Leonor Braga Santos. A viola, a música e o futuro dos jovens músicos.

Leonor Braga Santos

Uma carreira musical à qual não poderia ter fugido e as suas aprendizagens e experiências na Alemanha foram alguns dos temas aflorados nesta entrevista na qual Leonor Braga Santos não deixou de manifestar as suas preocupações com o futuro dos jovens músicos. «Tenho pena dos nossos jovens músicos. A vida está cada vez mais difícil para quem quer seguir uma carreira musical, com as orquestras a acabar por falta de verbas um pouco por toda a Europa. Por outro lado, a internet veio facilitar os contactos lá fora. Em Portugal, neste momento, há poucas ofertas de trabalho». Ao falarmos da gravação do Sexteto para Cordas e o Quarteto com Piano de Joly Braga Santos, seu pai, não negou que manter viva a obra deste pode ser uma das suas missões. Neste âmbito referiu ainda que outro CD virá a caminho, já que um colega violinista se propôs gravar toda a música de câmara do seu pai e a convidou para fazer parte do projeto.

O facto de a sua vida estar ligada desde muito cedo à música está intimamente ligado ao facto de ser filha de Joly Braga Santos? Era impossível fugir ao destino?
Claro! Em minha casa respirava -se música de manhã à noite pois além do meu pai ser músico a minha mãe era cantora lírica.

Leonor Prado é um nome indissociável do seu percurso formativo?
Com certeza. Foi como aluna dela que segui e terminei o curso de violino do Conservatório.

Leonor Braga Santos

A oportunidade de ir para Gstaad estudar com Alberto Lysy foi na altura um sonho tornado realidade? Quais os principais aspetos que absorveu desta experiência?
Sim. A partir do dia em que ouvi Alberto Lysy e a Camerata Lysy num concerto em Lisboa tornou se um sonho ir estudar e absorver tudo o que pudesse dos ensinamentos de um violinista que me deixou fascinada. Muitas vezes tenho pensado que a ele devo o grande salto e evolução na minha técnica do instrumento, além da abertura de horizontes a nível interpretativo. O contacto com os excelentes músicos da Camerata Lysy foi também importante nesse sentido pois tive a oportunidade de assistir a concertos e masterclasses que me deixaram memórias maravilhosas para todo o sempre.

O que a fez mudar para a viola de arco? Houve algum motivo especial?
Foi Alberto Lysy que me entusiasmou com o instrumento emprestando-me uma viola de arco para estudar, ele achava que fazia bem à técnica e que todos os violinistas deviam saber tocar viola também. Acabei por me apaixonar pelo som mais grave e redondo e optei definitivamente pela viola depois de ter tido uma aula com uma violetista da Camerata que me encorajou a todos os níveis.

Leonor Braga Santos, antes de um espetáculo com Tera Mary Shimizu, Isabel Pimentel Serra, Cecília Branco, Alla Javoronkova...François Bross foi alguém muito importante nessa fase da sua formação?
François Broos deu-me a conhecer grande parte do reportório para viola e preparou-me para o exame de admissão à Escola Superior de Música de Colónia onde me diplomei em viola. Foi outro passo gigantesco na minha evolução.

Estudar na Escola Superior de Música de Colónia foi outro marco importante na sua vida? O que destaca desta sua passagem pela Alemanha?
A minha estadia na Alemanha foi outra etapa importantíssima, para já, porque é um país onde os músicos estrangeiros são muito bem recebidos e acarinhados. Colónia tem várias orquestras sinfónicas, de câmara etc. A viola é um instrumento um pouco menosprezado em Portugal. A maior parte das pessoas nem sabe o que é, tenho sempre que explicar que é um violino um pouco maior. Quando cheguei á Alemanha tive a experiência oposta pois toda a gente com quem falava sabia perfeitamente o que era e o instrumento era olhado com o profissionalismo que merece, a par do violino e do violoncelo.

Quais as principais recordações que guarda da sua interpretação na Alemanha da Aria a Tre com Variazioni da autoria do seu pai?
Interpretar o Trio do meu pai na Alemanha foi uma experiência inesquecível, até porque o clarinetista e pianista com quem toquei eram entusiastas da obra e da viola. Eram excelentes músicos e passámos uma semana de puro prazer a ensaiar, no âmbito do Festival de Pommersfelden, tendo o concerto final sido um sucesso e a obra muito bem recebida. Tive logo que fazer fotocópias da música, para dar aos colegas estrangeiros.

O Ensemble Cologne conferiu-lhe a oportunidade de viajar por vários países. Ao regressar definitivamente para Portugal trouxe na bagagem inúmeras vivências. Considera que essas experiências se espelham em toda a sua atividade e que os que a rodeiam também beneficiam com elas?
Acho que sim. Nós evoluímos cada dia e sobretudo nessa época de estudantes, em que o desejo de absorver tudo o que se passa à nossa roda e usufruir de todas as experiências e vivências artísticas é tão forte. Aprendi imenso, foi enriquecedor a nível de palco e de contacto com o público, até puxar pelas forças antes de um concerto, depois de viagens nem sempre nas melhores condições etc.

Leonor Braga SantosHoje temos um Portugal bem diferente daquele que conheceu nos seus tempos de estudante. Considera que os nossos jovens músicos estão a aproveitar bem todos os recursos que hoje lhes são disponibilizados?
Tenho pena dos nossos jovens músicos. A vida está cada vez mais difícil para quem quer seguir uma carreira musical, com as orquestras a acabar por falta de verbas um pouco por toda a Europa. Por outro lado, a internet veio facilitar os contactos lá fora. Em Portugal, neste momento, há poucas ofertas de trabalho.

Recorda-se da sua primeira apresentação como solista com a Orquestra Gulbenkian? Foi um dia muito especial para si?
Claro! Foi um dia especial, com muitas emoções e os nervos à flor da pele... Impossível esquecer! Mas terminou tudo bem.

Gravou o Sexteto para Cordas e o Quarteto com Piano de Joly Braga Santos. Encara como uma missão manter viva a obra do seu pai?
Sem dúvida. Aliás tenho outro CD em vista, já que um colega violinista se propôs gravar toda a música de câmara do meu pai e convidou-me para fazer parte do projeto.

Muito obrigado pelo tempo que dedicou aos nossos leitores. Tem algum projeto ou sonho guardado que deseje concretizar em breve?
Um dos meus sonhos era este mesmo. Outro seria o de gravar o concerto de viola... mas para já não penso nisso...a música de câmara é já um sonho tornado realidade... não peço mais.

Leonor Braga Santos. A viola, a música e o futuro dos jovens músicos.

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