Júlio Resende. O Fado, o piano e o palco.

Júlio ResendeJúlio Resende defende «A imaginação é uma das capacidades humanas que mais admiro e no palco pretendo sempre voltar a olhar cada interpretação como se fosse a primeira vez. Nem sempre consigo, mas tento sempre um bocadinho». Relativamente às suas influências musicais diz-nos que conhece bem a história da música e dos géneros musicais que lhe são próximos, tendo para o músico, todos eles um peso idêntico: «(...) não consigo prescindir ou selecionar um só». Em Portugal, o nome de Júlio Resende surge com maior relevo para o público com o trabalho "Fado & Further": «É um disco ao vivo, que pretende dar ao ouvinte uma relação renovada com o repertório que pensou já estar esgotado. A imaginação é uma das capacidades humanas que mais admiro e no palco pretendo sempre voltar a olhar cada interpretação como se fosse a primeira vez. Nem sempre consigo, mas tento sempre um bocadinho».

Júlio Resende, muito obrigado por este tempo dedicado aos nossos leitores. Como foi o seu percurso musical antes de protagonizar este encontro entre o piano e o fado?
Obrigado eu pelo interesse. O meu percurso musical passa muito por uma relação de prazer com o gesto de tocar piano, e essa relação estabeleceu-se logo aos 4 anos quando recebi um teclado e comecei a tocar de ouvido. Depois estive no Conservatório, frequentei Workshops, Masterclasses e Universidade que muito me ensinaram mas, onde aprendi mais, foi fechado em casa a estudar com os discos ou a passear na rua com o discman na mão.

Júlio Resende

Qual o peso que tiveram na sua carreira as 5 estrelas "Choc-Disc" atribuídas pela “Classica – France”? Foi a reafirmação de que trilhava o rumo certo?
Foi sobretudo a sensação de que mesmo longe há quem nos oiça, e há até quem julgue que aquilo que fazemos merece destaque. Não esperava essa recompensa, como não esperava ser ouvido por eles. Felizmente a Música viaja, e bem, e traz-nos grandes surpresas quando regressa.

Em Portugal, o seu nome salta para o domínio do grande público com o trabalho "Fado & Further". Fale-nos um pouco deste trabalho.
É um disco ao vivo, que pretende dar ao ouvinte uma relação renovada com o repertório que pensou já estar esgotado. A imaginação é uma das capacidades humanas que mais admiro e no palco pretendo sempre voltar a olhar cada interpretação como se fosse a primeira vez. Nem sempre consigo, mas tento sempre um bocadinho.

Júlio ResendeSílvia Pérez Cruz cantou no seu concerto da Gulbenkian. Também Moreno Veloso já subiu consigo ao palco. Sente necessidade de promover estes encontros nos seus concertos? O que tenta atribuir à sua música e às suas interpretações com estas “parcerias”?
A voz é um dos instrumentos que eu mais gosto, de todos. É o mais orgânico, emocional, desarmante. Quando convido a Sílvia ou o Moreno para os concertos estou a tentar partilhar com cada uma das pessoas que nos vai ouvir as maravilhas musicais de que cada um deles é capaz, e que no dia-a-dia muito oiço e me inspiram. O que pretendo é apenas partilhar-me, com eles e com o público.

Quais as suas principais influências musicais?
Conheço bem a história da música e dos géneros musicais que me são próximos, e são todos tão importantes para mim que não consigo prescindir ou selecionar um só.

Amália será sempre uma referência?
Com certeza, bem-vinda e preservada. Com o tema Medo senti-me um pouco mais próximo e mais responsável por alguém que não conheci pessoalmente, mas que distribui o seu abraço de tal modo em vida que ainda hoje sentimos o seu carinho.

Brevemente estará em Paris como convidado para o concerto de inauguração da Salles Fernando Pessoa et Vieira da Silva de la Maison du Portugal. É uma grande honra certamente. É o sinal do merecido reconhecimento pelo trabalho que tem vindo a desenvolver?
Sinto-me sempre feliz a cada concerto, mas é claro, tocar em Paris, uma cidade onde estudei e onde muito fui feliz, é não só uma honra como uma oportunidade de retribuir. Juntar a música portuguesa a isso é o melhor que posso fazer.

Como tem sido recebida esta sua abordagem a um género que ganhou tanta visibilidade pelo facto de ter passado a ser considerado pela UNESCO “Património Imaterial da Humanidade”?
No México, por exemplo, onde quase ninguém conhece a palavra Fado ou a Amália, e fiz quatro concertos de norte a sul do país, senti que a mensagem da música passa para os espectadores sem que seja necessário eles conhecerem as canções ou o género musical donde vem. A música fala-nos diretamente para o corpo, para as vísceras, para o estômago, para o peito, e não para o intelecto ou conhecimento. No Japão senti o mesmo.

Júlio ResendeSendo um músico que viaja pelo mundo com alguma regularidade, tem certamente uma opinião relativamente à forma como a nossa música é encarada lá fora. Somos hoje mais respeitados e conhecidos?
Ainda temos que trabalhar muito nesse sentido, no sentido de sermos reconhecidos, mas felizmente todos os povos são muito cordiais com os estrangeiros e depois de ouvirem as boas coisas que temos para lhes dar abrem ainda mais os seus braços e a sua hospitalidade e gentileza. Somos o amigo estrangeiro que toda a gente quer ter depois de conhecer.

E em Portugal? Considera que as políticas culturais têm favorecido a divulgação da nossa música “cá dentro”?
Acho que os músicos têm feito muito mais por isso do que as políticas culturais. Ainda assim, respeito o trabalho dos políticos e só lhes peço que considerem bem os patrimónios que temos e que fazem com que a vida de cada um - quer em Portugal, quer no mundo - se torne mais agradável, verdadeira, prazenteira. Se a música não faz isso, então eu não sei o que o faça.

Obrigado por esta partilha. Para terminar, pode dizer aos nossos leitores quando e onde o poderão ver e ouvir nos próximos tempos?
Em abril, como vocês próprios referiram irei a Paris. Seguem-se alguns concertos em Portugal no início de junho e lá para meio do mês rumarei aos Estados Unidos para uma digressão que deverá passar por Newark, Nova Iorque e Washington.

Júlio Resende. O Fado, o piano e o palco.

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