Miguel Amado. O baixo, o novo disco e a carreira passados em revista.

Miguel Amado

Fomos ao encontro de Miguel Amado em vésperas da estreia do seu The Long Rest. Assim, numa antestreia em Aveiro pudemos antever o que será apresentado no dia 16 de junho no Museu do Oriente. Como tivemos oportunidade de dizer nesse mesmo dia, o novo cd revela um trabalho muito maduro e repleto de virtuosismo. Com Miguel Amado subiram ao palco do Dia do Ritmo 2016: Desidério Lázaro nos saxofones, Ricardo Pinheiro na guitarra, Rúben Alves no piano e Vicky na bateria. O nosso entrevistado não considera que que seja mais fácil enveredar por uma carreira fora de Portugal. A este respeito disse-nos: «Não acho que se tenha que ir lá para fora. Lá o mercado é tão difícil como cá. Em alguns casos poderá haver mais oportunidades mas não em muitos porque o jazz continua a ser uma área marginal. Nesses sítios onde há mais oportunidades, Londres se falarmos na Europa, ou Nova Iorque ou Los Angeles se falarmos nos Estados Unidos, há muito mais competição não aumentando as probabilidades de sucesso».

Esta foi uma pré-apresentação pois a estreia deste The Long Rest será no dia 16 de junho no Museu do Oriente...
Sim. A apresentação será no Museu do Oriente com a mesma formação que aqui tivemos hoje.

Este novo disco é muito distinto do primeiro, “Mensagens de Fumo”?
O “Mensagens de Fumo” é o primeiro de todos. Eu penso que, de certa forma, há um fio condutor entre todos os meus discos. São álbuns em que tenho gravado a minha música e, nesse aspeto, não acho que sejam muito diferentes uns dos outros. O que há é uma evolução natural pois passaram bastantes anos. Há uma natural maturidade que foi surgindo enquanto músico e enquanto compositor. Mas, por exemplo, o Rúben Alves e o Vicky participaram nos discos todos. Também por aí tem havido um fio condutor que tem marcado os meus quatro discos.

Miguel AmadoEstando todos vocês envolvidos em tantos e tão diferentes projetos, conseguem manter os vossos encontros e os vossos espetáculos ao vivo com alguma regularidade?
Sim. Principalmente quando há um disco novo e surgem mais apresentações como é o caso desta fase agora. Mas, obviamente, tocando todos eles em tantos projetos e com artistas tão conhecidos, por vezes acontece algum deles não conseguir tocar num ou outro concerto e aí termos que chamar outros músicos. Isso já tem acontecido algumas vezes e não é algo que me aflija pois sempre que vem um músico novo, traz alguma coisa nova para a minha música. É algo natural neste tipo de música.

Há pouco falava da maturidade que foi ganhando desde o “Mensagens de Fumo”... Essa maturidade também advém do facto de ter vindo a tocar em projetos tão distintos uns dos outros? Já tocou em projetos ligados à música tradicional portuguesa com o Fausto e o Janita Salomé, mas também já tocou em projetos mais ligados à pop com o André Sardet e com a Lúcia Moniz. Isto também traz novas linguagens para dentro do próprio jazz?
Eu penso que traz. Aliás, não só a música que faço com os outros como a própria música que eu ouço. Eu sou mais consumidor de jazz e música improvisada, mas é claro que acabo por trazer influências de outras áreas e não faço esforço nenhum para esconder isso. Também não penso nisso acabando por ser uma coisa inconsciente.

Continua a manter a sua participação noutros projetos com regularidade, ou está a dedicar-se mais à docência nesta fase da sua vida?
A docência tem sido uma constante. Já dou aulas há muitos anos. Já dei aulas em muitas escolas... Mas continuo também a trabalhar em palco com muita gente diferente. São coisas que nós não controlamos. As ocasiões que surgem para trabalhar não aparecem de forma regular. Há alturas em que temos muito trabalho e outras fases mais calmas. Eu gosto de trabalhar em projetos de áreas diferentes.

E essa parte da docência também acaba por verter coisas para o palco? Falo das próprias partilhas de experiências com os seus alunos...
Não há dúvida nenhuma de que aprendemos muito a dar aulas.

Miguel AmadoAprende-se muito no sentido de que tem de estar atualizado e manter uma postura reflexiva relativamente à sua própria prática docente, ou também acaba por ser permeável às ideias que os próprios alunos trazem para a aula?
Sim, acontecem as duas coisas. Tenho dado aulas a alunos de níveis muito diferentes, desde principiantes até alunos profissionais em contexto de ensino superior. É sempre uma troca de informação e de experiências.

Ao ouvirmos a vossa música sentimos que, embora estejamos a falar de música improvisada, há ali estruturas um pouco rígidas... Como funciona o processo de composição destes temas? As ideias partem todas do Miguel? Quando vai para o ensaio já leva uma estrutura muito bem definida, ou leva só uma ideia inicial e, em conjunto, trabalham em torno da mesma?
Um bocadinho das duas coisas. Em alguns temas eu já levo as coisas muito estruturadas, muito definidas e depois cada um coloca a sua maneira própria de interpretar as suas partes e acrescentam as mesmas à música. Noutros casos pode haver um tema em que a parte escrita é uma coisa minimal, em que apenas há uma ideia geral e tudo é mais aberto. No caso deste disco as coisas estavam mais estruturadas pois fiz um trabalho de composição e de arranjos mais aprofundado dando-lhes as coisas com mais indicações e mais definidas.

No dia 16 de junho vamos assistir a um espetáculo diferente daquele a que assistimos aqui hoje?
A principal diferença reside no facto de irmos tocar o disco na íntegra. Hoje não tocámos o disco todo. Vamos ter também a participação de convidados que não costumam atuar nos nossos concertos ao vivo. Vamos contar então com a participação da Lúcia Moniz que gravou um tema no disco e ainda outro grande cantor, o meu amigo Paulo Ramos.

Há mais espetáculos agendados para apresentar este The Long Rest?
Sim. Em julho estaremos no Festival de Jazz de Viseu, iremos a Castelo Branco, também temos uma data para agosto e em setembro estaremos no Hot Clube.

Portugal recebe hoje melhor este género musical?
Não sei se existem hoje mais oportunidades para tocar... Apesar de tudo, para a nossa dimensão até não nos podemos queixar pois há bastantes e bons festivais de jazz. No entanto continua a não ser uma coisa mainstream.

Miguel Amado, Aveiro, 2016

Já lhe passou pela cabeça fazer um trabalho que assumisse um compromisso entre o jazz e outras linguagens mais acessíveis para chegar a um público mais vasto?
Não. Neste caso não porque não faço isto para obter qualquer tipo de retribuição. Faço isto porque quero. Não penso sequer nisso quando estou a fazer um disco novo.

Os alunos que o procuram, fazem-no porque admiram este género musical?
Em alguns casos sim...

Miguel AmadoQuais são os conselhos que lhes costuma transmitir? Diz-lhes que Portugal é um país pequeno para enveredar por uma carreira na área do jazz?
Não acho que se tenha que ir lá para fora. Lá o mercado é tão difícil como cá. Em alguns casos poderá haver mais oportunidades mas não em muitos porque o jazz continua a ser uma área marginal. Nesses sítios onde há mais oportunidades, Londres se falarmos na Europa, ou Nova Iorque ou Los Angeles se falarmos nos Estados Unidos, há muito mais competição não aumentando as probabilidades de sucesso. No entanto nunca me atrevi a desencorajar ninguém para seguir esta ou aquela via. É uma decisão muito pessoal pela qual eu também passei. Lembro-me da dificuldade inerente ao assumir essa decisão.

E quando é que surgiu essa decisão? Começou a estudar música muito cedo?
Eu comecei a estudar música a sério por volta dos 13, 14 anos.

O jazz já era a linguagem com que mais se identificava?
Sim. Isso já vem desde pequenino pois o meu pai sempre gostou muito. Desde bebé que ouvia jazz e isso ajuda muito pois não havia uma barreira cultural, não há um choque com a linguagem. Na adolescência comecei a perceber que era isto que queria fazer mas ainda entrei na Faculdade de Arquitetura mas só estive lá um ano.

Nos dias de hoje onde se pode estudar música nessa vertente do jazz?
Agora há muita oferta. Quando eu estudei, em Lisboa só havia o Hot Clube e no Porto havia a Escola de Jazz do Porto. Não havia cursos superiores. Depois começaram a aparecer mais algumas escolas particulares mas ainda sem curso superior. Lembro-me de que em Lisboa apareceu a JBJazz. Depois apareceram as licenciaturas em Lisboa e no Porto. Primeiro no Porto, na ESMAE, depois em Lisboa e agora já há outra em Lisboa na Universidade Lusíada, entretanto já há em Évora... Podemos dizer que hoje há um ensino de qualidade nesta área.

Hoje já é então possível estudar jazz em Portugal. Há uns anos atrás, para estudar música, só era possível seguir a vertente clássica... Chegou a pensar seguir esta via?
Eu ainda fiz o curso geral de guitarra no conservatório. A guitarra tem muitas afinidades com o baixo elétrico. Tanto na mão direita como na mão esquerda.

Obrigado por esta partilha que nos proporcionou aqui em Aveiro. Que tudo corra bem na apresentação do dia 16 de junho em Lisboa.
Muito obrigado.

www.miguelamado.com

Miguel Amado. O baixo, o novo disco e a carreira passados em revista.

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