Joaquim Lourenço. Música, teatro e poesia reunidos numa voz.

Joaquim Lourenço

Numa conversa em que não falámos somente do espetáculo «ARY O Poeta das Canções», percorremos toda a carreira de Joaquim Lourenço. O teatro, a poesia, a psicologia e a sociologia são áreas que se mesclam na forma como encara a música e o espetáculo que, segundo o mesmo não se deve resumir a um conjunto de canções que se interpretam de forma aleatória. «(...) um espetáculo tem de contar uma história. Tem de ter uma narrativa (como se diz agora). O espectador/ouvinte tem de ser conduzido como o leitor é conduzido pelo escritor. Ou o espectador de cinema é conduzido pelo realizador. Não quero para mim o conceito de espetáculo que ainda se pratica na música: Um somatório de canções alinhadas arbitrariamente que mais parecem um serão de amigos com uma viola no meio».

Joaquim Lourenço, muito obrigado por este tempo que nos está a dedicar. Se bem percebemos do que fomos lendo sobre si, o gosto e o interesse pelas palavras e pela música foram muito precoces. Quando começou a sonhar com uma carreira musical?
Tarde. Talvez no final dos meus 20anos. A música acompanhou-me a vida toda mas porque me dava muito prazer. Os amigos e algumas pessoas do meio convenceram-me que tinha jeito e era original a tocar e a cantar. Depois o palco parecia-me um lugar que sempre tinha habitado. Acho até que posso dizer que assim que o conheci (parafraseando o Palma) “chamei casa a esse lugar”. Estranhamente parece que sempre lá vivi. Parece tudo tão natural, sem esforço. Ali Sou eu, “sem aditivos” ou disfarces. Mas a decisão deu-se, de facto, na viragem dos 20 para os 30. Estava farto da vida académica e queria aventura.

Joaquim LourençoO teatro é outra paixão que o acompanhou desde cedo? Deixa que as suas performances sejam permeáveis a esta arte?
O Teatro é a arte para mim mais orgânica. É como respirar. Engraçado que entrei para a escola primária aos 5 anos e meses depois estava, por incumbência do professor, a recitar poemas para as turmas da escola. Um dramaturgo e professor de teatro reconhecido foi ver este espetáculo do Ary e no final disse-me: “se o Ary é o Poeta das Canções (como lhe chamas neste espetáculo) então tu és o ator das canções”. Acho que já não consigo cantar de outra forma. Se cantamos poemas, então o poema muitas vezes tem de ultrapassar a música.
Se as canções fossem só música então os cantores limitavam-se a dar notas como uma guitarra ou um saxofone. Se estamos a cantar palavras então temos de emocionar. A arte é emoção não é apenas uma ciência de notas e de relação entre notas. Não é uma matemática de notas.
Mas acredito que há gente que pense e o faça de outra maneira (e bem).

Com apetência e gosto pela música, o que o levou a optar por fazer a sua formação nas áreas da sociologia e psicologia?
Sou de uma geração cujos pais não puderam ter educação superior. Por isso para a minha geração tínhamos o dever de resgatar a educação dos nossos pais e dos nossos avós. E eu sempre gostei de Humanidades e de tentar perceber esse complexo “bicho homem”. Apaixonei-me realmente pelo desafio de deslindar a complexidade de ser humano. Talvez por isso na música e no teatro começo sempre pelos clássicos e volto sempre a eles. É ali que estão as certezas e as perplexidades da condição humana. E parece sempre que estamos a chegar e a ter de partir de novo. Essa viagem é que é linda! Já viu que troquei a ciência pela arte mas continuo à procura do mesmo! (risos)

Quais as suas principais influências musicais? Inspira-se em algum músico em particular?
O primeiro cantor que me fez saltar da cadeira foi o Sinatra. No dia a seguir à Sua morte comprei os discos todos dele e passei meses a ouvi-lo. Ainda por cima cantava nos mesmos tons dele. Acho que quis ser cantor por causa dele. Cantei os standards e ouvi muito o Bennett, o Nat King Cole e as cantoras de Jazz americanas.
Depois percebi que na língua que aprendi a falar e a pensar havia cantores do mesmo nível desses anglo-saxões. O Carlos do Carmo, o Fernando Tordo, o Paulo de Carvalho, o Carlos Mendes, a Simone de Oliveira, e outros tantos.

Joaquim Lourenço. Música, teatro, poesia.

Em 1999, criou um espetáculo que proporcionava uma viagem pela história da música pop. A concretização deste projeto obrigou-o a um processo de pesquisa muito intenso?
Era um espetáculo de Piano e Voz que estreei no dia 1 de abril de 2000. Eram os standards americanos - lá está, o Sinatra tinha morrido em maio de 1998 - as canções dos Beatles, o Cat Stevens, Simon&Art Garfunkel, Elton John, Sting,... a história da música pop que era também a história do século XX. Na 2ªparte do espetáculo cantava os nossos standards, os nossos clássicos: E Depois do adeus, Maria Vida Fria, Amélia dos Olhos Doces, Adeus Tristeza, Com um brilhozinho nos olhos, Deixa-me Rir, Porto Sentido, Perdidamente ...
Não sei porquê mas em Portugal temos um pudor medonho em pegar na nossa memória coletiva e praticar esses clássicos, essa herança... parece que só os clássicos ingleses e americanos é que são bons e prestigiantes...

Houve mais espetáculos temáticos que tenha abraçado que lhe dessem igual prazer?
Sim. Felizmente só faço o que me apaixona. Claro que já tive de integrar projetos que não partiram de mim mas acabei por ter liberdade criativa e isso é muito gratificante. Lembro-me de uma performance de dança contemporânea a que se acrescentou um texto dramático e representação minhas. Foi em 2009/2010, a partir da lenda de Inês de Castro feita de propósito para o Mosteiro de Santa Clara a Velha onde viveu a própria Inês de Castro. Eram 3 bailarinos, um ator e um músico. A coreógrafa foi a Helena Azevedo. Um dos próximos projetos que quero muito fazer é uma itinerância pelos mosteiros e castelos de Portugal. Quero insistir em juntar património material ao imaterial e tentar provar que temos todas as razões para amar o que é nosso!

Joaquim Lourenço. Música, teatro, poesia.

O espetáculo «Álbum de Recordações - As Grandes Canções da Música Portuguesa» contou com uma equipa de músicos constituída por Nanã Sousa Dias, Tomás Pimentel, Guto Lucena, João Cabrita, Edgar Caramelo, Luís Cunha, Pedro Teixeira da Silva e Cláudio Nunes. Tem tido sempre a sorte de trabalhar com respeitados músicos? Tenta manter sempre a mesma formação?
Sim. Sou um sortudo. O “Álbum de Recordações” nasce da constatação de que era possível fazer um espetáculo só com os clássicos portugueses, depois daquele espetáculo primeiro de piano e voz. O Pianista de Jazz João Guerra Madeira começou comigo a escrever arranjos inovadores para esses temas clássicos da música portuguesa juntando alguma música clássica, jazz, world music e algum do novo teatro musical. Como a responsabilidade era grande convidámos esses nomes todos para interpretarem os temas.
No Ary manteve-se o Nanã que é um portento criativo e toca saxofones como os arranjos pediam: sofisticadamente e com o melhor que a história do jazz tem. Mas temos querido arriscar outros géneros como as músicas do mundo o que nos obriga a procurar outros intérpretes.
É um trabalho extraordinário, criar, arriscar, experimentar, alargar limites e criar espaço para novas combinações. Acho que não quero outra coisa na vida.

Joaquim LourençoAtualmente encontra-se a fazer a digressão «ARY O Poeta das Canções». Pode falar-nos um pouco de todo o processo que deu origem a este espetáculo que tem corrido Portugal de Norte a Sul? Qual a equipa que sobe ao palco neste projeto?
Começa, por certo, a perceber que é sempre o trabalho presente que cria o trabalho seguinte.
Enquanto montava o “Álbum de Recordações” percebi que havia uma dezena de canções que tinham lugar na história da música ligeira nacional e cujo autor era repetido. Percebi que a sofisticação lírica dos textos combinada com as melodias e a complexidade harmónica mereciam que as juntasse num único espectáculo.
Assim fiz... E um espetáculo tem de contar uma história. Tem de ter uma narrativa (como se diz agora). O espectador/ouvinte tem de ser conduzido como o leitor é conduzido pelo escritor. Ou o espectador de cinema é conduzido pelo realizador. Não quero para mim o conceito de espetáculo que ainda se pratica na música: Um somatório de canções alinhadas arbitrariamente que mais parecem um serão de amigos com uma viola no meio. “Olha, agora canta lá esta. Agora apetece-me esta. Qual é que querem ouvir agora?”
É legítimo mas não é a minha praia. Um espetáculo tem de ter um alinhamento intencional. Nem que queiramos desconstruir o alinhamento mas isso tem de se perceber em última estância pelo espectador ou ouvinte. Também aqui sou um homem do Teatro, da tradição dramatúrgica, do enredo. Em Ary, O Poeta das Canções, os temas são alinhados cronologicamente (de 1969 aos meados doa anos 80) por razões, umas óbvias, outras que tentam surpreender o espectador. E digo espectador porque a dança, o multimédia e a dramaturgia escondida, para além da música, claro, tentam oferecer uma espécie de espetáculo total. O público que diga depois de sua justiça.
O espetáculo começa com a Desfolhada, que foi a primeira canção que o Poeta José Carlos Ary dos Santos escreveu para a música ligeira (1969), segue com a Canção de Madrugar (1970), o Cavalo à Solta (1971) e por ai fora...não explico mais o que acontece pelo meio senão estrago a surpresa.
Este espetáculo nasceu nos finais de 2008 e foi estreado para a Antena 1 em janeiro de 2009, exatamente nos 25 anos da morte do Poeta. E ainda não parou. Na altura não consegui ter dinheiro para gravar o disco que é como normalmente se faz mas fui, sem mediação, ter com o público e olhe ainda cá estamos. Esgotamos salas sem campanhas de marketing ou holofotes mediáticos. E tudo se deve a um génio chamado José Carlos Ary dos Santos. Há mais de 40 anos atrás (quando começou a escrever a sua Obra) Portugal era um País com 40% de analfabetos e, no entanto, gente que nunca tinha aberto um livro, muito menos um livro de Poesia andava a cantarolar versos como: “Corpo de linho, lábios de mosto / meu corpo lindo, meu fogo posto/ eira de milho, luar de Agosto/ quem faz um filho, fá-lo por gosto...
Isto para mim é um milagre. E digo-lhe mais, quase 50 anos depois até gente mais nova cantam estes refrões. A Digressão tem crescido a cada ano e chegou finalmente a hora de editarmos o Disco.
São 15 canções (um long play) gravadas em 2 dias num Teatro onde no palco estiveram 11 músicos e um coro polifónico com outros tantos elementos.
Sai dia 30 de setembro e continuaremos em Digressão para o apresentar. Quero muito que as novas gerações conheçam um génio, seu compatriota, e as mais velhas tenham orgulho no que já viveram.
Está na altura de começarmos a gostar do que é nosso. Nem tudo o que vem de fora é melhor do que cá fazemos. Está na altura de termos uma ponta de auto-estima coletiva. E apenas porque temos razões para isso.

Muito obrigado pelo tempo dedicado aos nossos leitores. Para terminarmos, gostaríamos que nos falasse um pouco do trabalho que tem vindo a desenvolver na produção de espetáculos internacionais e na direção artística do Cine-Teatro Avenida em Coimbra. É muito difícil conjugar todas estas atividades com os seus espetáculos?
Infelizmente os donos do antigo Teatro Avenida venderam o espaço para uma discoteca (estrito senso). Aquele espaço (resgatado à penhora) e depois de convertido em 2010 ficou com condições para acolher teatro, dança, novo circo, música, cinema, performance, exposições e espaço de diversão noturna. Ainda hoje algumas das forças vivas da Cidade lamentam o sucedido. Era uma valência revolucionária na Cidade, na Região e no País e os agentes artísticos e culturais nacionais entusiasmaram-se tanto que em outubro tinha um ano de programação já fechado (artistas internacionais incluídos). Era um projecto 100% privado mas ecléctico e até prestador de serviço público.
Quanto à produção de Artistas internacionais tive de parar. O Ary é, nesta altura, completamente absorvente. Temos o disco gravado e vamos finalmente edita-lo. A seguir quero fazer mais Salas do que já fiz até agora em 6 anos de Digressão. (sorriu)
Muito obrigado pela entrevista Bruno Amaral. Eu acabo sempre por falar demais... (risos).

Joaquim Lourenço. Música, teatro e poesia reunidos numa voz.

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