo do ponto de vista formal no sentido em que, o dito fado tradicional existiu sempre a par do fado canção e sempre existiram formas e instrumentações muito diversas dentro do género, pelo que essa discussão me parece completamente estéril. O fado chamado de tradicional sempre existirá e sempre existirão fadistas a explorar os limites do género. Nada do que se está a fazer hoje em dia é novidade, basta pensarmos em nomes como Amália Rodrigues, Carlos do Carmo ou Maria da Fé que gravaram vários discos utilizando orquestras ou formações que extravasam os formatos tradicionais.

Joana Rios, FadoAs composições que nos apresenta neste disco pertencem a vários autores...
Neste disco existem vários poetas que me ofereceram a sua poesia para cantar. Alguma dessa poesia foi diretamente para um fado tradicional como é o caso do José Luís Gordo, do João Barreiros ou da Rosário Alçada Araújo e outras tiveram música original escrita pelo Carlos Fonseca que é simultaneamente um dos violas do disco. O Carlos compôs uma marcha para um original do Carlos Conde que me foi oferecida pelo seu neto Vítor Conde, mas também compôs outras coisas belíssimas como o Fado Desatino com letra de João de Bragança ou o orelhudo “Fado da vida airada” que foi o primeiro “single” do disco.

Pode apresentar os músicos que entraram neste novo disco? Nos seus espetáculos ao vivo são os mesmos músicos a acompanhá-la?
No disco tocaram à viola, como já referi, o Carlos Fonseca e também o Pedro Pinhal e na guitarra portuguesa o Eurico Machado. Ao vivo tenho tocado com o Pedro Pinhal e o Bruno Mira na guitarra portuguesa.

Quais foram as suas maiores influências? Revê algumas delas nos temas que hoje nos canta?
As influências são muitas mas a Amália é uma referência eterna. Neste disco canto duas criações suas, no entanto existem outras muito importantes como Fernando Maurício que escutei muito mas também Alfredo Marceneiro ou ainda Maria Teresa de Noronha.

Admira de forma mais particular alguns dos nomes do fado atual?
Claro! Hoje em dia existe gente a cantar muito bem fado. Os irmãos Moutinho, a Carminho ou a Tânia Oleiro são nomes de fadistas que muito admiro.

A projeção que o fado hoje tem ajuda os novos valores a consolidarem mais facilmente uma carreira dentro deste género musical? É possível viver do fado?
A consolidação duma carreira é algo que demora tempo, porque é disso mesmo que se trata, uma carreira. Hoje em dia parece-me que, cada vez mais, agentes e editoras estão mais preocupados com o sucesso fácil e imediato, pelo que, se constata que cada vez mais os novos valores procuram apresentar-se através de fórmulas que foram vencedoras para outros, o que na minha opinião não é tão positivo. É certo que hoje em dia há mais plataformas de divulgação do trabalho dos artistas, no entanto estas acabam por revelar-se infrutíferas se não existir um trabalho continuado, lá está, uma carreira e só assim é possível viver do fado ou de qualquer outro género musical. Hoje em dia os artistas têm muito pouco tempo para crescer e amadurecer o seu percurso, os agentes da música querem cada vez mais resultados rápidos e eficazes, no entanto, quando olhamos atentamente para os artistas de maior sucesso, podemos perceber que têm um longo percurso nas suas costas, feito de sucessos e fracassos. Só assim é possível criar uma identidade artística e fazer-se algo de realmente nosso, sem copiar fórmulas alheias.

Considera-se uma pessoa com sorte por poder fazer aquilo que mais gosta? Costuma dar por si a pensar nessa sorte?
Considero-me uma pessoa com sorte no sentido em que posso fazer aquilo que mais gosto, no entanto, a “sorte” normalmente é resultado de muito trabalho e o meu caso não é exceção.

Em sua opinião, qual foi a maior conquista da “Joana Rios” enquanto artista?
A minha maior conquista foi precisamente poder viver da música e fazer aquilo de que mais gosto mas também ter encontrado o meu caminho artístico e ter acreditado nele, apesar das dificuldades.

Para além desta digressão pelas lojas FNAC, há outras datas que possa anunciar aos nossos leitores?
Até ao final deste ano vou estar fundamentalmente a promover o disco a par dos meus concertos regulares no Páteo Alfacinha. Já existem datas a partir de Janeiro de 2017 que em breve irei divulgar.

Muito obrigado pelo tempo que dedicou à nossa equipa e aos nossos leitores. Há algum sonho que ainda não tenha realizado e que gostasse de ver concretizado em breve?
Obrigada eu! Tenho um sonho contínuo e que não tem fim que tem que ver com a construção do meu percurso artístico. A par desse tenho vindo a concretizar os diversos sonhos que tenho. Os meus sonhos são aquilo que comanda a minha vida e é através deles que vou construindo o meu percurso pelo que há sempre algum por concretizar...

A fadista Joana Rios fala-nos do “Fado de Cada Um”

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