Giampaolo Di Rosa. Órgão, música e entrega. A entrevista.

Giampaolo Di Rosa

Giampaolo Di Rosa tem protagonizado um trabalho notável ao serviço da música, em geral, e do órgão ibérico, em particular. O seu trabalho tem contribuído certamente para uma nova visão sobre este instrumento. «(...) interessa-me imenso este instrumento e a sua infinita riqueza de cores. Acho não ter feito descoberta nenhuma, mas sim uma abordagem que, através do som, e para além do reportório historicamente típico deste instrumento, permite atingir uma vertente sinfónica. Tudo isso, não sozinho, mas com outros colegas de toda Europa, particularmente há alguns anos atrás no Seminário Maior do Porto e agora na Santa Casa da Misericórdia de Guimarães».

Giampaolo Di Rosa, muito obrigado por nos conceder esta entrevista. A sua vida profissional divide-se entre a carreira enquanto performer, compositor, investigador, pedagogo e diretor artístico. É certamente muito difícil gerir uma agenda com tanta atividade...
Sou fundamentalmente organista titular da Igreja Nacional de Portugal, Santo António dos Portugueses em Roma. Este é o meu serviço. Todas as outras atividades giram à volta desta principal.

Os instrumentos de tecla foram sempre uma paixão? Qual foi o primeiro instrumento que estudou?
Foi o piano. De maneira que, basicamente, sou pianista. Depois passei ao órgão para acabar no cravo. E contemporaneamente desenvolvi os estudos musicais gerais: música de câmara, canto gregoriano, composição, análise e pedagogia.

A sua formação é muito ampla, tendo obtido vários diplomas e graus académicos. A investigação esteve sempre presente ao longo da sua vida? Há uma grande ânsia da sua parte em aliar o conhecimento teórico à praxis performativa?
A investigação é uma postura, um hábito mental em função do conhecimento, pois nunca se para de aprender. Isto é mesmo o facto real da aprendizagem ao longo da vida.
A prática performativa é uma atividade essencial para mim em quanto músico. O fazer música no dia-a-dia, incluindo necessariamente a improvisação. Por isso, como gravo de vez em quando, os CD’s têm a função de marcar etapas da nossa experiência musical.

Giampaolo Di RosaPensa que os jovens músicos têm muito a ganhar se adotarem uma postura idêntica à sua? O conhecimento científico é um forte aliado da componente prática?
Qualquer pessoa ganha procurando ser coerente com os objetivos que pretende alcançar e que, penso, nunca acabam na vida. Teoria e prática são aspetos interativos. Sobretudo nas artes.

G. Kaunzinger, J. Guillou, G. Wilson e J. P. Oliveira são nomes que o influenciaram muito? Sente que absorveu o essencial de cada um deles?
Procurei aprender com eles, e outros. Também se tratam de estudos durante um tempo longo e em diferentes áreas e realidades sociais. Foi sempre enriquecedor. Desde Itália à Alemanha, acabando o doutoramento em Portugal. O Professor Kaunzinger, grande músico e pedagogo, foi ele que me levou adescobrir o órgão sinfónico. Sempre lhe estarei grato!

J. P. Sweelinck, J. S. Bach, C. Franck, F. Liszt, O. Messiaen, as obras de sua autoria e a música dos séculos XX e XXI fazem parte do vasto reportório que tem vindo a interpretar. Tem algum fascínio por algum compositor ou alguma época em particular?
Cada época com a sua música é expressão de beleza, verdadeiro meio para chegar a Deus.
Um compositor? Então... Beethoven!

Tem-se dedicado muito ao órgão ibérico. As descobertas que tem protagonizado podem contribuir para uma nova visão sobre este instrumento? Essas descobertas poderão também contribuir para novas abordagens performativas?
Sim, interessa-me imenso este instrumento e a sua infinita riqueza de cores. Acho não ter feito descoberta nenhuma, mas sim uma abordagem que, através do som, e para além do reportório historicamente típico deste instrumento, permite atingir uma vertente sinfónica. Tudo isso, não sozinho, mas com outros colegas de toda Europa, particularmente há alguns anos atrás no Seminário Maior do Porto e agora na Santa Casa da Misericórdia de Guimarães.

A sua carreira de professor possibilita-lhe também a constante partilha das conclusões das suas investigações. Considera uma mais-valia este contacto constante com os alunos?
Já não sou docente de uma instituição, porém tenho possibilidade de orientar master classes, nomeadamente de improvisação. A partilha com músicos e estudantes é fundamental, sobretudo para pensar novamente muitas das coisas que temos aprendido, e que precisam agora de ser desenvolvidas e atualizadas.

Tem feito concertos por todo o mundo. Há alguns momentos destas digressões que recorde com maior carinho?
De facto o mundo inteiro é a nossa casa nesta vida terrena, onde todos temos direito de estar, e viver em paz.
Roma, Vila Real, Guimarães, León e mais longe Rússia até Hong Kong: são lugares belíssimos, também para fazer música.

Tem estado à frente de festivais internacionais de órgão. Encara a divulgação deste instrumento como uma missão?
Em Roma, com o Reitor do Instituto Português de Santo António, Monsenhor Agostinho Borges, temos realizado, já há oito anos – e vamos para a frente – um centro de produção e divulgação de nível internacional da música para órgão. De facto trata-se de um dos maiores festivais na Europa de caráter permanente. Todos os maiores músicos do mundo inteiro vêm à Cidade Eterna para tocar na nossa Igreja, que é a Igreja de todos os Portugueses.
A divulgação, também em realidades mais longínquas, é fundamental. É nosso dever fazê-la. E não parar perante as dificuldades.

Tem dividido a sua atividade entre a Santa Casa da Misericórdia de Guimarães e a Sé Catedral de León em Espanha. Portugal e Espanha são as “casas” de um rico património organístico. Pensa que esse património está a ser bem divulgado a nível mundial?
Nestas realidades, bem como em Roma que acabo de mencionar, e recentemente com o novo órgão sinfónico da Sé de Vila Real, com os responsáveis destas Igrejas e Instituições está a ser feito um trabalho de excelência de forma sistemática e constante.

Quais os órgãos aos quais se encontra ligado atualmente?
O grande órgão de cinco teclados de Santo António dos Portugueses em Roma, que goza de uma acústica realmente “maravilhosa”, o novo órgão da Sé de Vila Real, o ibérico da Igreja dos Capuchos em Guimarães e também o grande órgão com oito prospetos da Sé de León. Regularmente estou em Roma e vou para estes destinos, com novo repertório para trabalhar e tocar.

O que sentiu ao receber o grau de Oficial da Ordem do Infante D. Henrique? É a prova de que o seu trabalho em Portugal atingiu uma grande dimensão...
Imensa gratidão para com povo Português!

Mais uma vez muito obrigado por estas enriquecedoras partilhas que nos proporcionou. Tem novos projetos para breve que possa revelar aos nossos leitores?
Já foi anunciado pelo Reitor de Santo António em Roma: vou interpretar na nossa Igreja nacional, em 2017, a integral da obra para órgão do Olivier Messiaen, por ocasião dos 25 anos da sua morte. E este projeto, depois da integral de Bach, é mesmo monumental. Obrigado.

www.giampaolodirosa.org

Giampaolo Di Rosa. Órgão, música e entrega. A entrevista.

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