Joana Machado. O Jazz e a Vida.

Joana Machado

Joana Machado fala-nos das suas aprendizagens e da sua carreira enquanto performer, professora e investigadora. Para além de todo o trabalho que tem vindo a fazer em nome próprio, Joana já esteve em palco ao lado de nomes como Abe Rábade, Bernardo Sassetti, Chris Strik, Edu Lobo, Gary Bartz, Jamey Haddad, Jane Ira Bloom, Jesus Santandreu, Paulo Braga, Perico Sambeat, Reggie Workmann, Rembrandt Frerichs, Sara Serpa, Toon Roos, entre muitos outros. Sobre o palco, disse-nos: «O palco é A escola. Sem palco o músico não pode confrontar-se com os seus medos, as suas vergonhas e não tem oportunidade de tornar-se também um performer. Porque as sensações que se experimentam ao vivo são reservadas para esses momentos de entrega total. No palco lida-se com o som, bom e mau, com o imprevisto. Esta é a qualidade de que eu não abdico. Não abdico do imprevisto, sou contra os espetáculos inteiramente encenados, decididos ao pormenor».

A sua formação musical foi iniciada num contexto mais erudito. Pensa que ter iniciado a sua formação num conservatório aos seis anos de idade foi a melhor opção?
Era a única opção para se poder aprender música na Madeira dos anos 80. Na verdade, a iniciação musical não é especialmente dirigida para a música erudita. Só mais tarde quando decidi aprender piano abordei o repertório clássico.

Mais tarde chegou ao Hot Clube de Portugal. Sentiu que finalmente tinha chegado a “casa”?
Coincidiu com um período complicado da minha vida. Tinha-me mudado para Lisboa, sozinha, com 17 anos. Gostei muito, senti-me peixe dentro de água e senti sobretudo que podia dar azo à minha criatividade, apesar das “regras” que esta música tem.

Tem formação em Design Industrial pela Universidade Lusíada. Rentabiliza na sua carreira musical as aprendizagens obtidas nesse contexto?
Todo o conhecimento serve para alguma coisa! Sou uma esteta e muito se deve aos 5 anos em Design (em contacto com disciplinas como a fenomenologia, a semiótica ou a própria história de arte) ao colecionismo de revistas (como a Wired, a Wallpaper, a Domus, entre outras) e ao facto de ser fascinada por cores, formas, materiais. Não dissocio nada disso da música.

Mudar-se para Nova Iorque para frequentar o programa de Jazz e Música Contemporânea da New School University foi um passo muito ponderado? Portugal não lhe oferecia esse tipo de formação?
Ainda não havia Licenciaturas em Jazz em Portugal quando me candidatei (em meados de 2001). Eu estava a concluir a Licenciatura em Design – que, sabia, seria arrumada numa gaveta, já ganhava dinheiro como cantora de Jazz e queria aprender mais. A New School tinha estabelecido um protocolo com o Hot, que me permitiria transferir créditos e reduzir de 4 para 2 anos o tempo de frequência do curso. Candidatei-me e fiquei “Out of Proficiency”, o que queria dizer que não teria de frequentar as disciplinas obrigatórias e que poderia escolher a dedo as cadeiras. Foi uma época fulcral e decisiva para a minha carreira e uma experiência insubstituível, a de poder aprender com algumas das pessoas que fizeram a História do Jazz. Abdiquei de várias coisas na minha vida e foi a decisão certa.

Paralelamente à sua carreira performativa foi sempre solidificando o seu percurso académico tendo concretizado o Mestrado em Música pela ESMAE e frequentando atualmente o Doutoramento na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Sente que a sua prática se robustece com as vivências advindas da sua constante busca de conhecimento? O conhecimento científico traz-lhe respostas que não encontraria somente na sua praxis?
Os “calhamaços” que me proponho redigir são baseados em necessidades que identifico em mim - tenho sido sempre o meu próprio case-study - e para as quais procuro respostas. Antes refleti sobre o facto da construção do conhecimentos musical no cantor ser um processo maioritariamente intelectual - “a viagem interior” - e agora tenho um novo desafio que me vai dar muito trabalho. É fascinante investigar, ler, tentar seguir os raciocínios alheios e definir linhas de pensamento, depois ler mais e mais e refletir para tentar responder às perguntas iniciais. Não contribui diretamente para a música. Curiosamente, a minha música tem-se afastado substancialmente do caminho erudito.

Joana Machado, Jazz

Ao longo da sua carreira estudou com grandes nomes tais como Buster Williams, Connie De Jongh, Doug Weiss, Joanne Brackeen, Jeannie Lovetri, Lúcia Lemos, Luciana Souza, Reggie Workman, Sheila Jordan, Steve Coleman, Theo Bleckmann e Vic Juris. Sente cada uma dessas influências na música que produz e no caminho que percorre?
Umas mais do que outras. A Luciana Souza foi quem mais me ensinou a ser músico, a Lúcia Lemos deu-me as ferramentas para que eu pudesse construir um instrumento sólido e flexível (parecem antónimos mas não são), o Steve Coleman ensinou-me muito sobre improvisação...

Há outros nomes que a tenham marcado e que não tenhamos mencionado?
Meredith Monk. Com a Companhia dela passei por um processo muito libertador de experimentar a música (e a improvisação – esse bicho tão racional) no corpo “A Dancing Voice in a Singing Body”.

Em palco já esteve ao lado de artistas como Abe Rábade, Bernardo Sassetti, Chris Strik, Edu Lobo, Gary Bartz, Jamey Haddad, Jane Ira Bloom, Jesus Santandreu, Paulo Braga, Perico Sambeat, Reggie Workmann, Rembrandt Frerichs, Sara Serpa, Toon Roos, entre muitos outros. O palco também é uma escola? Trabalhar ao lado de grandes nomes da música também se constitui como uma importante plataforma de aprendizagem?
O palco é A escola. Sem palco o músico não pode confrontar-se com os seus medos, as suas vergonhas e não tem oportunidade de tornar-se também um performer. Porque as sensações que se experimentam ao vivo são reservadas para esses momentos de entrega total. No palco lida-se com o som, bom e mau, com o imprevisto. Esta é a qualidade de que eu não abdico. Não abdico do imprevisto, sou contra os espetáculos inteiramente encenados, decididos ao pormenor.

Já colaborou com prestigiadas Orquestras de Jazz. Pode destacar algumas das suas experiências mais relevantes neste âmbito?
Uma das experiências mais marcantes por que passei foi a de realizar uma tournée com a EJYO (European Jazz Youth Orchestra), em que fui a vocalista escolhida no ano de 2004. 2 semanas de ensaios na Dinamarca, com 30 músicos provenientes de vários pontos do planeta e um mês de tour pela Europa e Brasil, onde convivemos e tocámos com o Hermeto Pascoal (de quem estreámos uma peça).

Quais os projetos musicais que abraça atualmente?
Para além do meu como líder, faço parte do Septeto Oficial do Hot Clube, onde canto linhas instrumentais a fazer naipe com os sopros e sou instrumento. Colaborei também num álbum que sairá em breve (risos).

Para além das suas participações em discos de terceiros, já gravou quatro álbuns em nome próprio. “Crude”, “A Casa do Óscar”, “Travessia dos poetas – Rosapeixe” e “Blame it on my Youth” são obras muito distintas entre si? O que caracteriza cada uma delas?
Uff, é difícil responder a isso. Em CRUDE consolidei a minha aprendizagem do Jazz, tendo em mente a voz-instrumento. Em A Casa do Óscar eu quis prestar homenagem ao Legado menos conhecido de Jobim. Na Travessia eu juntei-me ao Abe para escrevermos música para poemas portugueses que me apaixonaram (de Herberto, Sophia, Belo, Júdice, Caeiro) e finalmente assumi a minha veia compositora e arranjadora em Blame it on my Youth, onde voltei a abraçar as minhas influências musicais primordiais. Agora escrevi um disco inteiro, que vou lançar ainda este ano.

“Baby Let's Get Close” é o seu novo single. Como tem sido recebido este trabalho?
Penso que bem, espero que bem.

Outra vertente da sua vida passa pelo ensino. A carreira docente é uma necessidade para um músico de jazz em Portugal ou, pelo contrário, é uma missão inerente à perpetuação do género através dos tempos?
Isso da missão é muito bonito mas a minha causa não é tão nobre assim, apesar de obviamente me dar muito prazer acompanhar jovens músicos na sua aprendizagem. É mandatório, isso ou aceitar todo o tipo de gigs e eu preferi este caminho.

Trabalha em mais do que uma escola? É difícil conciliar a vida académica com a carreira performativa?
Muito difícil, toma muito tempo e disponibilidade. Trabalho na Universidade Lusíada e na Escola do Hot.

Muito obrigado pelo tempo que dedicou aos nossos leitores. Onde poderão eles ouvir a Joana Machado em breve?
Nas últimas quartas-feiras de cada mês estou com o Septeto do Hot Clube no palco do mesmo (agora já dia 30/03, 27/04, e por aí fora). Com a minha banda vou participar nas comemorações do dia Internacional do Jazz (30 de abril) também no clube e dias 1 e 2 de julho estarei, respetivamente, nos Festivais de Jazz de Mafra e de Odemira.

Joana Machado. O Jazz e a Vida.

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