António Vassalo Lourenço. Uma conversa com o maestro da Filarmonia das Beiras.

António Vassalo LourençoConvidámos o Maestro António Vassalo Lourenço para a conversa que aqui partilhamos com os nossos leitores. Passámos em revista a sua carreira enquanto maestro e docente dando o natural destaque ao trabalho que tem vindo a desenvolver na Orquestra Filarmonia das Beiras. «Uma Orquestra Regional tem que ter muitos objetivos. Genericamente a nossa missão primeira deveria ser: levar a música sinfónica do tipo orquestral às populações que estão mais afastadas dos grandes centros e que têm menos acesso a este tipo de música. Isto está nos nossos estatutos, está nos objetivos do despacho normativo que criou as orquestras regionais. É um objetivo transversal e compreensível. Mas a verdade é que no terreno nem sempre temos público para isso. Portanto, o processo de implantação da Filarmonia das Beiras, como o das outras orquestras não foi fácil. Temos que perceber que, conforme os territórios, as realidades sociais e culturais são diferentes».

Muito obrigado por nos ter possibilitado esta entrevista. Vamos começar por falar no trabalho que tem vindo a desenvolver na Orquestra Filarmonia das Beiras. Podemos dizer que o trabalho que aqui tem vindo a desenvolver se constitui como um dos seus maiores desafios enquanto maestro?
Sim, se falarmos do projeto em si, podemos dizer que é um dos maiores desafios, senão o maior, da minha atividade profissional. No entanto antes tive outros projetos e pelo meio outros surgiram, mas este, pela importância que tem, pela dimensão que ganhou, pelas dificuldades que tivemos que ultrapassar em muitos momentos da sua existência, pode dizer-se que é um dos maiores desafios da minha atividade profissional.

António Vassalo Lourenço

Qual é a principal marca pessoal que gostaria de deixar nesta orquestra?
Para mim, as coisas do âmbito pessoal não são importantes. Para mim, as coisas importantes são as organizações, as pessoas que as compõem, o seu todo e não os seus indivíduos numa perspetiva individual. É claro que eu tenho uma forma de estar, uma forma de pensar e, com certeza, é essa que eu aplico nos projetos em que me insiro. Não pretendo que esta seja uma marca que fique... Há questões relativas ao funcionamento, à relação entre as pessoas, à forma de estar enquanto grupo em que eu acho que, de alguma maneira, a Orquestra Filarmonia das Beiras se diferencia das outras. Se quisermos dizer que esta é uma forma de deixar a minha marca, prefiro que isso seja interpretado como uma marca nossa, ou seja, da Orquestra. É claro que eu, enquanto líder tenho a responsabilidade de lançar as ideias, de definir os processos, mas se as pessoas não os assimilassem, ou não os compreendessem de pouco valeria. Portanto considero que de facto esta orquestra tem coisas que a distinguem das outras e eu tenho uma parte dessa responsabilidade mas não pretendo dizer que isso é uma marca minha.

António Vassalo LourençoA aposta na divulgação de compositores portugueses é encarada pelo Maestro António Vassalo Lourenço como uma missão?
É uma das missões. Na minha perspetiva, a Orquestra Filarmonia das Beiras, como todas as orquestras regionais, tem a missão da criação de públicos. Esta passa pela captação, formação e estabilização de públicos. É claro que quando se fala de um grupo artístico, o primeiro objetivo deveria passar pela música e a pela excelência musical. Isso é evidente pois nenhum grupo musical se deve constituir se não tiver esses objetivos em vista. Mas nós temos realidades geográficas, sociais, características regionais próprias que temos que perceber, pois se não as entendermos arriscamo-nos a procurar que a orquestra seja uma coisa que pode até eventualmente ser, mas que posteriormente não encontra público, logo não responde à principal razão da existência de um grupo artístico. A principal razão da existência de um grupo artístico é ter um público. Aliás, um dos problemas que temos no nosso país, não sendo um problema específico da Região das Beiras, prende-se com o nível de educação e cultural das pessoas. Nós somos dos países com a percentagem mais baixa de pessoas que assistem a eventos culturais. Não estou a falar só do caso da música. Hoje temos uma enorme variedade de espetáculos ligados às expressões artísticas. Falo, por exemplo do teatro. Há inúmeros espaços que foram construídos e outros reconstruídos por esse país fora que possuem uma programação cultural. Há também cada vez mais músicos, grupos e projetos interessantíssimos e a verdade é que nos continuamos a deparar com a falta de público. Isto tudo para dizer que a primeira missão de uma Orquestra Regional tem que passar pela criação de público. Isto implica aqueles três pontos que há pouco referi e que são a captação, formação e estabilização de públicos. É claro que a par disto tudo tem que estar a excelência artística senão deixaria de fazer sentido existirmos enquanto grupo artístico. Voltando mais especificamente à questão de encarar como uma missão a divulgação de compositores portugueses, podemos dizer que para além da missão de criar públicos a Orquestra tem outras missões e outros objetivos importantes, entre os quais se encontra também esse. Para além de divulgarmos compositores portugueses temos também como objetivo a divulgação de artistas portugueses, nomeadamente, e em particular, jovens artistas portugueses. Falo de músicos em ascensão e em início de carreira. Ao longo dos nossos 19 anos de existência já passaram a tocar pela orquestra como solistas, como instrumentistas e cantores, como maestros, músicos que hoje são profissionais mas que na altura eram jovens promissores ou músicos em ascensão. Nós também temos essa missão e obviamente a de utilizar a música portuguesa. Quando eu, respondendo a esta pergunta coloquei em primeiro lugar a questão da criação de públicos é porque, para mim, na ordem natural das coisas, primeiro temos que ter público. Não vale a pena promovermos a música portuguesa se não tivermos público para ela. Temos portanto que captar público, educar esse público e dentro dessa formação e dessa educação incluímos também como é óbvio a música de compositores portugueses.

António Vassalo LourençoÉ nesse sentido que têm empreendido alguns projetos ligados a áreas mais próximas da música ligeira? Com essas abordagens tenta-se atingir uma maior aproximação com aquele público que de outra forma nunca iria ouvir uma orquestra?
Sim, essencialmente. Eu insisto bastante nesta “tecla”... Uma Orquestra Regional tem que ter muitos objetivos. Genericamente a nossa missão primeira deveria ser: levar a música sinfónica do tipo orquestral às populações que estão mais afastadas dos grandes centros e que têm menos acesso a este tipo de música. Isto está nos nossos estatutos, está nos objetivos do despacho normativo que criou as orquestras regionais. É um objetivo transversal e compreensível. Mas a verdade é que no terreno nem sempre temos público para isso. Portanto, o processo de implantação da Filarmonia das Beiras, como o das outras orquestras não foi fácil. Temos que perceber que, conforme os territórios, as realidades sociais e culturais são diferentes. Nós estamos implantados num território muito grande. A Região das Beiras é um território imenso e, se calhar, somos das orquestras regionais com menos apoios autárquicos. Isto quer dizer que ainda há um afastamento muito grande dos municípios e dos seus responsáveis para este tipo de cultura e para este tipo de música. Dentro deste objetivo genérico de levar a música a estas populações, o nosso primeiro trabalho tem que ser captar essas mesmas populações, esse mesmo público e depois educá-lo de forma gradual para que se mantenha fiel e continue através das gerações seguintes. A nossa abertura a outros géneros musicais vem precisamente na linha da necessidade que sentimos de ter que diversificar os públicos. Também o fazemos porque nos dá imenso prazer fazê-lo. Podemos dizer que já tocámos com alguns dos principais nomes da música portuguesa noutros campos. No jazz, Maria João, Mário Laginha, Bernardo Sassetti são os principais nomes de referência mas não foram os únicos. No âmbito da música rock, os concertos com o Rui Veloso são emblemáticos. No fado poderemos referir a Mariza, a Carminho, o Camané... Na música brasileira tocámos como Gilberto Gil, o Ivan Lins... Na música pop poderei ainda referir o Paulo de Carvalho. Na música de caráter mais tradicional tocámos com o Vitorino, por exemplo. Estou somente a lembrar-me dos nomes mais recentes pois há mais tempo a Orquestra tocou com os Xutos & Pontapés. Por um lado, estes projetos dão-nos prazer e nós consideramos que há espaço para a junção destes projetos com uma orquestra clássica. As experiências também têm sido muito positivas do ponto de vista artístico. As experiências que tivemos com estes grupos foram sempre muito enriquecedoras. Lembro-me agora de um caso bem recente que foi o do concerto com os Jafumega e do qual irá sair brevemente o DVD. As experiências que acabo de referir foram muito interessantes do ponto de vista artístico mas também tenho a perfeita consciência de que foram fundamentais para podermos alargar o nosso público. Com estas experiências acabámos por chegar a muito mais público e hoje a orquestra é muito mais conhecida do que era há 10 anos, ou há 20 quando começou. A orquestra tem vindo a ser mais conhecida e até mais acarinhada pelo público da nossa região. Hoje temos a perfeita noção de que temos pessoas a assistir aos nossos concertos de música “considerada clássica” e que essas pessoas nos conheceram através desses outros concertos ligados aos diferentes géneros. Recentemente atuámos também com o André Sardet...

António Vassalo Lourenço

E gravaram há pouco tempo com os Danças Ocultas...
Sim. Esse é outro projeto do qual iria já falar. O disco saiu agora e o projeto chama-se “Amplitude”. É um projeto mais difícil de classificar do ponto de vista musical... poderemos dizer que se insere no âmbito das designadas “músicas do mundo”. Este é um projeto que do ponto de vista artístico é riquíssimo. Deu-nos imenso prazer fazê-lo, aliás, ainda continuamos a fazê-lo pois já temos mais concertos agendados. O grupo tem muita qualidade assim como a música que produzem. Este tipo de ligações das orquestras a projetos de outros géneros não é propriamente uma novidade. Hoje vemos a própria Gulbenkian a abrir-se a outros tipos de música, a outros tipos de artistas e a outros tipos de públicos. Isto é hoje uma necessidade de todas as orquestras. As grandes orquestras mundiais, paralelamente à sua atividade artística, têm projetos educativos para crianças e para novos públicos. Quem conhece o nosso trabalho sabe que uma grande parte do nosso trabalho também se dedica às crianças com a produção de óperas infantis, com o programa “música na escola”, etc. Também contribuímos para a formação de jovens músicos através dos estágios em que participamos e que organizamos. Todos os anos organizamos o Curso Internacional de Arte Orquestral e o Curso Internacional de Música Vocal. Assim, quase metade da nossa atividade é virada para a parte formativa dividindo-se entre a formação de públicos e a formação de novos músicos.

António Vassalo LourençoPara além da Filarmonia das Beiras, tem abraçado outros projetos. A atividade exercida na Filarmonia das Beiras é a que lhe ocupa uma maior parcela do seu tempo?
Não. Eu sou professor na Universidade de Aveiro onde nos últimos quatro anos fui diretor do Departamento de Comunicação e Arte e isso ocupou praticamente 90% do meu tempo (risos). Mas hoje posso dizer que a minha vida se divide, quase em partes iguais, entre a minha atividade docente enquanto professor na Universidade de Aveiro e a minha atividade enquanto diretor artístico e maestro da Orquestra Filarmonia das Beiras. Houve, no entanto, um período de 4 anos em que eu, por razões de gestão, dei mais tempo à Universidade e ao Departamento do que à Orquestra. Durante esse período dirigi menos concertos, fiz menos música porque estava mais ocupado com outras coisas. Esse ciclo fechou-se e felizmente voltei à minha atividade normal de concertos paralelamente à atividade como docente e também como investigador porque há uma parte da minha atividade como docente na universidade que passa pela investigação. Muitas vezes estes dois projetos se ligam. A Universidade de Aveiro é um parceiro indispensável da Orquestra Filarmonia das Beiras e a Filarmonia das Beiras é também um parceiro importantíssimo para os cursos de música da Universidade de Aveiro. Há protocolos assinados por ambas as instituições para colaborações mútuas, logo todas as atividades ligadas à formação de jovens músicos estão ligadas ao curso de música da universidade. Alguns dos concertos que fazemos são para a Universidade de Aveiro e incluem o trabalho com os alunos do curso de música, seja para acompanhar a classe de coro, seja nos estágios da orquestra sinfónica, em que juntamos os músicos da Filarmonia com os alunos da Universidade, seja no apoio à lecionação de alguns instrumentos e na direção das próprias classes de conjunto. Como os dois projetos, de certa maneira, são complementares dá-se o caso de estar às vezes a trabalhar num projeto e acabar por estar a trabalhar nas duas instituições ao mesmo tempo. Assim, o meu trabalho é dividido essencialmente entre estas duas instituições.

António Vassalo LourençoAproveitando o facto de estarmos a falar em formação, verificamos que o Maestro acabou por fazer a maior parte do seu percurso académico na área da direção fora de Portugal. Isto aconteceu por força de algumas circunstâncias específicas? Procurou ir buscar algo a professores muito específicos e a uma cultura igualmente muito específica, visto ter ido para os Estados Unidos?
Foi um pouco das duas coisas que refere. De facto, na altura, não havia em Portugal formação específica na área de coro que foi o que comecei a estudar aos 22 anos. Eu já dirigia um coro e senti necessidade de ir buscar essa formação. Num período de, mais ou menos, 6 anos frequentei diversos cursos de direção coral no estrangeiro e trabalhei de uma forma regular em Portugal com o maestro, professor e pedagogo português que tinha estudado e trabalhado na Holanda durante muitos anos e, quando regressou a Portugal, quase que diria que ele iniciou uma escola de direção. Isto porque muitos dos atuais maestros de coro, e alguns até de orquestra, que estão em atividade em Portugal, com maior incidência a Sul começaram a estudar com ele por volta de 1984. Falo do Edgar Saramago. Ele era um maestro e pedagogo português que viveu na Holanda durante muitos anos e depois, regressado a Portugal colocou os seus conhecimentos à disposição de quem na altura desejou trabalhar com ele. Há toda uma geração de atuais maestros que contactaram diretamente com ele ou que já foram alunos de alunos dele. É o caso dos meus alunos mas não só. Durante esse período, para além do trabalho mais ou menos regular que fazia ao longo do ano com este professor, sempre que havia a possibilidade de ir fazer um curso no estrangeiro na Páscoa ou no Verão, eu aproveitava e ia em conjunto com outros colegas meus que hoje em dia também são maestros. Isto porque não havia de facto em Portugal um curso para que se estudasse direção de uma forma regular, logo tínhamos que procurar essa formação fora. Além de estar em contacto com outros países e, consequentemente, com outras culturas musicais, foi extremamente enriquecedor. Fiz diversos cursos em Espanha, França, Bélgica, ainda dentro da área da direção coral. No final dos anos 80 comecei a interessar-me pela direção de orquestra e o problema foi mais ou menos o mesmo, ou seja, não havia com quem estudar em Portugal. Portanto, eu e o meu colega Vasco Pearce de Azevedo começámos, numa primeira fase, a fazer os cursos em Espanha e depois em França até que nos apercebemos que precisávamos de fazer um trabalho continuado, que não fosse apenas uma semana, duas ou três vezes ao longo de um ano. Precisávamos de um trabalho mais regular. Tínhamos então que investir e ir estudar de forma regular para outro sítio. Assim, os Estados Unidos foram a nossa aposta. Aí as condições que nos eram dadas, não seriam fáceis de encontrar na Europa nessa altura.
António Vassalo LourençoNa Europa, eu e outros colegas meus, podíamos ir ter com um maestro mais conceituado e pedir para estudar com ele mas isto era muito à base de assistir aos ensaios, pedir conselhos, ou seja, não era como nos Estados Unidos onde tínhamos universidades com orquestras só para os estudantes onde podíamos dirigir quase todas as semanas, o que era fundamental para a prática de que precisamos para enfrentar esta atividade. Devo dizer que nessa altura começou na Metropolitana, na escola de música, na academia, o primeiro curso de direção de forma regular com o Jean-Marc Burfin. No primeiro ano em que o curso abriu eu ainda frequentei essa licenciatura em direção e só não concluí porque eu já tinha entrado na Universidade nos Estados Unidos e decidido que ia para lá. Portanto podemos dizer que quando fui para os Estados Unidos fazer direção de orquestra já havia em Portugal um curso dirigido por um excelente professor que era o Jean-Marc Burfin e que ainda contava com os cursos intensivos de verão com o Jean-Sebastian Béreau. Eu ainda aproveitava esses cursos quando vinha no verão. Mas, a minha decisão estava tomada pois tínhamos de ter em conta que, apesar de tudo, o curso cá em Portugal ainda estava a dar os primeiros passos e a escola que eu frequentava nos Estados Unidos tinha uma experiência de décadas. Naturalmente iria contactar com outros professores e grandes nomes da direção, para além de ter outros colegas e de estar inserido noutro meio. É óbvio que os 4 anos em que estive nos Estados Unidos foram fundamentais para a minha atividade a vários níveis. Não falo só da formação sólida, ou seja, da base que tive oportunidade de obter lá a vários níveis, como também tive a oportunidade de frequentar um grau académico porque nos Estados Unidos era assim. Isso acabou por mudar a minha vida também porque inicialmente a minha ideia era somente estudar direção. A minha intenção não era fazer um mestrado ou um doutoramento. Estudar direção lá implicava frequentar um mestrado e foi isso que eu fiz. A verdade é que no fim do mestrado eu percebi que fazia sentido continuar, pois tinha mais coisas para aprender e valia a pena continuar por mais algum tempo, portanto lógico seria fazer um doutoramento e assim foi e isso também acabou por condicionar a outra atividade que tenho que é a de professor na Universidade de Aveiro. Hoje não tenho dúvidas de que fiz a escolha certa porque de facto estou a fazer aquilo que gosto de fazer. Gosto imenso de ensinar, de estar em contacto com os alunos, seja enquanto professor da classe de coro, da classe de orquestra, seja como professor de direção, mas também gosto de estar no terreno com uma orquestra profissional e fazer um trabalho diferente. É óbvio que isto implicou fazer opções como por exemplo a de não investir numa carreira internacional, embora isso também nunca tenha sido o meu objetivo. É óbvio que quando as coisas surgiram eu não disse que não. Eu aceitei mas não as procurei. Mesmo em projetos nacionais como maestro convidado, visto que já dirigi praticamente todas as orquestras, quando os convites surgiram, naturalmente não os rejeitei, mas estes não aconteceram porque eu os tivesse procurado. Sempre tive muito claro que a minha atividade profissional se iria centrar aqui. Houve um período em que surgiu uma terceira frente em que estive durante dois anos a trabalhar no Teatro Nacional de São Carlos também com algumas responsabilidades de coordenação artística. Foi um período muito importante para mim para trabalhar a um outro nível mas chegou a altura em que tive que decidir e a minha aposta acabou por ser ficar aqui por Aveiro. Depois também há opções familiares. Tenho uma família grande, uma coisa de que me orgulho muito.

António Vassalo Lourenço

O maestro já frequentou cursos e masterclasses de direção, um pouco por todo o mundo. Isto revela uma insaciável procura de escolas e metodologias que o tornem um maestro mais polivalente ou, por outro lado, mostra que pretende criar uma linguagem muito própria bebendo em várias fontes?
Acabam por se encontrar as duas coisas. Aquilo que hoje ensino aos meus alunos resulta daquilo que colhi nas diversas escolas. Em todos os sítios por onde passei aprendi coisas com todos os professores, mesmo com aqueles de quem gostei menos. Havia sempre qualquer coisa que eu poderia retirar dali. Às vezes também aprendi a dizer: “Olhe, disto não gosto!”, ou “Assim não vou fazer.” Nós aprendemos sempre em qualquer circunstância. De facto tive oportunidade de trabalhar com vários professores. Tenho a noção daqueles que efetivamente me ensinaram a base. Hoje em dia tenho a certeza de que essa base está certa. Mas, depois também tenho os outros que me ensinaram outras coisas e que me abriram outras perspetivas, de tal maneira que aquilo que eu hoje ensino aos meus alunos não é uma “escola” que só aprendi com um determinado professor mas é o conjunto de abordagens, sejam do ponto de vista técnico, do ponto de vista interpretativo, sejam do ponto de vista pedagógico... Sim, porque o facto de se estar à frente na direção de um grupo também tem uma componente pedagógica extremamente importante. Logo, o que eu ensino resulta desse conjunto de vivências das quais pude desfrutar ao longo dos anos. Quando procurava as formações ia à descoberta do que havia e mais tarde fui-me apercebendo de que cada escola e cada professor têm o seu caminho. Não há uma intensão consciente de criar uma linguagem só minha mas, na prática é isso que acontece.

António Vassalo LourençoE de todos estes percursos houve nomes que ficaram mais marcados do que outros? Tem algum maestro preferido?
Há sempre. Independentemente dos meus professores, ou seja aqueles que me deram a minha formação, há maestros com quem eu aprendi muito como coralista durante 12 anos no Coro Gulbenkian. Foi uma escola fundamental para a direção de coro, mas também para a direção de orquestra porque tive a oportunidade de ser dirigido por grandes maestros. Mas, como professores de direção, correndo o risco de me esquecer de algum porque isto já começou há trinta e tal anos, não poderei deixar de nomear o Edgar Saramago, o Erwin List, o Laszlo Héltay... Ao nível da direção de orquestra, o meu primeiro professor foi o Octave Calleya que era maestro da Orquestra de Málaga, depois trabalhei com outros como o Ernst Schelle que ainda hoje vem aqui à universidade dirigir as orquestras e também já dirigiu a Filarmonia, o Jean-Sébastien Béreau, com quem tive oportunidade de trabalhar em estágios aqui em Portugal e, obviamente nos Estados Unidos, o meu professor de direção Gerhard Samuel. Depois há maestros pelos quais fui dirigido que também me marcaram muito como o Michel Corboz, o Christopher Hogwood, o Michael Gielen, o Kent Nagano, o recentemente desaparecido Frans Brüggen... Certamente estarei a esquecer-me de vários pois em 35 anos profissionalmente ligado à música, seja como membro do coro, seja como maestro de coro e posteriormente como maestro de orquestra, como é óbvio, cruzei-me com muitos nomes e estes são aqueles de que me estou a lembrar agora.

Muito obrigado por nos ter proporcionado esta conversa tão agradável em torno da sua carreira e em torno do trabalho que tem vindo a desenvolver na Filarmonia das Beiras. Onde o poderemos ver em breve? Quais as próximas datas de concertos que dirigirá?
Agora só voltarei a dirigir no dia 10 de abril em Estarreja e no dia 16 de abril em Ílhavo. Neste último com o Carlos Guilherme e com a Isabel Alcobia onde apresentamos um reportório muito diversificado num espetáculo ao qual chamamos “De Nápoles a Nova Iorque”.

António Vassalo Lourenço. Uma conversa com o maestro da Filarmonia das Beiras.

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