Gonçalo Lélis. Entrevista ao jovem violoncelista português.

Gonçalo LélisAlcançou o primeiro lugar no concurso Prémio Jovens Músicos, na categoria violoncelo nível superior mas não acredita para já numa possível carreira em Portugal. «Não creio que Portugal seja um país com um meio cultural muito propício a tal, contudo teria todo o gosto, se tal hipótese se tornasse possível para mim». Filho de professores do Conservatório de Música de Aveiro, Gonçalo Lélis cresceu num ambiente propício ao desenvolvimento artístico. Neste momento quer crescer ainda mais como músico e aproveitar a oportunidade de trabalhar com grandes mestres do violoncelo. «De momento, tento estudar o máximo possível e aproveitar as oportunidades que vão surgindo, ou seja, trabalhar com ótimos professores, tocar com outros jovens músicos de grande talento, concertos...».

Gonçalo, muito obrigado pela atenção que aceitaste dedicar aos nossos leitores. Recordas-te dos primeiros passos que deste na aprendizagem musical? A professora Isabel Boiça foi uma das peças fundamentais para que decidisses que a tua vida iria ser a música?
Os meus pais são ambos professores no Conservatório de Música de Aveiro (a minha mãe de violino e o meu pai de guitarra), pelo que desde muito pequeno que estive em contacto com um meio musical. Por volta dos 6 ou 7 anos, quando já me tinha fascinado pelo violoncelo (de certa forma graças a uma gravação do quinteto “A Truta”, de Schubert) entrei para o conservatório, onde estudei com a Professora Isabel Boiça. Foi uma fase muito importante para mim, pois penso que o primeiro professor tem um papel fundamental na relação que um aluno terá no futuro com o instrumento e com a música. Para além das aulas, a minha professora encorajava-me a participar em masterclasses com o Paulo Gaio Lima, Márcio Carneiro, Natalia Gutman, entre outros, o que me permitiu expandir os meus horizontes.

Goncalo LelisComo surgiu a possibilidade de ires trabalhar com Pavel Gomziakov?
Conheci o Pavel Gomziakov em 2009, numa masterclass de verão na universidade católica do porto. Estudei com ele nos três anos seguintes, enquanto paralelamente acabava o conservatório. Sem dúvida foi um momento decisivo para mim, um marco. Alterou completamente a minha forma de ver a música e também de como tocar violoncelo. Foi também Pavel Gomziakov quem me apresentou à Professora Natalia Shakhovskaya, com quem estudo atualmente. É uma pessoa a quem realmente devo muito, não só a nível musical mas também pessoal e humano. Ainda hoje, sempre que possível, aproveito para ter uma aula com este enorme músico.

Em 2013 entraste para a Escuela Superior de Musica Reina Sofia em Madrid. Foi um passo importante para ti? Porquê?
Entrar para a Escuela Reina Sofia foi uma espécie de “choque” para mim. Uma mudança de universo. Tinha acabado de sair do conservatório de música de Aveiro e de repente estava numa escola com um nível altíssimo, onde todos os alunos são extremamente talentosos e dedicados, pelo que as possibilidades de fazer música de câmara são muitas. Os professores são verdadeiras lendas do panorama musical: Natalia Shakhosvkaya, Zakhar Bron, Dmitri Bashkirov, para citar alguns nomes. Exigem nada menos do que o máximo de cada aluno. Tudo isto “obrigou-me” a procurar novos patamares e a trabalhar ao limite, com o objetivo de evoluir de dia para dia.

Os professores Ivan Monighetti e Natalia Shakhovskaya trouxeram-te novas perspetivas relativamente ao universo musical e ao próprio violoncelo?
São músicos, professores, muito diferentes, cada um com o seu próprio método de ensino, apesar de terem sido ambos alunos de Rostropovich. Ao passo que Shakhvoskaya é extremamente emocional, Monighetti talvez apele mais ao lado intelectual. Contudo, a combinação de ambos tem-me ajudado a fazer grandes progressos, pelos quais me sinto muito grato.

Nomes como Truls Mork, Natalia Gutman, Gary Hoffman, Heinrich Schiff, Lluis Claret, Jean-Guihen Queyras, Valentin Erben, Ralph Gothoni e Maria de Macedo também fizeram parte deste teu percurso formativo. O que absorveste de cada um deles?
É difícil especificar o que aprendi com cada um, mas posso dizer que é muito interessante entrar em contacto com novas perspetivas e ideias, pela ambiguidade inerente à arte. Cada músico tem a sua própria concepção de som, fraseio, carácter, etc. pelo que para o aluno é sempre uma experiência enriquecedora.

Ser tão jovem e já ter sido dirigido por nomes como Andras Schiff, Peter Eotvos, Stefan Lano, Josep Pons e Jesus Lopez-Cobos mostra que tens seguido na direção certa?
Mais importante do que estar a seguir na direção certa ou não, foram as próprias experiências em si. Trabalhar com estas pessoas foi uma grande honra para mim, com as quais pude aprender muito e tocar repertório fantástico em auditórios por toda a Espanha.

Goncalo LelisComo tem sido a tua experiência em Espanha? Tens tido oportunidade de tocar com regularidade? Quais os projetos que integras por lá?
A própria Escuela Reina Sofia oferece bastantes possibilidades no que diz respeito a concertos. Para além das audições de classe e recitais e variados programas de orquestra, tenho tido a oportunidade de fazer regulamente concertos de música de câmara em diversas cidades de Espanha. Aliás, no momento em que estava a responder a esta pergunta estava com o meu quarteto num comboio a caminho de um concerto em Córdoba.

Este ano será certamente inesquecível para ti e para todos os que fizeram parte deste teu percurso. O que sentiste ao alcançar o primeiro lugar no concurso Prémio Jovens Músicos, na categoria violoncelo nível superior?
Foi uma óptima experiência, pelo concerto com a orquestra Gulbenkian, pelas provas em si, e principalmente por todo o processo de preparação que me fez crescer muito. Penso também que obter este prémio ajudar-me-á a tocar recitais (ou concertos) em Portugal com mais frequência, o que neste momento seria um passo muito importante.

Pensas em voltar para Portugal para fazer carreira por cá?
Não creio que Portugal seja um país com um meio cultural muito propício a tal, contudo teria todo o gosto, se tal hipótese se tornasse possível para mim.

Muito obrigado, mais uma vez. Quais as tuas prioridades no que diz respeito a projetos musicais? Sonhas criar algo de novo no âmbito da música de câmara?
De momento, tento estudar o máximo possível e aproveitar as oportunidades que vão surgindo, ou seja, trabalhar com ótimos professores, tocar com outros jovens músicos de grande talento, concertos... Este ano planeio também participar em concursos (em trio) em Espanha e fazer alguns recitais para os quais fui convidado.

Gonçalo Lélis. Entrevista ao jovem violoncelista português.

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