Jan Wierzba. A direção no cerne de uma entrevista.

Jan WierzbaO universo da direção, a carreira e muito mais são passados em revista nesta entrevista a Jan Wierzba. Sobre os próximos projetos ficámos a saber que terá um projeto com a Orquestra Sinfónica Portuguesa nos Dias da Música 2016, outro com a Orquestra Gulbenkian em junho e julho. Mas há mais: «Gravarei um CD com obras de compositores portugueses com o Ensemble SÍNTESE e apresentar-me-ei em Itália com o Ensemble SEPIA em novembro. Tentarei fazer parte do leque de escolhidos a participar na Masterclass de Bernard Haitink em Lucerne, farei um Estágio de Cordas na EPABI na Covilhã, bem como uma tournée em duo com a Soprano Joana Seara no Brasil. Para além disto, já tenho alguns projetos previstos para 2017, que ainda não me são permitidos divulgar».

Jan Wierzba, muito obrigado por este tempo que aceitou dedicar-nos. Sempre sonhou ser maestro? Como foi o seu percurso de aprendizagem musical?
Sempre, penso que não... Mas cresci muito perto da orquestra tanto em termos sociais como em termos emocionais. A minha Mãe era vice-concertino da Orquestra Sinfónica do Porto, da qual fez parte desde 1989 (na altura Regie Sinfonia, mais tarde Orquestra Clássica do Porto e Orquestra Nacional do Porto). Naturalmente, cresci muito perto tanto do trabalho e colegas dela como das várias alegrias, peripécias e desafios que uma orquestra vive no seu dia-a-dia. Gostava imenso de discutir o trabalho dos vários maestros que iam aparecendo, dos seus pontos fortes e menos fortes, como eram as suas personalidades e a reação da orquestra a cada um. Tendo em conta que desde cedo comecei a estudar piano, agora posso dizer que me fascinava a dimensão social duma orquestra pois, até aos 18 anos, poucas oportunidades tive de desenvolver música em conjunto. Após muito tempo de preparação enquanto pianista, tanto no Conservatório de Música do Porto como na Escola Superior de Música e das Artes do Espetáculo (grande parte deste tempo com o Professor Constantin Sandu) pode parecer natural o interesse mais marcado na orquestra, neste contexto. Tive a sorte de ser apresentado ao Maestro Marc Tardue, na altura Titular da Orquestra do Porto, que me deu as primeiras indicações, depois ter conhecido o Maestro Jean-Sébastien Béreau, que me encorajou imenso e sempre será uma referência pela sua dedicação e amor à música, bem como energia inesgotável. Para além disso, um dos momentos mais marcantes foi, sem dúvida, ter conhecido e estudado com o Professor Jean-Marc Burfin, que me influenciou imenso enquanto pessoa, músico e professor, a quem estou imensamente grato. Por fim, o apoio da Fundação Gulbenkian sob a forma de uma bolsa para prosseguir estudos na Royal Northern College of Music foi determinante na minha formação.

Jan WierzbaEmbora tenha nascido na Polónia, sente-se plenamente português?
Português, Portuense e Portista! Há quem diga que seja ao contrário mas penso que esta é a ordem correta. Claro que tenho uma boa dose de cultura polaca graças aos meus pais, da qual muito me orgulho, mas a minha maneira de ser, pensar, bem como o sentido patriótico são portugueses. Poucas são as pessoas no estrangeiro que se refiram a mim como “o polaco”.

Como é visto o Portugal musical no resto do mundo?
Tanto quanto sei, enquanto meio musical é bastante desconhecido. Claro que a Fundação Calouste Gulbenkian e o seu Coro e Orquestra são reconhecidos em qualquer parte do mundo como instituição ou grupos de referência. O Remix Ensemble é uma referência no meio da música contemporânea e a Casa da Música considerada pioneira a nível de integração de várias estéticas, públicos, e inclusão de projetos educativos na programação regular. Neste momento existem imensos embaixadores do valor musical português, quer seja a estudar em instituições de renome, a trabalhar em ótimas orquestras, a tocar em música de câmara, dirigir etc. Tentar nomeá-los seria ingrato porque neste momento são tantos a dar créditos em tantos sítios que certamente me escapariam demasiadas pessoas. Pelo que me vou apercebendo, posso dizer que os músicos portugueses são muito bem vistos nos locais onde exercem a sua atividade.

Atualmente encontra-se a colaborar com Ching Lien Wu na Dutch National Opera. Como surgiu esta oportunidade? Está a ser uma experiência enriquecedora?
A oportunidade surgiu na sequência dum workshop de direcção coral com a Ching-Lien Wu e Eberhard Friedrich na Ópera Nacional Holandesa em dezembro de 2014, organizado pela European Network for Opera Academies, no qual participei enquanto representante da Fundação Calouste Gulbenkian. Embora não seja maestro de coro, fui convidado para uma prova em Maio de 2015, na qual fui bem-sucedido. A experiência está a ser muito enriquecedora. A Ching-Lien é uma maestrina com anos de experiência, extremamente positiva e assustadoramente eficaz a trabalhar com o coro, que por sua vez é duma qualidade imensa também. É um mundo diferente para mim, do qual colho frutos para poder usar em vários contextos.

Quais os próximos projetos que abraçará em breve?
Terei um projeto com a Orquestra Sinfónica Portuguesa nos Dias da Música 2016, outro com a Orquestra Gulbenkian em junho e julho. Gravarei um CD com obras de compositores portugueses com o Ensemble SÍNTESE e apresentar-me-ei em Itália com o Ensemble SEPIA em novembro. Tentarei fazer parte do leque de escolhidos a participar na Masterclass de Bernard Haitink em Lucerne, farei um Estágio de Cordas na EPABI na Covilhã, bem como uma tournée em duo com a Soprano Joana Seara no Brasil. Para além disto, já tenho alguns projetos previstos para 2017, que ainda não me são permitidos divulgar.

De todas as experiências pelas quais já passou, no âmbito da direção, há alguma ou algumas que o tenham marcado mais?
Cada uma delas, qualquer que seja a música, o grupo ou o contexto, marcam. Havendo oportunidades limitadas para dirigir, há que encarar cada uma como um privilégio, desafio e momento de aprendizagem.

Jan Wierzba

É fundador e Diretor Musical do Ensemble MPMP que tem protagonizado a nobre missão de defender e divulgar a música portuguesa. Considera que têm sido alcançados os objetivos aos quais se propunham inicialmente?
O Ensemble MPMP faz parte de uma estrutura maior que é o Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa. Penso que temos feito um trabalho digno, ainda que com as limitações naturais de qualquer estrutura artística que naturalmente quer crescer e reinventar-se, em Portugal. Tendo em conta que, em 4 anos de existência, temos no currículo do Ensemble cerca de 8 estreias absolutas, 7 estreias modernas de obras que vão desde o final do Século XVIII a meados do Século XX, incluindo uma ópera, duas participações no Festival Prémio Jovens Músicos, três participações no Festival de S. Roque, récitas no Teatro Joaquim Benite em Almada e no Teatro Campo Alegre no Porto, e uma tournée no Brasil, só posso dizer que sim, o alcançar dos objetivos está no bom caminho. Claro que temos ideias e ambição para mais, mas acreditamos que devemos fazer as coisas de forma sustentável.

Tem tido a oportunidade de trabalhar ao lado de grandes nomes da direção mundial. Há alguns nomes que possa partilhar com os nossos leitores?
Posso dizer quais são as minhas referências. Paavo Jarvi será sempre uma. Trabalhei com ele em Masterclass e tive oportunidade de assistir ao seu trabalho. É um dos maestros mais competentes, dos melhores improvisadores em palco, mais respeitador dos músicos, e uma das pessoas mais descomplexadas que conheço. Fico sempre muito feliz quando um maestro é exatamente aquilo que parece ser. Tem também algo de apelativo o facto de ter sido baterista de uma banda de “covers” de Black Sabbath até acabar o curso de direção de orquestra. É uma personagem interessante. Referência principal que só tive mesmo oportunidade de ver em masterclass, mas com quem nunca trabalhei diretamente, é Bernard Haitink. Um dos últimos maestros “magos” que existem. É daqueles que quase não fala em ensaio, mas a música vai-se compondo, transfigurando, ganhando vida. No mínimo, altamente inspirador.

Tem tido a oportunidade de estrear muitas obras. Quais os compositores com quem já trabalhou?
Devem ter sido já mais de uma dúzia, seguramente. Daniel Moreira, Óscar Rodrigues, Igor C. Silva, Nuno Peixoto de Pinho, Aled Smith, Artur Kroschel, Adérito Valente, Filipe Lopes Adam Stafford, Lucy Hale, Paul Goodey, Filipe Melo, Gonçalo Gato, Tiago Derriça, Edward Luiz Ayres d’Abreu, Sara Ross... Devo esquecer-me de alguém, mas não é por mal. Tenho imenso interesse na criação contemporânea e na forma de pensar de um compositor. É um desafio extremamente gratificante, nestes tempos em que o acesso à gravação é tão fácil, dar vida a uma obra que até à estreia não foi mais que um sonho projetado em papel.

Jan WierzbaConsidera uma experiência marcante a sua passagem pela Royal Northern College of Music em Manchester?
Com certeza. Em Manchester deram espaço para que me descobrisse, para solidificar a minha personalidade a vários níveis, e ensinaram-me a gerir tempo de ensaio com uma eficácia que nunca sonhei. Para além do RNCM ser um sítio extremamente dinâmico onde todos os dias passam personalidades interessantes, integrando eventos dos mais variados tipos. É sem dúvida uma experiência e um sítio que me vai acompanhar por muito tempo.

Jean-Marc Burfin é um nome que ficará para sempre associado à sua evolução enquanto maestro?
O Professor Jean-Marc Burfin será para sempre meu mestre e amigo. Cada vez que dirijo sei muito bem quanto devo à sua sabedoria, generosidade, honestidade e profissionalismo. Os três anos que estudei na Metropolitana foram duros a vários níveis, e após ter viajado um pouco e trabalhado com mais alguns conceituados professores, apercebi-me que tive muita sorte em ter vindo para Lisboa para fazer a licenciatura na Academia Nacional Superior de Orquestra. Nunca escondi que, para mim, um dos melhores professores de direção de orquestra está cá, em Portugal.

Com tanto empenho na área da direção, considera que o Jan Wierzba pianista, performer, vai ficando para segundo plano?
Embora esteja efetivamente mais “empenhado” no meu desenvolvimento na área da direção, não deixo de pensar em mim enquanto performer. O “pianista” dificilmente tocará a solo, mas também pouco interesse tem. Felizmente tenho projetos de música de câmara a acontecer no próximo ano, pois tenho muitas saudades de tocar com outras pessoas. Apesar de tudo, por muito que a orquestra seja uma espécie de música de câmara em larga escala, não é de todo a mesma coisa que tocar em duo, trio, quarteto ou quinteto. É uma intimidade diferente e a aprendizagem é diferente.

Mais uma vez muito obrigado. Em breve estará a ministrar uma masterclass na EPABI. A partilha de conhecimento é outra das suas paixões? Gostava de ter mais tempo para protagonizar estes momentos pedagógicos?
Eu é que agradeço. Não é bem uma masterclass, mas sim um estágio de cordas. Tenho tanto prazer em partilhar conhecimento como gosto em adquiri-lo. Para este estágio vou com o intuito de fazer música com um talentoso grupo de jovens. Se tiver algo mais para partilhar com eles assim tentarei fazer. Quanto a momentos pedagógicos, havendo vontade, tempo arranja-se sempre! Teria todo o gosto em que mais convites deste género surgissem. O contacto com jovens é algo que após 7 anos a dar aulas de piano me faz imensa falta. A energia é contagiante e os desafios que se apresentam são muitíssimo diferentes dos que se apresentam com músicos formados.

www.janwierzba.com
www.mpmp.pt

Jan Wierzba. A direção no cerne de uma entrevista.

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