Tiago Abrantes. Clarinete, pedagogia e partilha.

Tiago AbrantesFica bem claro, nesta entrevista, o percurso do clarinetista Tiago Abrantes. Da sua aprendizagem às inúmeras atividades que desenvolve enquanto performer até à sua prática docente, tudo é aqui passado em revista. A paixão pela música, que não guarda só para si, é evidente, o conceito de partilha é uma constante e o sentido de justiça, um fio-condutor numa vida onde não parece haver pontos baixos dada a sua enorme vontade de avançar. O palco é um dos seus habitats naturais que se junta ao universo da pedagogia e da didática musical. «Os alunos e colegas/professores que se têm cruzado comigo nos vários Conservatórios por onde tenho passado vão conhecendo a minha maneira de ser, a minha sensibilidade musical, a minha maneira de ensinar e isso tem-se traduzido em alguns convites para orientar cursos de clarinete e música de câmara. Por gostar bastante deste tipo de trabalho, fico sempre entusiasmado quando recebo convites para ministrar estes cursos de aperfeiçoamento».

Tiago, agradecemos desde já a amabilidade demonstrada desde a primeira hora em que o convidámos para esta entrevista. Grande parte da sua vida passa pela partilha de conhecimento em instituições como o Conservatório de Música do Porto e Fundação Conservatório Regional de Gaia. Ensinar é a sua maior paixão?
Antes de mais, agradeço a oportunidade que o XpressingMusic me dá para expor o meu trabalho e pensamento. A sua pergunta merece uma resposta intensa porque, não sabendo se é a maior, ensinar é efetivamente uma das minhas grandes paixões. Para além de sentir que ao ensinar estou a ter um gesto de solidariedade para com outras pessoas, uma vez que as ajudamos a crescer, ensinar música envolve quatro ações que me fascinam: partilhar, despertar, aprender e tocar.

No que respeita à partilha, sempre gostei de mostrar aos outros o que ia descobrindo. Estou a lembrar-me de uma situação que acontecia recorrentemente há mais de 20 anos atrás. Morei, até há 9 anos, em Casal de Álvaro, uma aldeia do concelho de Águeda. Esta aldeia é um lugar pequeno (mas com grande carisma musical) e em adolescente, quando fui estudar música para Espinho, recordo a pressão que fazia para mobilizar os amigos alvarenses para irmos assistir a concertos que não existiam na região, muitos deles longe, como o Porto, Guimarães ou Tomar. Por falar em Tomar, recordo uma peripécia ocorrida em Águeda, que não resisto a partilhar. A malta de Casal de Álvaro estava acostumada a assistir aos concertos da Orquestra Nacional de Sopros dos Templários, da qual fiz parte em muitos estágios. Esta orquestra, numa determinada fase, tocava no final dos concertos vários extras - num concerto chegou a tocar, depois do programa, mais 10 peças. Num dos anos, veio atuar ao Cine-Teatro S. Pedro em Águeda e tocou um ou dois encores... Foi um problema, o público aguedense, conhecedor das habituais performances, começa a vaiar a orquestra! Penso que foi a única vez que a Orquestra dos Templários recebeu assobios em vez de palmas! O professor Saiote, que foi maestro titular desta orquestra, costuma dizer que depois das pessoas verem a Luz, não é fácil aguentá-las quando não têm pelo menos o mesmo. Eu fiquei embaraçado com aquela situação mas, analisando a esta distância, o que aconteceu foi uma consequência da partilha das minhas vivências. Hoje esta partilha acontece diariamente com os meus alunos.

Tiago abrantesEm relação ao despertar, sinto um enorme prazer em acompanhar a evolução dos alunos. Um aluno de música passa grande parte da juventude no conservatório e é preciso ter uma gestão cuidada dos conhecimentos para que não se esgote nos primeiros graus/anos. Esta boa gestão dos conhecimentos, ao longo dos 8 anos de curso (poderá ser 12 anos com iniciação), contribui para que o aluno vá despertando ano após ano e ajuda, também, a formar consciência que a aprendizagem nunca estará acabada, é um processo eterno. Outra forma de despertar, que uso em simultâneo com a anterior, é ter aulas vivas, tentando despertar emoções nos alunos. O professor Saúl Silva, antigo professor no Conservatório Regional de Gaia e oboísta na antiga Orquestra Sinfónica da RDP, costuma dizer que “para se emocionar é preciso estar-se emocionado”. Obviamente que temos de ajustar as palavras e a maneira de falar consoante a idade e o nível do aluno que temos à frente mas, com a devida adaptação, o entusiasmo na aula ajuda a despertar o gosto e amor pela música. Nem sempre temos disposição, é certo, mas também não é preciso passar a aula a dançar e a cantar, muitas vezes um simples brilho no olhar resulta. Robert Schumann, compositor alemão do Sec. XIX, também defendia este pensamento ao dizer que “sem entusiasmo, nada de grande se faz na arte.”

Aprender. O que eu já aprendi ao ensinar! Os diversos problemas que os alunos têm obrigam o professor a dar respostas que, muitas vezes, não tinham pensado seriamente nisso. Ao ter de pensar, já estão a alargar horizontes, a evoluir, a aprender. Depois acontece também uma situação curiosa, as aulas de instrumento (para quem não sabe) são aulas individuais e o professor, quer queira ou não, é um modelo para o aluno. O aluno irá absorver, consciente ou inconscientemente, o que se passar na sala de aula, e o professor tem responsabilidade em tudo o que disser e na maneira como disser. Por isso, o professor, sabendo que ninguém sabe tudo e que o mundo não é estático (havendo sempre novidades a surgirem), deverá ir-se atualizando, para que o seu contributo junto do aluno seja o melhor. Posso afirmar que alterei alguns aspetos na minha maneira de tocar por, ao tentar resolver problemas clarinetísticos e musicais dos alunos, chegar à conclusão que a maneira como fazia não era a mais correta. No meu entender, um professor deve transmitir segurança ao aluno mas também deve ser humilde. Porque se não o for, irá perder muito e, consequentemente, o aluno também.

Para finalizar, o tocar. Sou músico porque gosto muito de tocar mas, como sucede com a maioria dos músicos, vim ter ao ensino. Acontece que desenvolvi um grande gosto no ensino, pelas razões que estou a enunciar. No entanto, acho o ensino mais eficaz através do exemplo. Acredito que o aluno percebe melhor a ideia do professor se este exemplificar. E no caso da música, o exemplificar é tocar. Não quero dizer com isto que um bom professor é o que faz concertos na aula. Conheço professores que não tocam e desenvolveram estratégias que funcionam, ou seja, conseguem fazer a mensagem passar, os alunos desenvolvem o gosto musical e evoluem. Mas a minha maneira de ensinar é usando o clarinete como ferramenta de trabalho porque mostro mais claramente a minha ideia e faço, em simultâneo, uma coisa que adoro, tocar.

Tiago AbrantesHá quantos anos começou a dar aulas? Quais as instituições de ensino em que já trabalhou?
Quando era criança, o professor da escola de música da Banda Alvarense, o Sr. Américo Fernandes, promoveu um concurso lançando um repto aos alunos, o primeiro a chegar a determinada lição do solfejo receberia uma bicicleta da Orbita, empresa de um amigo seu. Cheguei primeiro a essa lição e recebi a tal bicicleta, lembro-me de ir com ele à fábrica escolhê-la (foi uma de cross, que estava na moda). A partir dessa altura, quando o Sr. Américo precisava de faltar, eu assegurava as lições de solfejo. Anos mais tarde, já enquanto aluno na Escola Profissional de Música de Espinho, dei aulas ao naipe de clarinete da Banda Alvarense. Mas, oficialmente, comecei a dar aulas de clarinete em 1999, no Conservatório de Música de Águeda, tendo lecionado durante 8 anos. Em 2003 passei a lecionar em mais duas instituições em simultâneo, o Conservatório do Vale do Sousa, em Lousada, que na altura se chamava Academia de Música da ACML, onde lecionei durante 5 anos, e na Escola de Artes da Bairrada, no Troviscal (Oliveira do Bairro), onde lecionei 10 anos. Em 2008 abriu concurso público para professor de clarinete no Conservatório de Música de Aveiro Calouste Gulbenkian, concorri e fui selecionado, tendo lecionado nesta instituição 5 anos. Aproveito para enaltecer uma pessoa que se cruzou comigo em três destas quatro instituições, o Carlos Marques (de Fermentelos). Foi ele que, enquanto diretor pedagógico, me convidou para lecionar no Conservatório de Águeda e, mais tarde, voltou a convidar-me para a Escola de Artes da Bairrada. Voltamo-nos a encontrar no Conservatório de Aveiro, em 2009, onde eu já estava há um ano. A partir de 2013, passei a lecionar no Conservatório de Música do Porto, sendo professor do quadro de escola desde 2014, e acumulo com a Fundação Conservatório Regional de Gaia, onde leciono as seis horas permitidas.

Quando começou a dar os primeiros passos na aprendizagem musical com o seu pai já sonhava vir a ser um músico profissional?
Tive a sorte de crescer numa aldeia onde a música faz parte do ADN da população. Quando lá morava era normal ir pela rua e ouvir alguém a tocar em casa, ainda deve ser igual. Os dois ramos da minha família estavam ligados à música na região, sendo todos os meus tios músicos, uma boa parte dos meus primos também aprendeu música, os meus avós eram ambos músicos, tenho um irmão músico e os meus três sobrinhos também são músicos, a Lara toca flauta no Trio Espiral, o Rui toca percussão na Fanfarra Káustica e na Banda Alvarense e a Ana Duarte leciona trompa em vários Conservatórios e toca na Orquestra de Cascais. Parece natural que, com toda esta envolvência musical, eu seria músico. Acredito que músico seria sempre, agora músico profissional é que já tenho dúvidas, uma vez que estava instituída a mentalidade de “os músicos terem a sua profissão a sério”, fazendo música nos tempos livres. Se não me engano, fui o primeiro músico Alvarense a romper com esta tradição e fazer da música profissão, hoje são vários a fazerem desta arte profissão. É curioso mas foi o meu pai que me ensinou as primeiras notas no trompete, instrumento que tocava, e foi também devido a ele que segui profissionalmente música, mas neste caso por uma razão negativa. O meu pai adoeceu gravemente e o meu irmão Duarte, mais velho 15 anos, tem uma conversa decisiva comigo, transmitindo que tinha conhecimento de uma escola profissional de música e pergunta-me diretamente se gostava de seguir a carreira de músico. Nesta altura, era aluno no Conservatório de Música de Aveiro, onde tinha aulas de música depois das que tinha na Escola Secundária Adolfo Portela em Águeda. Por coincidência, estávamos no Verão de 1994 e tinha acabado de ter participado num grande estágio de orquestra de sopros em Aveiro, muito marcante, dirigido pelo maestro holandês Jan Cober. Quando o meu irmão, devido à doença mortal do nosso pai, me coloca esta questão, não hesitei e disse-lhe que estava disposto a fazer as provas de ingresso na Escola Profissional de Música de Espinho. Concorri, fui admitido e iniciou-se um novo ciclo na minha vida.

Tiago Abrantes, Curso CVSEnquanto aluno passou pelo Conservatório de Música de Aveiro Calouste Gulbenkian, pela Escola Profissional de Música de Espinho e pela Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo do Porto. Quais os principais nomes que deram corpo a esta sua caminhada formativa?
Tenho que realçar os professores de clarinete, por serem os principais responsáveis pela minha formação clarinetística: Américo Fernandes, Fernando Raínho, Nelson Aguiar, António Saiote, Luís Carvalho e Nuno Pinto. Dois já faleceram, o Sr. Américo Fernandes e o professor Fernando Raínho. Aprendi muito com todos. Podia referir os vários aspetos musicais que cada um me ensinou mas seria redutor, uma vez que os professores ensinam-nos muito mais do que aquilo que nos lembramos. Foram seis professores de clarinete que me ajudaram muito e sensibilizaram para diferentes aspetos clarinetísticos e musicais. Acho, no entanto, que foram demasiados. Ao longo destes anos, tenho refletido muito neste assunto e, devido às características próprias neste tipo de ensino, que desenvolve uma relação muito forte entre um aluno e um professor de instrumento, penso que o número de professores mais adequado para todo o percurso académico talvez seja quatro: dois desde a iniciação (6 anos) e o 8º Grau (18 anos), um para o nível superior (licenciatura) e o último para uma especialização (mestrado). Conheço alguns músicos que tiveram apenas um ou dois professores de instrumento, sinto que esta formação clarinetística se torna mais pobre, por não terem passado pela experiência de terem que se adaptar a outras abordagens musicais, ficando com horizontes clarinetísticos e musicais mais reduzidos. Pelo contrário, quando também são demasiados professores, o aluno quando começa a interiorizar a maneira de tocar e a filosofia do professor, surge uma rutura no processo, acabando por não consolidar uma abordagem musical com coerência. Quando vim lecionar para o Conservatório do Porto, tive vários alunos em que eu já era o quinto ou o sexto professor, e eles ainda só estavam no 5º ou 6º Grau. É fundamental haver alguma estabilidade no percurso académico.
Voltando à sua pergunta, como não vejo o clarinete isolado do resto do mundo (por entender, tal como o maestro Daniel Barenboim, que “está tudo ligado”), devo acrescentar que tive a sorte de terem passado pela minha vida grandes professores também de outras disciplinas, que me enriqueceram bastante e contribuíram para o meu alargamento de horizontes musicais e humanos. Tenho que ter uma palavra de gratidão para todos os professores que tive no Conservatório de Música de Aveiro, Escola Profissional de Música de Espinho e Escola Superior de Música do Porto (não citarei por serem muitos, vocês sabem quem são). Não me lembrando de todas, lembro-me de algumas aventuras passadas com os vários professores, todas contribuíram para que eu seja o músico que sou.

Tiago Abrantes, Curso de Clarinete e Música de CâmaraNo entanto foi sempre frequentando diversos cursos, workshops e masterclasses. Nestes contextos também houve nomes que muito o influenciaram?
Sim. Com o intuito de ouvir outras opiniões acerca da minha evolução, frequentei e frequento muitos workshops, masterclasses e seminários nas mais variadas áreas do conhecimento. No que respeita ao clarinete, quando fui estudar para Espinho passei a frequentar cursos de aperfeiçoamento, recordo-me dos cursos de Oliveira do Bairro, orientado pelo professor Manuel Jerónimo, e o de Castelo Branco, orientados pelos professores: António saiote, Nuno Silva, Carlos Alves e Luís Gomes. Talvez por haver pouca divulgação ou serem residuais, enquanto aluno em Aveiro não ouvia falar nestes cursos de clarinete. Depois de ser admitido na Escola Superior de Música do Porto continuei a frequentar cursos de clarinete com personalidades internacionais, como os professores: Guy Deplus, Phillipe Cuper, Michel Arrignon, Enrique Perez Piquer.

Desde sempre tive muita curiosidade por outras músicas, nomeadamente o Jazz e a World Music e lembro-me de, ainda estudante em Espinho, frequentar um Workshop de Jazz em Aveiro, orientado pelo contrabaixista Zé Eduardo. Uso por vezes a expressão vocal que ele usava para exemplificar o ritmo do Swing.

Em meados dos anos 90, nasce em Águeda a d’Orfeu, uma associação cultural com forte incidência na música tradicional, que revolucionou o panorama cultural da região aveirense. Atualmente, a d’Orfeu organiza vários festivais com dimensão internacional, para além de promover várias criações artísticas. Recordo os vários seminários muito interessantes, que passou a haver no início do ano com personalidades de relevo, onde eram debatidas temáticas relacionadas com a música tradicional, os instrumentos tradicionais, a improvisação, as artes, a cultura, entre outros. Era (sou) muito próximo dos fundadores desta associação, os irmãos Fernandes, e assisti aos primeiros seminários. Os músicos da World Music são muito criativos e esta associação, com estes seminários e os muitos concertos de grupos incríveis a que assisti, enriqueceu-me bastante.

Entretanto, com a minha ida para o ensino, frequentei várias ações de formação sobre pedagogia, orientadas pelo Francisco Cardoso, e um seminário acerca da ansiedade na execução musical e também sobre anatomia e fisiologia da respiração para instrumentistas de sopro, orientado pelo Professor Doutor Diogo Pais. Também participei, em Matosinhos e Aveiro, nas 1ª e 2ª jornadas de medicina e artes do espetáculo, onde músicos, atores, dançarinos e médicos debateram os potenciais problemas de saúde no caso de performances incorretas.

Estou a lembrar-me que, quando dei aulas no Conservatório do Vale do Sousa, também frequentei um Workshop muito caloroso de Danças de Salão, onde aprendi três danças, o Chá-Chá-Chá, o Merengue e a Valsa Vienense. A dança ajuda a corrigir a postura corporal e, no caso destas que aprendi, ajudam-nos a interiorizar os balanços muito característicos, sendo uma mais-valia para quando tivermos que tocar música deste estilo.

Os músicos e, sobretudo, os professores devem continuar a frequentar seminários, ações de formação e variados cursos ao longo da vida porque quando agimos, falamos, tocamos ou ensinamos estamos a usar a nossa intuição, mas as intuições podem estar mais informadas, mais ricas ou, pelo contrário, menos esclarecidas, mais pobres.

Tiago Abrantes, Curso de Clarinete e Música de Câmara

Hoje é o próprio Tiago Abrantes que corre o país ministrando as suas masterclasses. Tem tido muitos convites para este tipo de iniciativas?
Os alunos e colegas/professores que se têm cruzado comigo nos vários Conservatórios por onde tenho passado vão conhecendo a minha maneira de ser, a minha sensibilidade musical, a minha maneira de ensinar e isso tem-se traduzido em alguns convites para orientar cursos de clarinete e música de câmara. Por gostar bastante deste tipo de trabalho, fico sempre entusiasmado quando recebo convites para ministrar estes cursos de aperfeiçoamento. Há dias estive em Perosinho (V.N.Gaia) a orientar uma masterclass e fiquei com a perceção de ter obtido um impacto positivo junto dos alunos. Sentir que o trabalho foi produtivo, que os alunos perceberam a mensagem e ficaram satisfeitos é, para mim, o principal. Aproveito para agradecer a ajuda que o XpressingMusic deu na divulgação. A masterclass teve bastantes participantes e isso também contribuiu para o seu sucesso.

Enquanto performer tem colaborado com inúmeras orquestras. Quais os principais projetos musicais que integrou até hoje?
Ao longo da minha vida musical integrei projetos muito variados, de diversos estilos e estéticas musicais. Toquei muitos anos na Sociedade Musical Alvarense, onde comecei aos 6 anos. Com 13 ou 14 anos toquei uma época com a Orquestra Típica de Águeda. Penso que existem apenas mais duas orquestras em Portugal com estas características, a Albicastrense (Castelo Branco) e a Scalabitana (Santarém). Estas orquestras são formadas por instrumentos de corda, concertinas, acordeões, alguns sopros, percussão e um grupo coral. Têm um reportório inspirado no folclore português, fazendo recolhas musicais nas próprias regiões e usam os trajes típicos regionais. Mais tarde, integrei diversos projetos com marca d’Orfeu, como os Com Passos Simples, os CantAutores e a D’orfanfa. Toquei com Benoît Charest (compositor da banda sonora do filme “Les Triplettes de Belleville”) e com Os Azeitonas, nos concertos nos coliseus do Porto e Lisboa. Na música erudita, tenho mantido uma intensa atividade de música de câmara, integrando várias formações, como Duos, Trios, Quartetos, Quintetos e Ensembles, nomeadamente o Ensemble Terras do Sousa, o Toy Ensemble e o Coro de Câmara da Bairrada. Em relação a orquestras, tenho colaborado com várias, como a Orquestra Sopros de Jovens Músicos de Aveiro94, Orquestras da EPME, Orquestra de Câmara de Pedroso (V.N.Gaia), Orquestra de Câmara do Norte, Time Orchestra, Orquestra Invicta de Clarinetes “All Stars”, Orquestra Nacional de Sopros dos Templários, Orquestra Filarmonia das Beiras, Orquestra Salão Jardim, Orquestra do Norte, Orquestra “Sinfonieta” da ESMAE, Orquestra de Câmara de Coimbra/Orquestra Clássica do Centro, Orquestra Nacional do Porto/Orquestra Sinfónica Casa da Música e Fundação Orquestra Estúdio Guimarães 2012.

Tiago Abrantes, Orquestra CMACG 2012

Tocar com tantos projetos tem-lhe conferido a oportunidade de trabalhar com os mais prestigiados maestros? Pode referir alguns deles?
Sim, tenho tido o privilégio de ter tocado com bons maestros, como Omri Hadari, Robert Houlihan, Jan Cober, Martin André, Claude Kesmaecker, Pablo Heras-Casado, Erol Eridinç, Hans Martin Rabenstein, Roberto Tibiriçá, Baldur Brönnimann, Manuel Ivo Cruz, António Saiote, M. Graça Moura, A. Vassalo Lourenço, António Vitorino d’Almeida, entre outros. Tendo cada um a sua maneira de abordar a música, como é natural, maneira essa que também é influenciada pelas obras que se estão a trabalhar, estas experiências orquestrais, para mim, são sempre interessantes e cheias de adrenalina.

Tiago AbrantesE atualmente? Quais os projetos que abraça neste momento?
Atualmente estou a concluir o mestrado em Música de Conjunto, no Conservatório Superior de Música de Gaia, estando a redigir a dissertação e a fazer em simultâneo o estágio. Integro o elenco, como músico/ator da peça Novecentos – O Pianista do Oceano, da Companhia Peripécia Teatro. Esta peça foi estreada em 2007. Desde esse ano temos percorrido muitos festivais/teatros portugueses e espanhóis. Fomos em 2011 ao FESTLIP (festival de teatro de língua portuguesa) no Rio de Janeiro e, neste momento, estamos a ter vários espetáculos na Galiza. Faço parte dos Clarinetes Ad Libitum. Para quem não conhece, resumidamente, nasceu em 1998, é composto por quatro clarinetistas e um percussionista, toca músicas do mundo e tem uma postura em palco impressionante. Este conceito tão original e incrível desencadeou convites um pouco por todo o mundo (Europa, China e Estados Unidos). Aproveito para divulgar o próximo espetáculo, que será no dia 30 de março em Castelo de Paiva e já posso adiantar que, no próximo inverno, iremos novamente atuar na Itália, agora mais a norte, perto de Milão.

Isto tudo para além das muitas horas que passo nos Conservatórios do Porto e no de Gaia, dando aulas seis dias na semana.

A direção de orquestra é outra área que o fascina?
A primeira vez que dirigi foi num curso de clarinete em Castelo Branco, no final dos anos 90, onde o professor António Saiote também orientou um workshop de direção. Inscrevi-me apenas porque a diferença de preço não era muita e apeteceu-me experimentar. O workshop correu muito bem e a semente ficou lançada. Quando aparecia um curso de direção lá me inscrevia. Frequentei muitos, sobretudo com o maestro António Saiote, personalidade musical com a qual, devido a estes cursos de direção, me identifico bastante. Anos mais tarde, em 2003, fui convidado para lecionar no Conservatório do Vale do Sousa as disciplinas de clarinete e de Orquestra, que ficaram a meu cargo durante os 5 anos que lá lecionei. No ano letivo de 2006/2007, inscrevi-me no Curso Livre de Direção da Escola Superior de Música do Porto, orientado pelo maestro António Saiote. Adorei o curso, pois tínhamos aulas práticas, onde dirigíamos piano a quatro mãos, a orquestra sinfónica e a orquestra de sopros da ESMAE, e tínhamos aulas teóricas, onde trabalhávamos muito a técnica de direção e conversávamos sobre música e maestros. Em 2008 fui dar aulas para o Conservatório de Aveiro, deixando por isso o Conservatório do Vale do Sousa. Em 2011, o professor responsável de orquestra, o prof. Domingos Lopes, convida-me para sermos os dois responsáveis pela orquestra. O que durou apenas 2 anos letivos por, em 2013, vir para o Conservatório do Porto. Em 2006 e em 2011, fui convidado para orientar os Estágios da Banda Sinfónica da Bairrada e da Orquestra de Sopros do CVS, tendo sido duas grandes experiências. Respondendo agora à sua pergunta, a direção de orquestra fascina-me. Mas penso que me fascina sobretudo por me permitir fazer música. A música é o que profundamente me move.

Tiago Abrantes, Clarinetes Ad Libitum

Tem deixado vários registos gravados. Quais as gravações mais marcantes que já integrou?
Ao longo da minha vida musical, tenho participado em várias gravações. Falarei, no entanto, em apenas três, de estilos e formações musicais diferentes. Assim, com a Orquestra Filarmonia da Beiras, gravei as Sinfonias nos 3 e 4 de António Vitorino d’Almeida, dirigidas pelo próprio; com os Clarinetes Ad Libitum, gravei o cd Contradanza (temos previsto gravar o segundo brevemente); com os Danças Ocultas, gravei o tema Sorriso.
Para um futuro próximo, tenho algumas gravações idealizadas que divulgarei assim que estiverem agendadas.

Tiago Abrantes, Espetáculo rio 2011Quando visita países como Espanha, França, Alemanha, Bélgica, Holanda, EUA, China e Brasil nota muitas diferenças na forma como a música é encarada pelas populações e até mesmo pelos estados?
Normalmente, quando vou a esses países tocar, estou apenas dois ou três dias. Onde estive mais tempo foi no Rio de Janeiro, duas semanas, e em Pequim, uma semana. A ideia com que fico é muito superficial, resumindo-se à reação e energia recebida da parte do público, que tem sido muito boa. Destaco a reação incrivelmente calorosa do público chinês em Pequim (2007) e norte-americano em Kansas City (2008), nos espetáculos com os Clarinetes Ad Libitum. Dos países que visitei, não encontrei grandes diferenças na forma de encarar a música. Já poderá eventualmente ser diferente em países onde a Liberdade e a Democracia estejam em níveis medíocres. Hoje o mundo é aberto e, talvez tirando os países mais fechados, a informação circula por todo o lado, sendo praticamente instantânea. Toda a gente sabe o que se faz em todo o mundo, basta ligar a televisão ou ir à internet. Um nova-iorquino pode assistir a um espetáculo que esteja a decorrer em Paris, em direto no canal Mezzo. No Youtube, podemos ver um concerto que aconteceu em qualquer ponto do planeta momentos antes. E as redes sociais contribuem gloriosamente, chegando a acontecer uma situação curiosa: com as novas tecnologias, uma pessoa a morar em Munique poderá sentir-se mais próxima do seu primo, habitante em Barcelona, do que se morassem na mesma rua. A globalização está aí, consigamos nós usá-la com sabedoria.

Muito obrigado por este espaço que dedicou aos nossos leitores. Tem algum sonho que ainda não tenha concretizado e que gostasse de empreender em breve?
Tenho o sonho de um dia ver o mundo mais fraterno, onde as pessoas tenham o mínimo que lhes permita viver sem desenvolver invejas e ódios. Mas o Ter não é suficiente para resolver este problema, senão todos os ricos eram bondosos e os pobres maldosos (por vezes passa-se precisamente o contrário). O Ter poderá ajudar a resolver uma parte do problema, a outra talvez seja resolvida através da educação e formação. Isto poderá soar a utopia mas a utopia ajuda o mundo a avançar. Não imaginam o quanto a música ganharia com isto. A música é feita por pessoas e as pessoas tocam como são, e na condição em que estão. A música é verdadeira, transparente e reflete o interior da pessoa. Depois de há quase 20 anos ter visto, no filme Gato Preto Gato Branco de Emir Kusturica, entre várias cenas inacreditáveis, um suíno a comer um carro e uma mulher a arrancar pregos com o ânus, já nada me impressiona. Quando vou assistir a um concerto, não quero que me impressionem porque não é isso que procuro. Eu quero é que me encantem. Que me deliciem. Que consigam fazer-me chorar de alegria. Para a música soar de maneira especial o músico terá de ter a obra muito bem trabalhada e o coração inundado de bons sentimentos. W. H. Auden, poeta inglês do Sec. XX, dizia que “aqueles a quem é feito mal, retribuem com mal”. Os professores têm influência para levar os alunos para um lado ou para o outro. Bem sabemos que as condições de trabalho não são as melhores, o reconhecimento do professor está diminuído, existem muitos professores fragilizados. Mas a verdade é que para os vários conhecimentos, adquiridos ao longo dos séculos, serem perpetuados é necessário que alguém tenha a nobre missão de os ensinar aos mais novos. Quem tem este exigente papel são os professores e é do interesse de toda a sociedade que estejam minimamente bem, para que a sua influência nos alunos seja positiva. Todos os dias tento empreender, junto dos meus alunos, a importância de sermos íntegros, ajudarmos o colega do lado, agirmos de acordo com valores morais e éticos. Acredito seriamente que se desenvolvermos a nossa espiritualidade, ou seja, a capacidade em ver beleza, e aliarmos a isso um trabalho musical rigoroso, conseguiremos criar momentos musicais sublimes e encantar quem nos ouvir. É muito difícil mas é um sonho que perseguirei eternamente. Tudo o resto, são coisas. Desejo ao XpressingMusic a continuação de um bom trabalho.

http://tiagotabrantes.wix.com/tiagoabrantes

Tiago Abrantes. Clarinete, pedagogia e partilha.

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