Maria Mendes. O jazz de Portugal para o mundo.

Maria MendesMaria Mendes é um nome incontornável do jazz atual. De passagem pelo CCB e Casa da Música proporcionou-nos a entrevista que se segue. «Alguns músicos com quem dividi e ainda divido o palco foram e continuam a ser uma inspiração na aprendizagem para a minha música, a minha banda Holandesa e a minha querida banda Portuguesa. Ídolos sim, claro, muitos... Pat Metheny, Keith Jarret, Maria Schneider, Jacky Terrason, Chet Baker, Betty Cartet, Carmen McRae, Shirley Horn, Dianne Reeves, Bernardo Sassetti, Bill Evens, John Coltrane, Hermeto Pascoal, Elis Regina, Chico Buarque, Sting, Chopin, Debussy, Ravel, são os principais que nunca, nunca canso de ouvir».

Maria Mendes, muito obrigado por este tempo que agora dedica aos nossos leitores. A sua formação musical inicial foi clássica. Pode falar-nos destes primeiros passos no seu percurso formativo? Quando sentiu o chamamento do jazz?
A minha família sempre me proporcionou atividades especiais de sensibilidade artística, pelo que a submersão no jazz foi progressiva, mas sem dúvida que o que veio primeiro foi mesmo a música clássica pois ouvia-se lá em casa muitos CDs e discos de vinil de Vivaldi, Puccini, Chopin, bem como óperas e orquestras sinfónicas. A minha formação artística iniciou-se na Academia de Música de Vilar do Paraíso e no Conservatório de Música de Gaia em canto clássico e em piano. Foi com a curiosidade de remexer nos discos de Frank Sinatra e Nat King Cole, 'perdidos' nas estantes da casa dos meus pais, bem como nas longas viagens de carro em tempo de férias a ouvir a música preferida da minha irmã mais velha que, julgo, fui moldando o gosto pelas harmonias e ritmos diferentes. Aos 16 anos, numa tertúlia entre amigos, experimentei cantar pela primeira vez o 'My Romance' e o 'Over the Rainbow'. A sensação de liberdade abriu-me as portas para um universo que não quis perder mais. Após a conclusão do liceu e dos meus 7 anos de curso complementar de canto clássico, dediquei-me um ano a estudar e a aprofundar o Swing e algumas harmonias do jazz de modo a poder concorrer à ESMAE (Escola Superior de Música e das Artes do Espetáculo do Porto) para a licenciatura de jazz. A partir daí seguiram-se alguns meses no programa Erasmus na CODARTS (Conservatório Superior de Música de Roterdão) onde concluí o meu mestrado em canto jazz em 2009.

Houve professores que se tornaram marcantes ao longo da sua aprendizagem?
Dos meus tempos de música clássica, a professora Fernanda Correa. Dos meus primeiros passos no Jazz, a cantora portuense Fátima Serro; a cantora Holandesa Fay Claassen, grande motivadora da minha ida para a Holanda. Já durante o meu mestrado, a cantora clássica Connie de Jongh foi uma inspiração na técnica vocal e abordagem do fraseado vocal, musical e interpretativo; o trompetista jazz Jarmo Hogendijk, uma inspiração na abordagem da improvisação instrumental; o cantor de jazz Belga David Linx, uma força e inspiração na intensidade interpretativa vocal e, finalmente, a cantora Americana Sheila Jordan pelo legado musical na sua forma de cantar e pureza vocal.

Quais as suas principais influências musicais? Tem ídolos?
Alguns músicos com quem dividi e ainda divido o palco foram e continuam a ser uma inspiração na aprendizagem para a minha música, a minha banda Holandesa e a minha querida banda Portuguesa. Ídolos sim, claro, muitos... Pat Metheny, Keith Jarret, Maria Schneider, Jacky Terrason, Chet Baker, Betty Cartet, Carmen McRae, Shirley Horn, Dianne Reeves, Bernardo Sassetti, Bill Evens, John Coltrane, Hermeto Pascoal, Elis Regina, Chico Buarque, Sting, Chopin, Debussy, Ravel, são os principais que nunca, nunca canso de ouvir.

Vai estar em breve em Portugal para concertos em Lisboa e no Porto. Como sente que o jazz é encarado no seu país natal?
Infelizmente, não com a notoriedade necessária que acredito ser essencial para 'limpar' alguns ouvidos ao que se é exposto diariamente na rádio e online... Não me querendo estender muito nesta minha opinião, acho que a própria cultura (superficial) atual é muito frágil no acesso e oferta dos vários géneros musicais. Então, acho que o que alguns dos meus colegas portugueses têm feito pelo jazz através de associações, como por exemplo a portuense 'Porta Jazz', é de louvar, a partilha de atividades e concertos de jazz abertos ao público, muitas vezes de forma gratuita e apoiados pela câmara municipal, proporciona e aguça a oportunidade da promoção do jazz e dos músicos nacionais. Há público de nicho mas acredito que haja também um público geral, bem vasto e apreciador de géneros 'jazz friendly', que se fosse exposto a maior qualidade e quantidade de jazz, cresceria em conhecimento e apreciação do género! Uma coisa é certa, sinto-me muito acarinhada e agradecida com o público que vai aos meus concertos. Tem sido cada vez mais notório que os fãs acérrimos do clássico, do blues e do antigo rock e Soul sentem aquilo que eu canto e escrevo, talvez porque parte da minha escrita é uma confluência dos géneros e estilos musicais que ouço. Sabe bem 'limpar' os ouvidos com vários estilos de música, especialmente aqueles estilos a que a nova geração chama de 'música velha'!

Quincy Jones afirmou: “vejo um futuro brilhante e promissor para esta jovem cantora”. O que se sente quando se ouve um nome com este peso pronunciar estas palavras? Funciona como uma mola impulsionadora que a faz prosseguir no mesmo rumo?
É sempre uma surpresa o retorno do público, da imprensa e da crítica quando partilhamos o fruto do nosso trabalho (discos e concertos). Foi uma bela surpresa ouvir estas palavras do grande gigante do Jazz aquando do Festival de Jazz de Montreux. Sinto-me sempre agraciada e felizarda com os elogios que recebo referentes àquilo que faço e dou ao público, pois tudo advém da entrega pessoal diária que dedico ao que escrevo e componho. Para mim as palavras do Quincy Jones vaticinam uma responsabilidade acrescida da minha parte em continuar, de forma exemplar e séria, aquilo que faço.

Maria Mendes, InnocentiaLança agora o disco “Innocentia”. Como caracteriza este disco? O que traz de novo relativamente a “Along the Road”?
Enquanto no meu anterior disco 'Along The Road' quis explorar a minha ligação emocional e familiar com o Brasil numa descoberta criativa musical de grandes compositores e poetas, neste novo disco, quis expressar o músico que sou hoje. Sinto que sou um resultado de toda a experiência musical que vivi nestes últimos anos de digressão mundial com o 'Along The Road', bem como que os meus 10 anos de estudo de música clássica ainda me influenciam musicalmente. É nesta minha ligação com o passado clássico que também decidi trabalhar de forma arrojada em versões para a ária Cantilena das 'Bachianas Brasileiras' do Villa Lobos e para a sonatina que originalmente foi composta para piano solo, a Sonatina Coreográfica- Baião do compositor Radamés Gnatalli. As escolhas musicais e a minha escrita de originais neste disco tentam expressar algo que também quis aprofundar: a vulnerabilidade e nostalgia que invade a nossa essência humana, diariamente, nas diversas formas de amar.

Quais os principais nomes que a acompanharam em “Innocentia” e que não pode deixar de referir?
Toda a equipa que envolve músicos e também técnicos: Karel Boehlee, Clemens van der Feen, Jasper van Hulten e Anat Cohen; Martin Fondse, pela assistência na direção musical compartilhada comigo bem como pelo maravilhoso arranjo no 'When You Wish Upon a Star'; Ruben Montes, pelo maravilhoso apoio durante estes últimos 6 anos e por ser o excelente técnico de som que é; Peter Brussee, pela maravilhosa pintura musical através da masterização do Innocentia; Alexander van Popta, colaborador já por alguns anos em tertúlias/sessões musicais a compor e desenvolver canções; Connie de Jongh, Jarmo Hogendijk pela assistência musical. A inspiração musical das obras do Heitor Villa Lobos, Pat Metheny, Hermeto Pascoal, inspiração pessoal/musical através de experiências maravilhosas partilhadas com a família e amigos contribuíram muito para o resultado deste álbum.

A clarinetista Anat Cohen também a tem acompanhado nesta jornada. Como apareceu Anat Cohen na sua vida?
Conheço o trabalho da Anat desde os seus primeiros discos. Quando ela lançou o seu trabalho discográfico, "Claroscuro", apaixonei-me pela sonoridade, leveza e 'flirt' no fraseado improvisacional dela e, desde então tive a certeza de que gostaria de a ter como elemento integrante no disco, bem como nos concertos. Entretanto, o feliz destino reuniu-nos em Nova Iorque em 2014 quando estive em concerto no Blue Note Jazz Club. Encontrámo-nos nos dias seguintes, falámos sobre o papel dela no Innocentia que começava já a ser cozinhado na minha cabeça. A partir daí foi um pulo e é uma alegria imensa tê-la na equipa.

Pode dizer aos nossos leitores que outros músicos subirão ao palco consigo nos próximos espetáculos?
Em Portugal sinto-me uma felizarda por poder partilhar o palco com músicos que sempre admirei e que, nos tempos da ESMAE, através das suas composições e discos me proporcionaram uma fonte de trabalho e inspiração: Carlos Barretto no contrabaixo e João Paulo Esteves da Silva no piano. O baterista Joel Silva, meu colega de turma da ESMAE (já lá vão uns anos – mais de 10 – que tocámos juntos num dos combos da Superior de Música do Porto), juntar-se-á à secção rítmica. O Ricardo Toscano será um belíssimo elemento integrante nos concertos em Portugal. O clarinete tem um papel fundamental no Innocentia e estou muito feliz pelo Ricardo poder abrilhantar estes concertos com o seu maravilhoso clarinete.

Muito obrigado por estas partilhas. Que conselho deixaria àqueles que sonham ter uma carreira como a sua e que agora dão os primeiros passos na sua aprendizagem?
Nunca deixar a curiosidade morrer pois na situação de criação artística, o elemento principal é a curiosidade, a sede por aprender e experienciar mais! Muita persistência, tanto no estudo do instrumento, composição, arranjo, bem como no difícil mercado atual em questões de agenciamento de novos concertos e/ou da venda dos CDs. Apreciar cada pequeno momento que nos é dado em palco e escolher bem a equipa que nos rodeia: colegas, instrumentistas que valorizem aquilo que somos musicalmente mesmo que isso implique sermos diferentes em gosto e em nível de produção artística.

Maria Mendes. O jazz de Portugal para o mundo.

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