Ana Carolina Capitão. Do clarinete à direção.

Ana Carolina Capitão

Entrevistámos Ana Carolina Capitão com o intuito de darmos a conhecer aos nossos leitores o percurso desta jovem maestrina portuguesa. Do clarinete à direção e aos vários projetos que já abraçou e abraça, falámos de tudo um pouco. No entanto, o seu foco atualmente encontra-se no projeto da “Orquestra da Costa Atlântica, associação de música e cultura”. «Através da associação desenvolvemos vários projetos de âmbito nacional e internacional, nomeadamente a orquestra sinfónica “Atlantic Coast Orchestra”, o Festival e ainda a Academia de Direção (Atlantic Coast International Conducting Academy). Estou muito contente por estar envolvida neste projeto que me permite realizar um sonho que é o de trabalhar como maestrina, neste caso da Atlantic Coast Orchestra, e na colaboração com projetos musicais em Itália e na Polónia, que a seu momento serão divulgados».

Queremos agradecer-lhe a prontidão com que aceitou este nosso convite. Até aos nove anos de idade, altura em que iniciou a sua aprendizagem musical, já se vislumbrava o seu talento e a sua natural vocação para a música? Quem a incentivou a estudar música?
Antes de mais quero dar-vos os parabéns pelo trabalho que desenvolvem no XpressingMusic e agradecer o convite, com o qual me sinto muito honrada! Eu cresci no seio de uma família de músicos amadores e desde muito nova desenvolvi o gosto pela música no geral. O meu avô materno, tubista amador, insistiu para que eu aprendesse solfejo e clarinete e, com o apoio e incentivo dos meus pais, comecei a frequentar a escola de música da banda filarmónica.

Nesse início da sua formação, António Calheiros e Francisco Ribeiro foram nomes muito importantes para que fizesse as opções certas?
O professor António Calheiros foi o meu primeiro professor de clarinete e contribuiu, sem dúvida, para desenvolver o meu gosto por este instrumento. Tive, entretanto, outros professores que sempre me incentivaram a estudar clarinete como via profissional o que me levou até à ARTAVE e ao professor Francisco Ribeiro, que me acompanhou até terminar os meus estudos nesta escola. A ARTAVE é uma escola de excelência e tive aqui a oportunidade de estudar com ótimos professores que sempre me orientaram para que fizesse as opções certas.

Posteriormente estudou com José Ricardo Freitas e com Nuno Pinto. Há outros nomes que a tenham marcado, no estudo do clarinete, para além destes?
Foi um privilégio estudar clarinete com os professores José Ricardo Freitas e Nuno Pinto. Além de serem dois clarinetistas excecionais são excelentes pedagogos. Procurei sempre trabalhar com os melhores professores e músicos e nesse sentido tive a oportunidade de aprender com clarinetistas da craveira de Michel Arrignon, Alain Damiens ou Phillipe Cuper.

Já durante a sua formação foi tendo oportunidade de participar em várias orquestras. Quais as experiências que mais a marcaram neste contexto?
Tive a oportunidade de tocar em várias orquestras sinfónicas e orquestras de sopro e considero que todas as experiências contribuíram de alguma forma para o meu desenvolvimento pessoal e musical como clarinetista. Sempre me senti muito confortável a tocar em orquestra e adoro fazer parte das sinergias dos músicos para alcançar um objetivo comum - fazer boa música!

Ana Carolina CapitãoO facto de ter sido dirigida por maestros como António Baptista, António Soares, Roberto Pérez, Ernst Schelle, Manuel Ivo Cruz, António Saiote, Christophe Millet e Jan Cober contribuiu para que fosse crescendo dentro de si o gosto pela direção?
O gosto pela direção musical começou muito cedo e todos os maestros com os quais trabalhei foram, de alguma forma, importantes. Desde o dia em que vi e ouvi uma orquestra sinfónica pela primeira vez, com 10 anos de idade, que quis ser maestrina! Fiquei completamente fascinada com o maestro e com a influência que tinha sobre o som da orquestra. Foi a partir desse momento que ambicionei um dia dirigir uma orquestra sinfónica. A primeira obra que “dirigi”, com 14 anos, foi o Romeu e Julieta de Tchaikovsky. Colocava o cd da Berliner Philarmoniker e dirigia horas seguidas com o maestro Karajan... (Risos).

Pode partilhar com os nossos leitores os prémios que mais a marcaram? O que significaram em cada momento?
Como clarinetista, sempre vi os concursos como momentos de aprendizagem essencialmente pessoal. Participei em vários concursos ao longo dos anos. Sentia que evoluía musicalmente na preparação para cada concurso e isso, só por si, era o mais importante. Penso que o reconhecimento do trabalho que fazemos é sempre desejado e contribui para a motivação pessoal, mas considero que o mais relevante é o esforço e a superação das dificuldades e dos objetivos.

A partir de 2006 começou a abraçar a carreira docente. Há algo que a caracterize ou diferencie enquanto professora? O que não abdica de transmitir aos seus alunos?
Gosto muito de ensinar crianças e jovens que gostem de música e que queiram aprender a tocar clarinete. Neste sentido, julgo que é muito importante que os meus alunos desenvolvam cada vez mais o prazer de tocar um instrumento. Dar-lhes a conhecer diferentes obras, articuladas com o gosto musical de cada um, e aplicar diferentes estratégias é também fundamental na minha atividade docente. Considero fundamental que o professor conheça bem cada aluno, pois todos têm personalidade diferentes, gostos, interesses, problemas e preocupações. Nem todos querem ser clarinetistas profissionais e considero muito importante ter isso em consideração no acompanhamento dos seus estudos. Sou exigente com os meus alunos e quero que todos eles toquem bem clarinete, mas tenho que ter presente que cada aluno tem objetivos diferentes. Muito recentemente terminei a tese de Mestrado, “A aplicabilidade de estratégias e procedimentos do método de Jaques-Dalcroze no ensino do clarinete: um estudo de caso” (Universidade Católica Portuguesa do Porto, 2016) que consistia em aplicar o método de Jaques Dalcroze nas minhas aulas de clarinete. O método, muito resumidamente, pretende que as crianças aprendam música através de sensações e movimentos corporais. Ter desenvolvido este estudo e ter observado os resultados que os meus alunos alcançaram, reforçou a minha ideia que os professores não devem simplesmente dizer o que pretendem, mas sim envolver os alunos na aprendizagem e fazê-los compreender o que estão a tocar de formas variadas e criativas.
O que não deixo de transmitir aos meus alunos é que sem esforço e trabalho nada se consegue e que se nos propomos a aprender alguma coisa, devemos dar o melhor de nós e aplicarmo-nos sempre para retirarmos o máximo de cada aprendizagem.

Quando ministra uma masterclass, sente que tem que transmitir muito mais do que simplesmente técnica? O que faz, em sua opinião, com que possamos considerar um músico mais completo do que outro?
Interpretar uma obra é muito mais do que técnica, é preciso tocar com caráter, expressividade e emoção e, para isso, o músico tem de “perceber” o que está escrito na partitura. Penso que se juntarmos todos estes fatores teremos certamente uma interpretação mais rica e que contribuirá para tornar o músico mais completo. Sempre que dou uma masterclass procuro chamar a atenção dos músicos para a importância dos elementos musicais e extramusicais.

Até 2014 esteve muito ligada ao Centro de Formação Musical de Belinho. Pode falar-nos um pouco do trabalho que ali desenvolveu?
Em 2006 fui convidada para ser professora de clarinete no Centro de Formação Musical de Belinho que é a escola de música da Banda de música de Belinho. Três anos mais tarde surgiu o convite para assumir a direção musical da Banda de Belinho e foi assim que comecei a dirigir. Nunca pensei ser maestrina de uma banda filarmónica, mas esta oportunidade profissional foi ao encontro da enorme vontade que tinha de desenvolver os meus conhecimentos em direção musical. Em conjunto, direção, músicos e eu, desenvolvemos um trabalho intensivo ao longo de 5 anos que consistiu em organizar a escola de música e desenhar um projeto musical com metas e objetivos bem definidos, nos aspetos musicais e artísticos, que contribuíram para o desenvolvimento da qualidade da Banda de Música de Belinho. As mudanças nas práticas, procedimentos e aspetos musicais da banda foram amplamente reconhecidas. Foi uma experiência profissional e pessoal fantástica que terminou em 2014, de forma a puder dedicar-me posteriormente a desenvolver um novo projeto sinfónico inédito na região.

A Musicoterapia é outra área a desenvolver no seu currículo?
A minha curiosidade geral pela área da Saúde influenciou o meu interesse pela Musicoterapia. A música pode contribuir para o bem-estar das pessoas, mas também pode servir como terapia em muitas situações e contextos diferentes. Neste sentido, ter alguns conhecimentos nesta área, ainda que elementares, permite-me também ser melhor profissional nos vários e diferentes projetos que desenvolvo. Por exemplo, recentemente iniciei a codireção musical de um projeto, integrado no âmbito do “Programa de Envelhecimento Ativo” desenvolvido pelo Município de Esposende, o “Coro Sénior de Esposende”, cujo objetivo é precisamente contribuir para a socialização, o bem-estar emocional, físico e cognitivo da população – perto de 200 pessoas - envolvida. O projeto está a ser um enorme sucesso e a troca de experiências está a ser realmente maravilhosa! Ter alguns conhecimentos em Musicoterapia contribui para ser uma pessoa mais atenta e sensível às possibilidades da relação entre música e pessoas e procurar desenvolver práticas e projetos neste sentido.

António Saiote e Luís Clemente foram os seus mestres no âmbito da direção? O que absorveu de cada um deles?
O professor António Saiote foi muito importante no início da minha aprendizagem na área da direção e aprendi muito sobre técnica. Mais tarde fui estudar para o “Centro de Estudos de Direção de Orquestra de Sopros” (CEDOS) com o maestro Luis Clemente e foi nesta fase da minha vida que desenvolvi bastante os meus conhecimentos na área da orquestra de sopros. Embora já tenha finalizado os meus estudos no CEDOS, tenho o privilégio de continuar a estudar com o maestro Luis Clemente e tento absorver o máximo em cada aula. Considero o Luis um maestro muito completo, tem uma técnica muito clara, conhecimentos musicais muito abrangentes e técnicas de ensaio muito eficazes.

Ana Carolina Capitão

No entanto foi fazendo outros cursos com maestros de renome. Salienta alguns desses momentos e dessas experiências?
Aprendi e aprendo imenso com cada maestro que trabalho. No entanto, destaco o maestro espanhol Jose Rafael Pascual Vilaplana com quem tive a oportunidade de trabalhar já algumas vezes com orquestra de sopros, e o maestro inglês Colin Metters com quem tenho tido o prazer de trabalhar desde 2014 no âmbito da direção de orquestra sinfónica.

Também no âmbito da direção já foi premiada...
Participei no Concurso de Direção de Orquestra integrado no Estágio Nacional de Orquestra de Sopros – Portel, em 2012 e em 2013. Ganhei uma menção honrosa e o 1º prémio, respetivamente. Ter tido a oportunidade de dirigir para um júri tão conceituado, como foi o caso dos compositores Bert Appermont ou Philip Sparke, é por si só uma oportunidade fantástica. O facto de terem reconhecido e premiado o meu trabalho, o que é obviamente uma enorme satisfação, motiva-me a querer cada vez mais desenvolver os meus conhecimentos nesta área.

Depois de ter sido diretora artística do Estágio Nacional de Orquestra de Sopros em Esposende entre 2013 e 2014. Ocupa agora o cargo de maestrina assistente na Atlantic Coast Orchestra e é diretora artística do ACO International Music Festival. Fale-nos um pouco deste festival que já tivemos oportunidade de noticiar.
O “Atlantic Coast International Music Festival” surgiu como o desenvolvimento natural do Estágio Nacional de Orquestra de Sopros (ENOS). Quando organizei os ENOS verifiquei que havia muito interesse e solicitações de músicos estrangeiros em participar e pensei que internacionalizar este projeto seria o próximo passo. Em conjunto com o maestro Luis Clemente, que é o diretor musical do festival, considerámos que o âmbito de orquestra sinfónica tornaria este projeto ainda mais interessante e apelativo. Penso que foi uma decisão muito acertada e confirmámos isto pelo amplo reconhecimento que o festival teve logo na sua 1ª edição, em 2015, ao ser galardoado com um selo de qualidade artística, por parte da União Europeia, colocando o festival como uma referência artística e musical a nível europeu. O “Atlantic Coast International Music Festival” assume uma missão de serviço público estruturada em torno do desenvolvimento de uma série de atividades no âmbito da música erudita que promovem e articulam oportunidades de qualificação, desenvolvimento artístico, cultural e educativo. Pela sua qualidade, inovação, criatividade e pelas diferentes ofertas formativas, o Festival é único a nível nacional e traz ao país, em especial a Esposende, uma projeção internacional ao nível cultural francamente importante para o desenvolvimento da região. Os músicos que se inscrevam no festival em 2016 podem concorrer ao “Concurso de Jovem Solista da Costa Atlântica”, participar em masterlcasses com alguns dos melhores músicos portugueses, nomeadamente o violinista Nuno Soares, o violetista António Pereira e o violoncelista Filipe Quaresma, e ainda com o conceituadíssimo violinista e pedagogo Felix Andrievsky. Para além disso, ainda poderão integrar a “Orquestra Internacional de Jovens da Costa Atlântica”, sob a direção do maestro Luis Clemente, e partilhar as suas experiências musicais com músicos dos 5 continentes! Para os maestros, organizamos o “Concurso Internacional de Direção de Orquestra”, em que não só atribuímos prémios muito apelativos como também é uma excelente oportunidade para se mostrarem a importantes nomes da direção musical, como é o caso do maestro Luis Clemente, o maestro Colin Metters e dos maestros americanos Mark Stringer e Kenneth Kiesler. Trazer estes artistas a Portugal, mais especificamente à cidade de Esposende, é para mim um motivo de enorme orgulho e de valorização deste projeto.

Mais uma vez, muito obrigado por esta partilha. Para além do ACO International Music Festival, tem outros projetos que gostasse de concretizar em breve?
Neste momento estou totalmente focada no projeto da “Orquestra da Costa Atlântica, associação de música e cultura”. Através da associação desenvolvemos vários projetos de âmbito nacional e internacional, nomeadamente a orquestra sinfónica “Atlantic Coast Orchestra”, o Festival que falei anteriormente e ainda a Academia de Direção (Atlantic Coast International Conducting Academy). Estou muito contente por estar envolvida neste projeto que me permite realizar um sonho que é o de trabalhar como maestrina, neste caso da Atlantic Coast Orchestra, e na colaboração com projetos musicais em Itália e na Polónia, que a seu momento serão divulgados.
Mais uma vez muito obrigada pelo convite e muitas felicidades para o vosso trabalho.

www.atlanticoastorchestra.com

Ana Carolina Capitão. Do clarinete à direção.

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