Hélder Bruno e o espetáculo “A Presença, serena e terna”

Hélder Bruno

O nosso entrevistado proporciona nesta entrevista uma completíssima viagem pela sua vida e pela(s) sua(s) carreira(s). O homem, o músico, o investigador e o político apresenta agora nos palcos o espetáculo “A Presença, serena e terna”. «É uma música intimista, pura, verdadeira, sem qualquer ambição para lá de tocar o outro, profundamente. Procuramos “o grande milagre”, a “suprema inspiração”, a “divina luz” sempre muito longe de nós». Hélder Bruno não deixou de nos falar de algumas lacunas ao nível das políticas culturais em Portugal, faltando, em sua opinião estratégia e visão. Diz-nos que: «Noutros países, Carlos Seixas, Marcos Portugal, Joly Braga Santos, seriam referências populares e já haveria bombons, meias e roupa interior com o seu perfil (risos)... A este respeito é muito importante que se contrarie uma certa tendência para abordar o setor da cultura como um bem de mercado. Há bens culturais que servem a dinâmica económica».

Hélder, muito obrigado por teres reservado um pouco do teu tempo para a nossa publicação e para os nossos leitores. É verdade que a tua ligação à música é tão profunda que não te recordas de ti sem ela?
É verdade. Não me lembro de mim sem música. As primeiras recordações que possuo de mim mesmo são a cantar, a gravar canções ainda balbuciadas... Lembro-me de um piano-brinquedo que me acompanhava. Lembro-me dos concertos caseiros, intimistas, e da benevolência da plateia...

Antes de ingressares no Conservatório de Música de Coimbra, frequentaste algum tipo de formação musical?
Sim. Passei pela Filarmónica Lousanense e pela escola de música da Igreja da Vila de Serpins, no Concelho da Lousã.

Muito cedo integraste o Coro e a Big Band do Conservatório. Havia já uma certa dose de “fome de palco”?
Penso que sim. Todas as artes, enquanto comportamentos expressivos, pressupõem comunicação, partilha, chegar ao outro. Tocar os outros. Nesse sentido estar em palco é poder chegar ao outro, tocar os outros. E a Música consegue concretizar este processo de forma sublime. Talvez como nenhum outro comportamento expressivo.

Hélder BrunoEm que altura sentiste o chamamento do jazz? Tiveste que mudar de instituição de ensino por essa razão?
A presença de livros e de discos no quotidiano é outra memória de infância que guardo com carinho. Em minha casa, os meus pais ouviam muita música: da música erudita ao pop, passando pelo rock e pela música de raiz tradicional. Recordo-me, por exemplo, de 3 artistas portugueses e dos seus discos que me ficaram retidos – consigo até visualizar as capas dos vinis... Refiro-me a António Variações, Rão Kyao e Júlio Pereira.
O jazz surge de forma arrebatadora. Efetivamente levou-me a procurar uma instituição que proporcionasse formação em Jazz.

Paralelamente foste procurando formação com músicos como o Carlos Martins, o Carlos Barreto, o Bernardo Moreira, o Pedro Moreira e o Bernardo Sassetti. Absorveste de cada um deles a dose certa para que te tornasses num músico singular e portador de uma voz própria?
Ao iniciar os estudos no Conservatório de Música de Coimbra fui entrando, gradualmente, no universo pianístico. Apesar de ouvir já antes, é aqui que o fascínio pela música jazz exerce maior influência. No início da década de 90 (do século XX!) participei pela primeira vez num Workshop de Jazz. Realizou-se no Conservatório de Música de Aveiro e tinha como formadores Carlos Martins, Carlos Barretto, António Pinto e André Sousa Machado. Portanto, a iniciação à linguagem foi arrebatadora: com estes mestres não poderia ter sido de outra maneira... Não sei se absorvi tudo o que me transmitiram. Sei, sim, que foram importantíssimos para a criação do meu universo conceptual, musical, estético e artístico.

Na Escola de Jazz do Porto estudaste com quem?
Estudei com Paulo Gomes.

O que te levou a realizar a licenciatura em Educação Musical? Havia também em ti um certo gosto pela pedagogia musical?
O que me levou, na realidade, a realizar uma licenciatura ligada à música foi a paixão que nutria desde a adolescência pela musicologia e pelas ciências musicais. As antigas civilizações avançadas e a importância da música no seu quotidiano, as escolas iniciáticas da antiguidade clássica, Pitágoras e os pitagóricos e a Escola Pitagórica, as máximas políticas gregas, a própria matriz judaica da nossa civilização onde a música desempenha um importante papel em vários setores da sociedade (divino, religioso, político, económico, cultural)... o desenvolvimento do nosso universo sónico e a ação da ciência nesse percurso... tudo isto me atraiu profundamente. A licenciatura foi o ponto de partida para seguir o sonho da musicologia e das ciências musicais.

Depois veio o mestrado em Ciências Musicais da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra... Começava aqui um percurso mais ligado à investigação?
Sim. Aliás, esse era já o meu objetivo. Iniciei o mestrado em ciências musicais na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra em 2001. Foi aqui que realizei a primeira síntese da minha vida de forma consciente (risos): através da etnomusicologia debrucei-me sobre o fenómeno do jazz em Portugal durante o Estado Novo. Etnomusicologia, Música e Política. Três áreas que me apaixonam! Sou um apaixonado. Sagitariano... Há quem o justifique assim (risos). O percurso da investigação foi iniciado desta maneira e só suspenso quando estive em Moçambique, de 2003 a 2005, e enquanto vereador da Câmara Municipal da Lousã, de 2009 até há poucos dias atrás, por ter renunciado ao mandato.

Hélder BrunoAo mesmo tempo que lanças o livro “Jazz em Portugal (1920 – 1956)” iniciaste o doutoramento na Universidade de Aveiro, instituição à qual ainda continuas ligado, não é verdade?
A tese de mestrado foi adaptada para livro e publicada em 2006 pela Almedina. A Prof.ª Doutora Susana Sardo (Universidade de Aveiro) foi a principal arguente da minha defesa de mestrado na FLUC, em 2005. Na sequência do interesse revelado por algumas editoras em publicar a adaptação da tese, falei com a Professora Susana Sardo sobre esta possibilidade e acerca da eventualidade de iniciar o doutoramento na Universidade de Aveiro. Foi assim que iniciei o doutoramento na Universidade de Aveiro e passei a integrar o Instituto de Etnomusicologia, centro de estudos em música e dança – polo da Universidade de Aveiro, enquanto investigador. Sou bolseiro de doutoramento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia e desenvolvo projetos científicos e de consultoria na área das indústrias criativas, cultura, turismo e desenvolvimento territorial.
Para além destas atividades, colaborei com o neurocirurgião Carlos Calado (Hospital de São José) na realização de um estudo e cuja tese de doutoramento já defendeu. Realizou um estudo sobre o efeito da música na dor do pós-operatório. A este respeito, a etnomusicologia é essencial: a compreensão científica da fruição, da compreensão e comportamental por parte de um indivíduo ou de uma comunidade estão intrinsecamente relacionados, de forma integrada e transversal, evidentemente, com a dimensão humana: bio-psico-socio-cultural. Esta conclusão da musicologia há milhares de anos e mais recentemente pela etnomusicologia (talvez mesmo a partir dos descobrimentos, embora num contexto peculiar) tem vindo a propagar-se noutras áreas de conhecimento, inclusivamente na medicina.
Sou também co-coordenador do MBA em Gestão das Indústrias da Cultura e do Turismo na Coimbra Business School do ISCAC.
Casado com a Sofia e pai da Maria e do Dinis. (risos)

Paralelamente à investigação conseguias tempo para tocar ao vivo?
Eu deixei de tocar quando enveredei pela via científica e académica. Era o meu objetivo. Além disso, não sentia que tivesse algo para transmitir aos outros. Transmitir algo que tocasse, realmente, outros. Até há pouco tempo julguei que não iria retomar uma atividade criativa e performativa.

Tocaste com Né Ladeiras, Jorge Palma, Maré Alta, Cool Train Trio, Nuno Guerreiro, Baladas Bailadas, Inês Santos e muitos outros projetos. Agora protagonizas o teu próprio projeto a solo “A Presença, serena e terna”. Como caracterizas este espetáculo?
Durante a licenciatura toquei imenso. Foi fantástico. Vivi momentos muito felizes. De realização plena. Mas, como referi antes, achei que tinha encerrado esse ciclo e que não o retomaria. Acontece que nunca deixei de tocar nem de compor. Alguns amigos e amigas tinham conhecimento e iam dizendo que deveria voltar aos palcos... Eu achava que estavam a ser muito amáveis e generosos (risos). Em 2014 um conjunto de circunstâncias levaram-me a ponderar regressar à atividade performativa. A Associação Cultural Princesa Peralta (da Lousã) e a Dra. Joana Ruas, diretora da Academia de Bailado da Lousã, convenceram-me. Decidi que seria um espetáculo-teste (a mim mesmo e à música que, neste momento, me realiza). Para isso, houve limites a que me impus, nomeadamente a um limite mínimo de qualidade (quer técnica quer musical). E tudo isso foi, gradualmente, surgindo. Os músicos Carla Bernardino (soprano), Jacinto Neves e Miguel Gonçalves (violinos), Rogério Monteiro (viola d’arco), Feodor Kolpashnikov e também Miguel Matias (violoncelo); a fotógrafa Lieve Tobback; a técnica que esteve a cargo das empresas MovingWork e Studio 341 e a produção geral sob responsabilidade da empresa Cherry Blossom, Art&Culture Business Consulting. Os ensaios realizaram-se na Casa da Música. O espetáculo concretizou-se. Estiveram 150 pessoas. As reações superaram as minhas melhores expectativas o que me deixou mais seguro e confiante quanto à eventualidade de retomar a atividade performativa. O espetáculo chama-se “A Presença, serena e terna”. É uma música intimista, pura, verdadeira, sem qualquer ambição para lá de tocar o outro, profundamente. Procuramos “o grande milagre”, a “suprema inspiração”, a “divina luz” sempre muito longe de nós. Olhamos para as estrelas para encontrar o que está mesmo à nossa frente, nas coisas mais insignificantes, mais simples... É na simplicidade que encontramos as respostas. E nessa simplicidade, nessas coisas simples, existe uma presença, serena, terna, que nos aconchega e conforta. Que nos religa. Que nos retira do tempo psicológico – esse ruído incessante – e o coloca no presente (uma espécie de tempo sem tempo, a eternidade). A música deste espetáculo, que conta com a fotografia de Lieve Tobback, tem essa ambição.
O próximo concerto será no Teatro da Vista Alegre, em Ílhavo, no dia 18 de junho. Segue-se o Centro de Artes de Ovar, a 1 de julho. Depois Tábua, Figueira da Foz...

Hélder BrunoMuito obrigado por esta partilha tão rica. Para terminarmos, não poderíamos deixar de te colocar duas questões, tendo em conta a tua experiência política enquanto Vereador de uma autarquia durante 7 anos. É muito difícil impor uma agenda cultural aos “políticos”? Em tua opinião, por que razão continuamos a ter orçamentos do estado tão medíocres para as áreas ligadas à cultura?
Eu é que agradeço muito o interesse, a simpatia e a oportunidade. Aproveito para felicitar-vos por este projeto que se firmou já no panorama da imprensa nacional especializada. Muitos êxitos e sucessos! E vida longa ao XpressingMusic!
Ser vereador da Lousã foi uma experiência muito enriquecedora ao nível humano. Fui convidado a integrar este projeto, em 2009, precisamente para assumir a vereação dos pelouros da cultura e da educação a que se juntaram depois os de empreendedorismo, juventude, turismo, ciência e património. Em todos eles estamos a falar de “cultura”. Somos cultura em tudo o que fazemos. A economia que temos é resultado da cultura que somos. A corrupção, o suborno, o civismo, a solidariedade, a responsabilidade, a cidadania, são reflexo da cultura que temos e somos. Por isso é de facto incompreensível que o investimento na cultura não seja, pelo menos, de 1% do PIB. É que o peso do setor da cultura no PIB nacional está entre os 3 e os 5%. Segundo dados do INE, as atividades económicas culturais geraram mais riqueza para o país do que as indústrias alimentares e representam 2% do emprego nacional. Ao nível do Valor Acrescentado Bruto (VAB) vale 1,7%, ocupando a segunda posição logo a seguir às telecomunicações com 1,9%. Atrás da Cultura ficam a indústria alimentar, os seguros e fundos, por exemplo. O seu contributo para o desenvolvimento socioeconómico é evidente. É fundamental para o turismo, para a gastronomia, para o desporto, para atividades económicas tradicionais e convencionais. Para a educação e para a saúde. Até para a justiça... Por outro lado, temos um potencial sub explorado. Por exemplo, ao nível da exportação. Falta-nos estratégia. Falta-nos visão... Falta-nos política. Noutros países, Carlos Seixas, Marcos Portugal, Joly Braga Santos, seriam referências populares e já haveria bombons, meias e roupa interior com o seu perfil (risos)... A este respeito é muito importante que se contrarie uma certa tendência para abordar o setor da cultura como um bem de mercado. Há bens culturais que servem a dinâmica económica. Mais cedo ou mais tarde. No entanto, o investimento na cultura não pode ser feito tendo em vista, somente, o seu retorno financeiro imediato.
Por vezes confunde-se “animação cultural” com “promoção cultural”. A animação cultural é importante a vários níveis (lazer, entretenimento, socialização, turismo, formação / educação / estimulação sensorial, afetiva, emocional, sentimental...) e deve ser, na minha opinião, constituída por momentos que concretizem as políticas de fundo (de promoção cultural – porque é na cultura que reside o verdadeiro desenvolvimento).
A pressão política do eleitorado, ao nível do investimento na cultura, não tem sido visível. Não será fácil para a esmagadora maioria das pessoas, compreender a abrangência e a transversalidade do impacte da cultura na economia. Os políticos acabam por decidir de acordo com as tendências mediáticas. Na minha opinião, há decisões que devem ser tomadas independentemente das reações das pessoas (por vezes fomentadas por grupos de pressão e de interesses). O investimento na cultura deve ser uma prioridade nacional. Estratégica e de futuro.

Hélder Bruno e o espetáculo “A Presença, serena e terna”
Fotos: José Luís Santos

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