Pete Lockett. A percussão e a bateria numa abordagem singular.

Pete Lockett

Aproveitando a visita de Pete Lockett a Portugal, no âmbito do Acifal Dia do Ritmo 2016 em Aveiro, entrevistámos o percussionista que se mostrou ansioso pela chegada do dia em que iria conhecer o público português. Pete viaja pelo mundo partilhando as suas visões e conceções sobre a bateria e a percussão. Não considera necessário adaptar a sua prática pedagógica às diferentes culturas que visita desde que as pessoas estejam com disposição para aprender e desde que a informação seja apresentada de uma forma clara. «Considero mais importante adaptar diferentes estilos de ensino entre os diferentes níveis de aprendizagem. Há que ter uma abordagem completamente diferente com alunos de iniciação do que com os alunos avançados, que estão habituados ao processo de aprendizagem dentro de um ambiente musical».

O Pete Lockett é considerado um baterista e percussionista muito versátil. Em sua opinião, o que é que contribuiu mais para esta classificação que lhe é feita pela crítica musical?
Eu passei a minha vida a desfrutar e a celebrar a diversidade. Eu vivo numa das cidades com maior diversidade cultural do mundo, e isso reflete-se fortemente na minha música. Tenho tido a sorte suficiente para ter colaborado com mestres da Índia, Japão, China, Cuba, África, Arábia e muitos mais aqui na minha cidade natal. Eu faço questão de abordar a música com a mesma postura de mente aberta tentando integrar muitas dessas influências numa voz que, pelo menos, tenta acreditar em união, em vez da tendência atual de isolamento político e separatismo. Felizmente para mim estes esforços têm sido respeitados e aplaudidos pela crítica.

Pete LockettO facto de abordar com facilidade diversos instrumentos da percussão está relacionado com o enorme leque de artistas que recorre aos seus serviços?
Uma forma de chegar verdadeiramente ao cerne do processo criativo é trabalhar com pessoas fora das zonas em que nos sentimos confortáveis a trabalhar. É isto que nos permite diversificar e aprender instrumentos e abordagens diferentes. Todas as formalidades e hábitos são postos de parte, e somos forçados a começar de novo. Temos que repensar tudo o que fazemos se queremos chegar musicalmente a qualquer lado nestas situações. Na ausência de muitas oportunidades como esta, comecei a montar projetos, digressões e gravações. Porque não juntar o Bill Bruford de YES com um baterista africano, um percussionista clássico, um grupo indiano de tambores Dhol e um percussionista “craze” híbrido britânico!! Isso levou a muitas colaborações interessantes e desafiantes, de uma forma positiva, com inúmeros bateristas e músicos incríveis. Seja qual for o estilo de um músico, há sempre uma maneira de encontrar um terreno comum.

Estará em Portugal em breve. Em que consistirá a sua passagem por cá? Irá realizar somente momentos de performance, ou os seus admiradores poderão esperar também momentos pedagógicos?
Eu gosto sempre de estar em novas cidades. Será minha primeira vez em Aveiro, por isso estou realmente ansioso para tirar um dia para ver a cidade, conhecer pessoas locais, comer a incrível comida local e desfrutar de algum vinho. Sinto-me abençoado por ter a oportunidade de visitar estes lugares maravilhosos e fazer tantos amigos novos.

Começou a tocar bateria e percussão muito cedo? Que idade tinha quando abordou pela primeira vez estes instrumentos?
Foi uma coisa bizarra. Eu só estava a passar por uma loja de baterias e, sem nenhuma razão facilmente explicável pensei: “vou ter uma aula de bateria”. Entrei e isso fez sentido para mim de uma forma que nunca tinha acontecido com outras coisas na minha vida, como a educação ou qualquer coisa assim. Pouco depois eu já era o baterista de uma banda de punk rock. Da mesma forma, a minha decisão de transformar um kit punk rock numa Tabla foi totalmente inesperada. Tudo isto relacionado com o facto de eu ter começado muito tarde, aos 19 anos! Onde há uma vontade, há um caminho. A minha primeira memória musical foi aquela primeira aula de bateria!

Pete Lockett

Quais eram os bateristas e percussionistas que mais admirava? Esses ídolos influenciaram-no muito?
Eu comecei com Punk, Sex Pistols para Damned, em seguida tornei-me um grande fã de Keith Moon. Destruía a minha bateria em concertos e tudo isso fazia parte dessa influência. Em seguida, passei a ser influenciado pelos bateristas "technical" do momento, Simon Phillips, Steve Gadd, etc. A partir daí cheguei aos ritmos indianos e por isso comecei a ouvir os grandes mestres indianos. Em cada etapa da viagem eu fui fortemente influenciado por todos esses heróis. Eles motivaram-me a agir e a perseguir o meu sonho de ter a música comigo durante toda a minha vida.

Atualmente viaja pelo mundo partilhando o seu conhecimento sobre a bateria e a percussão. Tenta adaptar a sua prática pedagógica às culturas que visita?
Não acho que seja necessário fazer muitas mudanças entre as culturas se as pessoas estiverem com a disposição de aprender e nós apresentarmos a informação de forma clara. Considero mais importante adaptar diferentes estilos de ensino entre os diferentes níveis de aprendizagem. Há que ter uma abordagem completamente diferente com alunos de iniciação do que com os alunos avançados, que estão habituados ao processo de aprendizagem dentro de um ambiente musical.

Pete Lockett

Tem absorvido ritmos de todos esses países por onde tem passado?
Claro! Por exemplo, a tradição Folk na Índia é muito forte, especialmente em Rajasthan. Para compreendê-la, ainda que parcialmente, é preciso ir à origem e visitar as aldeias e as casas das pessoas que fazem a música. Quando eu fui para Jaipur, seguimos para o deserto, cinco horas ou mais nas regiões distantes de Shekawati e Marwar, para visitar os músicos nas suas aldeias. Enquanto andámos de aldeia em aldeia, cada comunidade apresentou uma performance improvisada, às vezes num campo, debaixo de uma figueira ou no meio de uma passagem movimentada.
A primeira coisa que me surpreendeu foi a incrível variedade de local para local. Poderíamos ter viajado poucas milhas de um lugar para o outro, mas os instrumentos, o estilo e a abordagem da música eram completamente diferentes.

Na aldeia Chhotadia deparámo-nos com um instrumento chamado Maante, um enorme pote de barro de 30" transformado num tambor com uma pele no topo. Nós vimos aquilo que era, aparentemente, uma das últimas famílias do mundo que tocavam este tambor. Em seguida, fomos para Pabusar onde Gopal Geela e seu grupo cantaram e dançaram com enormes “frame drums” chamados ‘Chang’. Eles hipnotizaram-nos com o seu desempenho característico e energético antes de irmos para Barjangsar onde ouvimos Manphula Ram e seu grupo de praticantes de Derun. Eu estava fascinado e dominado pela energia e substância de toda a situação. A música era parte das suas vidas quotidianas. Eles não estavam a tocar com o objetivo de serem bem-sucedidos, ricos ou famosos, não estavam à procura de aprovação ou a tentar impressionar. Isto foi exatamente o que eles fizeram, foi parte de sua cultura, nasceu da sua noção de comunidade. Era mais uma partilha e uma integração, mais do que ‘uma atuação para um evento’. Eu sentia-me humilde ao ver esta música na própria fonte, livre do ego e da pretensão. Isso fez-me refletir sobre como uma grande quantidade de música perdeu esta ligação no Oeste e como se tornou um mero entretenimento, um luxo ou mercadoria comprada e vendida e exibida de forma isolada da nossa vida quotidiana. Este é o ponto basilar que retiro das incríveis experiências musicais que vão ficar comigo para sempre.

Pete Lockett

Nesta fase da sua vida, para além dos momentos pedagógicos que protagoniza, encontra-se a tocar inserido noutros projetos musicais, ou com alguns artistas?
O meu foco principal, já há alguns anos, tem sido o meu trabalho a solo e colaborativo. Este é o sangue da vida para mim, composição e colaboração. Estou sempre à procura de diferentes maneiras de abordar as coisas. Isto não é uma questão de rebeldia ou desejo de ser visto como inovador ou diferente, mas simplesmente porque eu me sinto inspirado e entusiasmado quando posso ver algo de uma maneira diferente daquela que normalmente vejo. Isso abre realmente a visão criativa e faz-nos encontrar uma liberdade articulada dentro de todo o esquema das coisas. Com isso em mente, tenho pouco interesse em ser um percussionista tradicional formal, de qualquer cultura ou género e, em vez disso, tento ver como posso desmontar e reorganizar as peças. No entanto, para fazer isso, é preciso entender profundamente a música tradicional que se está a desmontar de forma a representá-la com a sua integridade intacta.
Também é importante ser tão diversificado quanto possível fora da música. Eu acabo de lançar meu primeiro livro de ficção científica (“A survivors guide to eternity”) e lancei uma uma APP de percussão para iOS e android (App Drumjam).

Muito obrigado por este momento de partilha que protagonizou com os nossos leitores e com a equipa do XpressingMusic. Conhece alguns bateristas e percussionistas portugueses?
Foi um prazer. Estou ansioso para conhecer todos. Entretanto, podem visitar o meu site oficial para muitas aulas que disponibilizo gratuitamente em vídeo!

Pete Lockett. A percussão e a bateria numa abordagem singular.

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