Samuel Úria e as canções que partem do inconformismo

Samuel Úria

A entrevista a Samuel Úria assentou numa viagem que partiu do disco atual “Carga de Ombro” e, recuando no tempo, chegou às suas vivências, influências e ao assumido inconformismo presente no seu ato criativo. «Não consigo entender outra predisposição para escrever uma música que não parta do inconformismo. E não falo só de canções de protesto, de sermões cantados, de lamentos musicais ou de estrebuchares ruidosos “contra o sistema”. As próprias canções de celebração ou agradecimento partem do meu inconformismo, nem que seja aquela comichão de me sentir ingrato por não estar a celebrar ou a agradecer o que devo».

Samuel Úria, muito obrigado por ter aceitado este convite para falarmos do novo trabalho “Carga de Ombro” e da sua criação e interpretação. Podemos começar mesmo pelo novo disco. O que nos traz com este “Carga de Ombro”? O que o distingue dos discos anteriores?
O que o distingue é vasto, ou então concentra-se em 11 pontos, cada um deles com uma faixa do CD. Apesar da vastidão de diferenças, não deixa de ser um trabalho de continuidade em relação aos últimos dois discos de estúdio. Mantenho algumas peculiaridades na escrita mas aplico-as ao estado de espírito da pessoa que sou no momento em que me sento para fazer canções: isso determinará sempre as diferenças, mas também as semelhanças. A distinção é, acima de tudo então, cronológica.
Há aproximações a universos do meu passado, como algum lo-fi à mistura, mas também novos elementos eletrónicos a despontar. Possivelmente a grande novidade para mim neste disco foi trabalhar as canções e ter um feedback imediato e individual de cada pelo produtor. Nesse feedback podiam já vir novas ideias e elementos, e assim cheguei a estúdio com o disco mais definido – o estúdio deixou de ser o laboratório de criação e construção, e mais a impressora duma ideia estabelecida.

Samuel Úria, Carga de OmbroO disco contém um tema extra – “Vital e sua moto”, um original dos Paralamas do Sucesso. Porque decidiu recriar este tema da banda brasileira?
Não foi tanto uma decisão, mas mais uma resposta a um convite. A Scream and Yell (site brasileiro) decidiu fazer um tributo ibero-americano aos Paralamas do Sucesso e os TV Rural e eu fomos os convidados portugueses desse álbum. A minha escolha recaiu sobre a canção do Vital que, por ser originalmente um ska alegre, traria o desafio de ser reformulada numa música mais intimista e desacelerada (até porque a pessoa em quem a canção é inspirada tinha falecido há pouco tempo e eu queria explicitar uma sonoridade de nostalgia e homenagem). Como gravei tudo em casa, exatamente com os mesmos meios com que tinha feito há pouco tempo as maquetes iniciais do meu disco, a canção dos Paralamas surgiu como hipótese óbvia para o extra da edição digital do Carga de Ombro.

O primeiro single “Dou-me Corda” está a ser alvo de boas críticas? Porque escolheu este tema para lançar o disco?
As críticas têm sido boas, pelo menos as que me chegam, o que não deixa de surpreender – foi por ser algo difícil que a canção foi escolhida. Mais do que a estratégia habitual de fazer sair um primeiro tema agradável e chamativo, selecionou-se a “Dou-me Corda” por critérios raramente agradáveis ou chamativos: alguma agressividade, palavrosidade, inconformismo, repetição. Era fulcral que o primeiro tema mostrasse força e não submissão a expectativas; isto não é ignorar o público, antes assumir que o melhor que tenho para dar é o mais identitário, nunca o mais concedido e capitulado. Usar a transgressão mais que a transigência.

Quais são os músicos que o acompanham nesta aventura discográfica?
Há um núcleo duro de banda que me acompanha há muito tempo onde figuram o Miguel Sousa, o Tiago Ramos e os Pontos Negros Jónatas Pires e Filipe Sousa. Também dos Pontos Negros o David Pires gravou algumas baterias neste disco. Ainda está lá o Martim Torres, o Sérgio Nascimento, o David Fonseca, a Selma Uamusse, a Francisca Cortesão e, presença mais constante logo a seguir à minha, o Miguel Ferreira. O Filipe Cunha Monteiro, que realizou o vídeo da “Dou-me Corda”, também voltou a gravar umas guitarras e tenho ainda de mencionar o coro vocal com a Inês Maia, o Tiago Silva, a Inês Amador, a Rebeca Reinaldo, o Pedro Wagner, a Joana Wagner e o Rafael Nunes.

Samuel Úria, Carga ao Ombro, entrevista

Ao vivo serão os mesmos músicos?
Se fosse comportável tê-los sempre, esta resposta seria um “sim” contundente. Nos concertos já feitos, por serem especiais de lançamento, consegui ter uma boa percentagem da malta referida. E ainda outros: o Silas Ferreira (para completar a caderneta de Pontos Negros), a Andreia Barreiro, a Carolina Barreiro e o Simão Carneiro. Ainda tive convidados como a Ana Bacalhau e o Manel Cruz.

A música que faz tem a Beira Alta lá dentro?
A música que eu faço vem de dentro de mim, e sendo eu tão constituído de Beira Alta é impossível não impregnar as canções de espírito beirão. Mesmo que não quisesse, não tinha como escapar.

Coimbra, Leiria, Figueira da Foz ou Évora são cidades que contribuíram para a evolução do Samuel enquanto criador? Absorveu nestas cidades características que sejam palpáveis na sua práxis enquanto músico?
Sem dúvida, embora ainda seja Tondela, a minha cidade natal, que vou procurar mentalmente quando componho. Sou extremamente permeável ao que me rodeia e assumo muito mais os ambientes do que músicas enquanto influência, ou até enquanto citação. Como é tudo filtrado por mim, e pela minha expressão, não espero que as pessoas entendam os espaços que configuram as minhas canções, mas eu sou capaz de identificar a altura em que fiz determinada música porque ela me soa à cidade em que foi feita.

Samuel ÚriaÉ um criador inconformado?
Não consigo entender outra predisposição para escrever uma música que não parta do inconformismo. E não falo só de canções de protesto, de sermões cantados, de lamentos musicais ou de estrebuchares ruidosos “contra o sistema”. As próprias canções de celebração ou agradecimento partem do meu inconformismo, nem que seja aquela comichão de me sentir ingrato por não estar a celebrar ou a agradecer o que devo.

Sente que Portugal e os portugueses mereciam Ministérios da Cultura que apostassem mais na música e nos músicos? Continuamos a encarar a música mais como um veículo privilegiado para a animação?
Sinto isso tudo, todas as dores que me prejudicam e todas as faltas que me beneficiariam. Mas sou desconfiado dos apoios institucionais, não só dos critérios com que seriam atribuídos mas também das gulas e preguiças com que seriam recebidos. Fujo sempre da politização desta conversa porque os sistemas viciados não estão só no clichet das entidades corruptas e ignorantes que governam. Já vi muitas manifestações de artistas em que não se reivindicava o merecido, ou o salutar, mas o “aquilo a que estávamos habituados”. Como comecei a fazer música em tempo de vacas magras, escapam-me algumas dores saudosistas dos tempos de fartura e esforço-me mais na composição do que no lamento. Para além disso, ao pé do trabalho programático que o Ministério da Educação devia fazer - ensinando e promovendo hábitos de consumo de cultura – ou dos serviços públicos dos canais de comunicação estatal, o papel do Ministério da Cultura nunca seria o alvo mais ponderado das minhas exigências.

Muito obrigado pelo tempo que nos dedicou. Para terminarmos, gostaríamos de lhe deixar seis questões para uma resposta rápida.

Último livro que leu...
Acabei de folhear o guia “Vinhos de Portugal 2016” do João Paulo Martins. Conta?

Qual foi o músico que mais o influenciou?
Não consigo quantificar isso, porque muitos me influenciaram em determinadas alturas e é difícil hierarquizar. Para além disso, o meu património de influências (e falo particularmente daquelas que chegam à minha música) tem muitas coisas subliminares que vêm à cabeça e aos ouvidos sem que eu identifique a proveniência. (e assim falho no critério de “respostas rápidas”)

O disco da sua vida...
Pelo momento em que me apanhou, talvez Time Out of Mind, do Bob Dylan.

Qual o seu prato preferido?
Muda todos os dias. Neste momento apetece-me Chanfana.

Vinil ou CD?
Queria ser cool e dizer vinil, mas o meu gira-discos está avariado.

Um filme que ainda não tenha visto e que deseje ver em breve...
Estou curioso com a “Balada de um Batráquio” da Leonor Teles.

Samuel Úria e as canções que partem do inconformismo

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