António Pinho Vargas, Helena Venda Lima e a estreia de Stabat Mater

Helena Venda Lima e António Pinho VargasNo dia 19 de março pelas 21:30, na Igreja Matriz de Esposende, será estreada a obra Stabat Mater de António Pinho Vargas, uma encomenda do Coro de Pequenos Cantores de Esposende. Quisemos saber mais sobre esta obra e sobre a preparação da mesma. Assim, colocámos um conjunto de questões ao compositor António Pinho Vargas e à maestrina Helena Venda Lima. Segundo a maestrina, o programa deste concerto contemplará «três motetes da renascença Recordare Domino de Elzéar Genet, Adoramus Te Christe de Orlando Lassus e O vos omnes de G. Asola. Damos um salto temporal até ao período clássico com uma, muito feliz adaptação, da obra Miserere de W.A. Mozart e prosseguimos para mais dois motetes a capella, O Bone Jesu de A. Bruckner e Adoramus te de J. Brahms. Esta primeira parte como que prepara a segunda onde estreamos um motete de Paulo Bastos, Ave Verum e o momento auge do concerto, a estreia de Stabat Mater de António Pinho Vargas».

António Pinho Vargas, no dia 19 de março vai ser estreada a sua obra Stabat Mater. Esta encomenda constituiu-se como um grande desafio?
Sim de certo modo, na medida em que escrever para um Coro de Crianças é diferente de escrever para um Coro como, por exemplo, o Coro Gulbenkian, para o qual já tinha escrito três obras para Coro e Orquestra: Judas (2002), Requiem (2012) e Magnificat (2013). Tive de fazer uma série de perguntas de carácter técnico à Helena Venda Lima e quis ouvir os CDs que o CPCE já editou para me poder lançar no trabalho. Iria ser a primeira vez e tinha de me preparar.

António Pinho VargasComo caracteriza esta composição?
O Stabat Mater, um texto originário do século XIII, foi objeto de numerosas versões por parte de muitos compositores da história da música. Mas encontram-se grandes diferenças no texto escolhido por cada um, dado o facto de ser longo. Muitos usaram parcialmente, o que aliás acontece também com os Requiem que existem. Por um lado, por essa razão, tratava-se de estabelecer o meu próprio texto. Escolhi os primeiros tercetos, muito belos, aqueles que relatam em sucessão a dor da mãe perante o seu filho morto na cruz. Face à limitação da própria encomenda - cerca de 15 minutos - depois desse grupo inicial, usei para terminar o último do texto canónico estabelecido que tem um claro carácter conclusivo. A decisão menos habitual neste tipo de obras para coros de crianças - muitas vezes acompanhadas de piano, cravo ou órgão - foi a escolha de piano e violino. Na verdade a obra é intercalada de vários interlúdios, curtos, apenas para piano e violino ou só violino etc. Reside nessa formação inabitual o carácter de interrupção e surpresa que creio existir na obra como um todo. Essa estrutura formal, livre e de acordo com a minha concepção que se foi formando ao longo da composição, resulta numa narrativa musical muito específica que me satisfez bastante. Julgo que sem essa decisão relativa à instrumentação a obra seria outra.

Houve algo de diferente no seu habitual processo de composição devido ao facto da obra se destinar a um coro de pequenos cantores?
Cada obra é uma obra única. Não sou adepto de constrangimentos estilísticos ou de outra ordem seja qual for a obra, como é geralmente conhecido no nosso meio, tantas vezes já repeti isso em textos e entrevistas. Para além do conhecimento possível que me foi transmitido, como já referi, na verdade é uma escrita coral a 4 partes. Apenas o registo tem de considerar a especificidade das vozes brancas das crianças.

Tem acompanhado o processo de ensaios e preparação da estreia?
Ainda não. Vivo em Lisboa que não é perto. Espero poder assistir pelo menos a um ensaio antes da estreia mas devo dizer que tenho total confiança do trabalho dos artistas envolvidos. Têm já trabalho realizado, amigos meus já escreveram para o coro, já pude ouvir gravações e não tenho nenhuma preocupação ou ansiedade que não aquela que sempre acontece antes de uma outra estreia de uma obra: há uma partitura que é “condição de possibilidade” para que se possa fazer a peça, mas a estreia marca aquele momento particular em que a obra se irá transformar, no espaço público, numa realidade enquanto som e significação artística. Adquire aí a realidade sonora a que a música obriga, por definição, e desse modo, será um novo objecto artístico lançado no mundo. Aguardo com confiança e com a expectativa natural.

Muito obrigado por este tempo que dedicou aos nossos leitores. Ficou a vontade de compor mais para este tipo de formação?
Sabe, a nossa vida de compositores tem um elevado grau de contingência. Em cada ano não sabemos o que nos vai ser proposto no ano seguinte. À parte disso posso dizer que o período de trabalho neste Stabat Mater foi um enorme prazer para mim. Estou grato por isso.

Helena Venda Lima, Coro de Pequenos Cantores de EsposendeHelena Venda Lima, como tem corrido a preparação e os ensaios para a estreia da obra Stabat Mater?
A preparação está a acontecer com muito entusiasmo e dedicação. Este é um processo muito relevante para a vida do Coro de Pequenos Cantores de Esposende, a montagem de novo repertório português. É um dos grandes objetivos do projeto coral de que nasce o CPCE. Estamos numa fase onde já estamos completamente mergulhados na sonoridade e já temos a verdadeira perceção do que é pretendido musicalmente, pelo menos, do nosso ponto de vista. Ainda falta o diálogo com o compositor que acontecerá um pouco mais tarde.

Mas no dia 19 de março não interpretarão somente esta obra... Qual o programa que irão levar até à Igreja Matriz de Esposende?
O concerto começa com três motetes da renascença: Recordare Domino de Elzéar Genet, Adoramus Te Christe de Orlando Lassus e O vos omnes de G. Asola. Damos um salto temporal até ao período clássico com uma, muito feliz, adaptação da obra Miserere de W.A. Mozart e prosseguimos para mais dois motetes a capella, O Bone Jesu de A. Bruckner e Adoramus te de J. Brahms. Esta primeira parte como que prepara a segunda onde estreamos um motete de Paulo Bastos, Ave Verum e o momento auge do concerto, a estreia de Stabat Mater de António Pinho Vargas. Desta forma interpretamos dois compositores nacionais com obras em estreia. Paulo Bastos já compôs para o Coro de Pequenos Cantores de Esposende tendo o coro já gravado no seu segundo disco, “É Tempo de Natal”, um ciclo de canções de Natal com textos de Fernando Pessoa e Mário Sá Carneiro. É uma grande honra podermos continuar este trabalho de crescimento com o Paulo.
Em relação ao Stabat Mater não conseguimos descrever a honra que é podermos interpretar uma obra de António Pinho Vargas e ainda mais por ter sido escrita para o próprio coro. É um marco muito importante na história do CPCE. Alcançamos um grande objetivo com a possibilidade de contribuirmos, com o nosso projeto, as nossas metas e as nossas encomendas, para que a linguagem coral de vozes brancas chegue a compositores que normalmente não a trabalham principalmente fora do contexto, quer queiramos quer não, privilegiado dos grandes centros.

Considera a obra Stabat Mater uma composição acessível para um coro de pequenos cantores? Como sentiu esta obra aquando do primeiro contacto com a mesma?
O Coro de Pequenos Cantores de Esposende ambiciona sempre mais e por tal esta obra, com grande mestria do compositor, oferece a possibilidade de crescimento, um grande desafio. Respondendo à questão de forma simples, é um desafio consciente de todas as partes mas que trará grande crescimento para os intérpretes. Mais uma linguagem, uma nova sonoridade. Só podemos agradecer ao compositor a dedicação que teve em escrever para que o projeto conseguisse evoluir.

Desde quando se encontra a dirigir este Coro de Pequenos Cantores de Esposende?
Estou na direção do Coro de Pequenos Cantores de Esposende desde a sua formação em 2009.

O coro é formado por quantos elementos? Qual faixa etária predominante?
O coro é constituído por, sensivelmente, 70 elementos e é precisamente nesta dimensão que o coro tem de trabalhar e para o qual foi projetado. A faixa etária média são os 13/14 anos de idade.

Sente que este é o ponto mais alto do coro, ou pensa que há outros momentos dignos de registo?
Este é um momento muito especial. Este é definitivamente um momento marcante e emotivo pois todos trabalhamos muito para que tal fosse possível. É um trabalho de muitos, desde a equipa da Escola de Música de Esposende, à própria equipa de gestão do Coro de Pequenos Cantores. A concretização de uma etapa necessária para que outros ousassem nascer. A estreia desta obra neste contexto deve-se em muito à equipa que está na organização da Semana Santa de Esposende e por tal só podemos agradecer o grande esforço realizado neste sentido.
Posso orgulhosamente referir que o CPCE regista vários momentos especiais, a estreia do Magnificat de Fernando Lapa, Romance do Caçador e da Princesa de Sérgio Azevedo, Ciclo “Mudam-se os Tempos” de Osvaldo Fernandes. Estas foram interpretadas na Casa da Música com o Maestro catalão Lluis Vila. O lançamento de ambos os discos, “Mudam-se os Tempos” e “ Tempo de Natal”, foram determinantes no crescimento do coro, assim como o trabalho realizado com Anita Morrinson, preparadora vocal do coro da Catedral de Westminster.

Helena, agradecemos a amabilidade em responder às nossas perguntas. Tem alguns sonhos para este coro que gostasse de concretizar a curto prazo? Há objetivos novos para breve?
Sonhos há muitos. Com a experiência vamos aprendendo que os sonhos só fazem sentido se não forem individuais, devem ser de todos e por tal ambiciono estar rodeada de grandes Pequenos Cantores, das suas famílias, e da equipa que garanta alcançarmos cada vez melhores resultados artísticos. A curto, médio prazo estamos a preparar uma masterclass, em julho, com um maestro inglês, que não vou adiantar já o nome pois estamos num processo de confirmação. Vamos gravar o próximo disco, em 2017, dedicado à Música Sacra Portuguesa, onde estarão presentes as obras que estreamos neste concerto, um motete do nosso compositor residente, Osvaldo Fernandes, uma Missa de Paulo Bastos e mais um Salmo de um grande compositor português mas vamos deixar a surpresa para o próximo ano. Em setembro devemos realizar uma pequena digressão para divulgação do repertório sacro português escrito e dedicado aos nossos projetos, o Coro de Pequenos Cantores de Esposende e o Coro Ars Vocalis, um coro júnior que está a dar os primeiros passos sendo o coro de continuidade do CPCE. Estes projetos são ambos em parceria com a Câmara Municipal de Esposende e estão inseridos naquilo que acreditamos ser uma estratégia municipal para a Educação.

António Pinho Vargas, Helena Venda Lima e a estreia de Stabat Mater

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