Pedro Mestre e a salvaguarda da música e dos músicos do Alentejo

Pedro Mestre

Pedro Mestre, em entrevista, diz-nos que, depois do CD Campaniça do Despique, está prestes a lançar o DVD, gravado ao vivo no CBB a 22 de setembro 2015. «(...) Irei investir na apresentação do trabalho em grandes auditórios. Já estou a preparar outro CD a solo. E estou a integrar parcerias com outros músicos, cantores e artistas, tendo como principal preocupação/objetivo, unir e divulgar nomes e rostos, que ao longo de muitos anos, se dedicaram a divulgar o Alentejo, através da música, do cante e das suas tradições». Relativamente aos sonhos que ainda estão por concretizar refere: «Como diz o poema de António Gedeão “o sonho comanda a vida”. Não tenho nenhum sonho em concreto, vou deixar-me levar por aquilo que a vida me oferecer. Mas espero poder continuar a apresentar/divulgar com dignidade, a tradição musical do Alentejo, através do Cante e da Viola Campaniça, transmitir o saber aos mais jovens e a todos aqueles que se interessarem por este legado musical, permitindo que esta tradição perdure no tempo».

Muito obrigado por ter aceitado prontamente o nosso convite para esta entrevista. A música tradicional alentejana é uma paixão que sempre o acompanhou ao longo da sua vida?
É verdade. O meu gosto pela música tradicional, mais propriamente pelo Cante Alentejano, começou desde criança, através do meu avô e da minha mãe, com os quais aprendi as primeiras modas, cantadas nos serões à roda da lareira ou no pial da porta, onde se privilegiava o convívio e os laços familiares e de vizinhança.
Troquei as brincadeiras de criança, para dar lugar à aprendizagem da “música dos velhos”, expressão pela qual as crianças e jovens da minha idade denominavam esta riqueza musical. Aos 10 anos integrei o Grupo Coral Infantil os Carapinhas de Castro Verde e por volta dos 14, 15 anos integrei o Grupo Coral Os Ganhões (Castro Verde), do qual fui ensaiador e com o qual percorri vários pontos do nosso país e além-fronteiras e fui ganhando experiência e cada vez mais, o gosto pelo Cante.

Pedro Mestre

O seu nome é indissociável da Viola Campaniça. Quando e como começou a interessar-se por este instrumento?
A primeira vez que ouvi a viola campaniça, foi no programa radiofónico “Património”, transmitido, desde 1989 até aos dias de hoje, pela Rádio Castrense. Desde logo fiquei fascinado pela sua sonoridade ímpar.
Aos 12 anos, conheci os dois mestres que ainda tocavam este instrumento, o Mestre Francisco António, conhecido por “Ti Chico Bailão”, natural da Aldeia Nova (Ourique), berço da Viola Campaniça, com o qual aprendi os primeiros acordes e o Mestre Manuel Bento, também natural da Aldeia Nova, com o qual tive o prazer de partilhar, até há bem pouco tempo, uma grande amizade e sabedoria e o palco.
Comprei a minha primeira viola ao construtor Amílcar Silva, natural de Santana da Serra (concelho de Ourique) que faleceu recentemente. Tomei conhecimento deste senhor através do Mestre Francisco António. Foi com esta viola que aprendi os primeiros acordes e fiz os primeiros concertos.

Pedro MestreO gosto pela prática da viola campaniça surgiu em paralelo com a vontade de descobrir o seu funcionamento e a ciência inerente à sua construção?
Sim. Depois de aprender a tocar a viola campaniça, comecei a dedicar-me á sua construção. Desde cedo comecei a interessar-me por trabalhos manuais, nomeadamente os trabalhos em madeira. E como tinha a paixão pela viola campaniça, decidi ir ao encontro do construtor/artesão Amílcar Silva. Depois de observar o seu trabalho e seguir as suas indicações “meti mãos à obra” e construí a minha primeira viola aos 15 anos. Desde então fui aperfeiçoando a técnica, com o auxílio de manuais e troca de experiências com outros construtores, não só em Portugal como no Brasil. Neste âmbito também dei formação, em 2003 e 2004, num curso profissional promovido pela Cortiçol - Cooperativa de Divulgação e Preservação do concelho de Castro Verde em parceria com o IEFP, no âmbito do “Projecto Escola Oficina de Instrumentos Musicais – Viola Campaniça”.
Atualmente não me dedico à construção da viola campaniça, pois trata-se de um trabalho minucioso e moroso e não disponho desse tempo, devido aos vários projetos musicais que integro e desenvolvo. Mas dedico-me a colecionar cordofones, pois atualmente temos bons construtores de viola campaniça, os quais gostaria de enaltecer: Pedro Caldeira Cabral, Orlando Trindade, Vítor Félix e Mário Estanislau, Daniel Luz, Domingos Machado, João Pessoa, Daniel Luz ou Luciano Queirós (construtor Brasileiro). Todos eles procuram adaptar e ajustar, na sua arte de construir a viola, técnicas mais inovadoras que ajudem ao aperfeiçoamento das sonoridades da mesma. Este trabalho tem por base investigações desenvolvidas não só em torno das técnicas de construção, como de execução ou afinação. Há, sem dúvida, uma preocupação crescente para a elaboração de um instrumento de excelência.

A música vocal alentejana é outra paixão que abraça de forma muito intensa. Mas dedica-se ainda a outros projetos neste âmbito...
O Cante a Vozes é sem dúvida outra grande paixão e forma de sentir o Alentejo. Sou fundador/ensaiador de grupos corais alentejanos, nomeadamente do “Grupo Coral e Etnográfico – Os Cardadores” da Sete, Grupo Coral Feminino “As Papoilas” do Corvo, que integram a ACA - Associação de Cante Alentejano “Os Cardadores”, à qual presido. Fundei e ensaio igualmente o Grupo Coral Juvenil de Vila Nova de São Bento, Grupo Coral da Academia Sénior de Serpa, o Grupo "Alentejo Cantado". Sou igualmente ensaiador e integro o Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de São Bento e do Grupo Moças do Cante.

Pedro MestreAinda fica tempo para outros projetos musicais?
Sim, de cariz nacional e internacional com destaque para: “Grupo Viola Campaniça”; Grupo de cante tradicional “4uatro ao Sul; Grupo Rastolhice; “Encontro de Violas – Viola Campaniça e Viola Caipira - Pedro Mestre e Chico Lobo”; “Les Voix Du 7 Sóis” Orquestra do Festival - “Sete Sóis Sete Luas”; Campaniça Trio; Pedro Mestre - Campaniça do Despique, do qual resultou o meu primeiro disco a solo "Campaniça do Despique", lançado em 2016, o qual tem ganho destaque a nível nacional e internacional, merecendo o reconhecimento por parte do público.

A promoção e produção de espetáculos também são áreas que tem abraçado com alguma regularidade. Idealizar um espetáculo e construí-lo até à sua apresentação é algo empolgante mas também deve ser muito trabalhoso, principalmente para quem está envolvido em tantos outros projetos...
É verdade, não é tarefa fácil, mas é algo que me dá muito prazer. Pois criar/produzir um espetáculo permite adquirir conhecimentos e troca de experiências com outros músicos, permite o contacto com outras culturas, públicos, etc... enriquecendo o meu trabalho e vice-versa. Há que salientar que os espetáculos ou projetos não se esgotam em si mesmo, há sempre algo a acrescentar e a melhorar.

Tem empreendido projetos com caráter marcadamente pedagógico como por exemplo o “Cante nas Escolas”. Pensa que a autonomia das escolas deveria evoluir no sentido de se adaptarem ainda mais os currículos às realidades socioculturais de cada região?
Sem dúvida. Pois atualmente vivemos numa sociedade, em que os laços familiares e de vizinhança se tendem a perder e em que a escola assume um papel relevante na educação dos mais novos, substituindo em certos aspetos a própria família. Neste sentido, a escola poderá ser uma boa alternativa para a transmissão dos saberes, tradições, aos mais jovens, tendo em conta os vários contextos socioculturais de uma dada região. Para o efeito é necessária uma adaptação ou revisão dos programas curriculares.
Tomando como exemplo o projeto “Cante nas Escolas” (em vigor há quase nove anos), posso dizer que tem havido um esforço nesse sentido, por parte das Escolas com quem tenho trabalhado, havendo uma grande articulação entre os docentes do Departamento Curricular e o meu trabalho, definindo-se conteúdos e estratégias conjuntas.
Este projeto é uma aposta ganha, o Cante continua para além da sala de aula. Depois de saírem do primeiro ciclo, os alunos têm mostrado interesse em continuar as aulas de Cante Alentejano. Neste sentido, surgiram o Grupo Coral Juvenil de Almodôvar e o Grupo Coral Juvenil de Vila Nova de São Bento, formados por ex-alunos. E alguns deles integram atualmente Grupos Corais de adultos, ajudando à sua renovação. Por isso, sinto-me lisonjeado por este trabalho, o qual tem vindo a dar frutos e pelo fato de contribuir para que o cante se perpetue.

Pedro Mestre

A disciplina de Cante Alentejano na Academia Sénior de Serpa é outro grande desafio. Como surgiu esta ideia?
Depois de ter implementado, com sucesso, o projeto “Cante nas Escolas”, nas Escolas do 1º Ciclo do concelho Serpa (desde 2009), recebi o convite por parte do Município para lecionar a disciplina de Cante Alentejano na Academia Sénior, o qual aceitei com enorme satisfação. Esta disciplina está em vigor desde o ano letivo 2009/2010, onde a História Oral e a Memória Coletiva assumem um papel de relevo. Neste âmbito, a abordagem e interpretação de modas tradicionais estão na base do nosso trabalho, onde procuramos explorar a composição poética e musical, como os usos e costumes que fazem parte da memória coletiva e identidade cultural de um povo e que caraterizam o concelho de Serpa, bem como a região Alentejo.
À semelhança, do que aconteceu com os alunos do 1º Ciclo, o cante vai para além da sala de aula. Surge assim o Grupo Coral Feminino Etnográfico da Academia Sénior de Serpa, criado em fevereiro de 2010, composto atualmente por 21 elementos, entre os quais alunos da Academia Sénior e outras pessoas naturais de Serpa.

Pedro MestreA recolha etnográfica também lhe ocupa uma parte considerável do seu tempo?
Sim. Esta recolha surge de forma espontânea, a par de tudo aquilo que faço. E é através dela que é possível desenvolver um bom trabalho em prol da preservação e divulgação do cante e seus alicerces, não só enquanto músico, mas enquanto pessoa, amante da música tradicional de raiz, nomeadamente o Cante e a Viola Campaniça e procuro investigar, aprender e transmitir aos outros o meu saber e conhecimento.
Procuro “ir beber à fonte” e não copiar o que já existe. Neste âmbito esta recolha passa pela recolha de modas, trajes, usos e costumes, etc... que integram o património cultural imaterial. Neste âmbito possuo já um considerável acervo audiovisual. Tenho vindo a colaborar em algumas obras nomeadamente: Viola Campaniça, O Outro Alentejo de José Alberto Sardinha (2001); Tocadores Portugal Brasil, Sons em Movimento de Lia Marchi (2006); Caderno de Danças do Alentejo (Lia Marchi 2010); participo em conferências/colóquios a nível nacional e internacional, como orador, como por exemplo o Seminário Voa Viola através do painel “Aspetos socioculturais na música da viola no Brasil e em Portugal”, BH, Brasil (2010); editei o DVD – De Minas Ao Alentejo – Chico Lobo e Pedro Mestre, lançado no Brasil e em Portugal (2013, 2015).

Quais os são os próximos projetos a empreender? O DVD “Campaniça do Despique” já tem sucessor?
Depois do CD Campaniça do Despique, estou prestes a lançar o DVD, gravado ao vivo no CBB a 22 de setembro 2015, e irei investir na apresentação do trabalho em grandes auditórios. Já estou a preparar outro CD a solo. E estou a integrar parcerias com outros músicos, cantores e artistas, tendo como principal preocupação/objetivo, unir e divulgar nomes e rostos, que ao longo de muitos anos, se dedicaram a divulgar o Alentejo, através da música, do cante e das suas tradições.

Muito obrigado por este tempo que dedicou aos nossos leitores. Há algum sonho anda por concretizar?
Como diz o poema de António Gedeão “o sonho comanda a vida”. Não tenho nenhum sonho em concreto, vou deixar-me levar por aquilo que a vida me oferecer. Mas espero poder continuar a apresentar/divulgar com dignidade, a tradição musical do Alentejo, através do Cante e da Viola Campaniça, transmitir o saber aos mais jovens e a todos aqueles que se interessarem por este legado musical, permitindo que esta tradição perdure no tempo.

www.pedromestre.com.pt

Pedro Mestre e a salvaguarda da música e dos músicos do Alentejo

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