Carlos Tê. Uma conversa em torno da sua carreira.

Carlos Tê

Carlos Tê é o autor de letras de inúmeras canções que fazem parte do imaginário de várias gerações de portugueses. Nesta conversa, uma das coisas que nos chamou a atenção foi o carinho com que fala dos seus poemas, chegando mesmo a afirmar: «cheguei ao ponto de colaborar na produção porque eu olhava para as letras como pequenos filhos e achava que os músicos eram muito insensíveis e que poderiam destruir aquilo. Tive que dizer muitas vezes: “Olha que isto não pode ir para ali ou para acolá”. Assim, estando lá, eu poderia defender as minhas letras, ou pelo menos poderia conciliar os vários polos. É nesse jogo de conciliação das coisas que está o ganho muitas vezes. Posso mesmo afirmar que, não raras vezes, salvei o tema. Não a letra em si mas o tema como um todo. Uma coisa que não consigo é deixar passar uma coisa com argumentos do género: “Olha, não está como eu quero, mas está bem... está razoável..., está bonitinho.” Não. Enquanto estamos no processo temos que tudo fazer para que saia dali algo com que nos sintamos bem».

Muito obrigado por nos receber para partilhar um pouco da sua carreira e um pouco da sua obra. Em que altura da sua vida se apercebeu de que esta iria passar pela escrita?
Muito tarde. Eu já deveria ter uns 30 anos. Até certa altura eu escrevia mas pensava que aquilo que me estava a acontecer era uma coisa episódica. Portugal era um país para o qual as questões artísticas não tinham grande importância, já nem falo do teatro onde as coisas ainda eram mais precárias. Portanto sempre pensei que aquilo que estava fazer seria algo ocasional, mas não, foi-se aguentando. Então por volta dessa idade percebi que as coisas poderiam resultar, numa altura que até o próprio país estava a mudar. Estava a consolidar-se uma nova geração de músicos, o que também tinha a ver com o aspeto comunicacional do país consigo próprio. Também tive a sorte de estar no sítio certo, na hora certa. Depois também me fui questionando, pois uma das áreas de que gosto muito é a história. Percebi então que as coisas estavam a mudar e agarrei a oportunidade.

Carlos TêJá escrevia antes de 1974, ou seja antes do 25 de Abril?
Sim, já escrevia muito em inglês porque faço parte de uma daquelas gerações zangadas com o país. Era daquelas pessoas que na adolescência acreditava que tinha nascido no país errado. Sentia-me mais inglês ou americano que português. Isto tinha muito a ver com as coisas que eu lia e com o tipo de cultura que procurava. Na literatura eu conhecia mais coisas anglo-saxónicas do que portuguesas. É incrível mas eu só conheci Fernando Pessoa depois do 25 de abril.

A sua paixão pela música também foi crescendo mais com o que ouvia lá de fora...
Sim, porque era no que vinha de fora que estavam as coisas que eu procurava, ou seja, valores básicos como a liberdade de expressão. É muito difícil de explicar isto a um jovem dos nossos dias, mas Portugal era um país muito fechado. Não se podia sair de Portugal se não tivesse passaporte. Para ir a Lisboa era já uma grande odisseia... demoravam-se umas 8 horas.

É mesmo verdade que o seu nome “Carlos Tê” vem dessa paixão exacerbada pela música?
É porque eu na altura, com os meus 14 anos, estava tão embrenhado nesse mundo que vinha de fora que me transformei numa espécie de “nerd” da música. Eu sabia o que é que tinha saído, o que ia sair... Eu ia à Bertrand comprar 3 jornais que eram “New Muscial Express”, “Sounds” e “Melody Maker”. Podia-se dizer que eu era uma espécie de pessoa bem informada (risos). Sabia tudo sobre os concertos que iam acontecer, os discos que iam sair... Os meus colegas vinham ter comigo para eu os colocar a par de tudo. Era como se eu vivesse lá fora, embora estando aqui. O “T” (mais tarde “Tê”) vem de me acharem um tarado, um chato que sabia aquelas coisas todas (risos). Funcionava como uma espécie de evangelizador que catequisava aqueles meus colegas todos. Dizia-lhes: “Ouçam isto, ouçam aquilo... isto já passou...”.

Sabemos que começou a trabalhar muito cedo. Pensa que este fator influenciou muito a sua forma de ver o mundo e que isso acabou por se refletir na sua escrita?
Sim, podemos dizer que sim, sobretudo nas vivências. O processo de escrita é sempre cultural, e vai evoluindo com o nosso crescimento. O que nós vamos construindo deriva muito daquilo que vamos ouvindo, das coisas que vamos lendo e, juntamente com as vivências, pode resultar num produto diferente.

Carlos Tê

Podemos dizer que algumas das letras que escreveu são autobiográficas?
Não. Não são autobiográficas. Quando comecei a escrever algumas coisas, havia por parte das pessoas uma tentativa de reconhecimento... “Mas quem é que escreveu isto?” No fundo era eu dizer o que via nas outras pessoas. Uma das coisas que eu gostava era de colocar outras pessoas a falar nas minhas canções. Por exemplo, a seguir ao 25 de abril, achava piada colocar-me na pele de um operário ou de um camponês. Considerava aquilo uma transgressão engraçada, própria da época. Esses exercícios eram ótimos porque muitas vezes estavam condenados ao falhanço mas, como o modo como se faz é que constitui a aprendizagem... Eu percebi isto ainda recentemente ao ler uma citação do Elvis Costello na qual ele dizia exatamente isto. Nós começamos por imitar os mestres mas, ao falhar, vamos encontrando a nossa própria forma de fazer. É nesses falhanços sucessivos que crescemos.

Foi essa busca constante que o levou a procurar a filosofia?
A Filosofia estava ligada à minha busca pelo entendimento comum embora eu gostasse mais de História. Percebi isto mesmo quando já estava a estudar filosofia mas já era tarde para voltar atrás (risos). Eu comecei a estudar filosofia um ano depois desta e a história se terem bifurcado porque anteriormente faziam parte do mesmo curso. Mesmo tendo estudado filosofia, eu gostava muito mais de história.

O Pop e o Rock eram os géneros que mais ouvia naquela fase que importava os discos ou havia outros géneros que se metiam ali pelo meio?
Isso foi uma das coisas que comecei a perceber com o tempo, ou seja, não é possível compreender a música sem entender o que ficou para trás. Só com o passar da idade é que fui assimilando isso. Cada vez me fui interessando mais pelo que tinha ficado para trás, como por exemplo, Bach. Acabei por ouvir toda a música embora alguma tivesse vergonha de admitir que ouvia, como é o caso da música portuguesa, o nacional cançonetismo... (risos). Todas essas coisas se vão interiorizando e vão-se fundindo naquilo que fazemos. No entanto, é claro que ouvia mais aquelas músicas inglesas que eu considerava e ainda considero brutais. A grande influência da música inglesa continua bem patente na essência do rock e do pop. Claro que também havia todo o filão negro, desde os blues, passando pela soul, tudo me interessava, como por exemplo o folk britânico. E agora percebo mais uma vez que estas reflexões não são só minhas. O Elvis Costello lançou um livro autobiográfico no qual fala precisamente sobre isso. Sendo ele filho de um cantor escocês, ele percebeu que a grande música anglo-saxónica, que ainda hoje domina o espectro mundial da cultura popular, dá-se exatamente no cruzamento da música escocesa e inglesa com a música negra quando se encontram algures ali no centro da América com o jazz, a pop, etc.

Carlos TêQuando está a escrever uma letra, fá-lo já tendo em conta uma melodia, mesmo que depois esta letra venha a ter uma melodia diferente ao ser entregue a outro artista?
Sim. Muitas vezes pegava na guitarra para fazer uma melodia que serviria somente de sustentáculo para uma letra ficando já um esqueleto montado.

Já escreveu para tantos artistas e tandos grupos... O processo é sempre o mesmo? Escreve para que depois o poema seja musicado ou entregam-lhe uma música para que construa uma letra em função de uma melodia pré-existente?
Não. Errado. Esse último que referes não é um processo do qual eu goste. Lembro-me que no Brasil isso é uma prática comum. O Chico Buarque e o Caetano Veloso, trabalham muito nesse sistema. Fazem uma música e depois “enfiam” lá com uma letra. Acaba por ser um desafio também... Mas é algo muito trabalhoso e dá-me sempre a sensação de que não vai ficar bem.

Considera que isso pode cortar algumas ideias?
Não, pelo contrário, pode também trazer novas ideias até. Eu é que me habituei mais ao primado da escrita. Para mim era sempre um mistério escrever uma letra e perceber depois para onde é que aquilo ia. Às vezes ia para sítios surpreendentes que eu nunca esperaria. Outras vezes implicava até que eu alterasse a própria letra.

Era também uma das perguntas que lhe queríamos fazer... Já escreveu letras para o Rui Veloso, Clã, Trovante, Salada de Frutas, Jafumega... Alguma vez teve que alterar a letra por causa de um compasso ou ritmo diferente? Teve receio que isso alterasse a ideia inicial daquilo que tinha escrito?
Não. É uma questão de bom senso. No entanto eu cheguei ao ponto de colaborar na produção porque eu olhava para as letras como pequenos filhos e achava que os músicos eram muito insensíveis e que poderiam destruir aquilo. Tive que dizer muitas vezes: “Olha que isto não pode ir para ali ou para acolá”. Assim, estando lá, eu poderia defender as minhas letras, ou pelo menos poderia conciliar os vários polos. É nesse jogo de conciliação das coisas que está o ganho muitas vezes. Posso mesmo afirmar que, não raras vezes, salvei o tema. Não a letra em si mas o tema como um todo. Uma coisa que não consigo, é deixar passar uma coisa com argumentos do género “Olha, não está como eu quero, mas está bem... está razoável..., está bonitinho.” Não. Enquanto estamos no processo temos que tudo fazer para que saia dali algo com que nos sintamos bem.

Carlos TêTambém já foi cronista dos jornais “Público” e “Expresso”. Foi algo que abraçou com paixão ou também houve uma certa dose de subsistência para o “escritor”?
Esses projetos surgiram sempre por convite. Nunca decidi que iria escrever uma crónica porque tinha algo para dizer ao país e ao mundo (risos). Foi sempre alguém que me convidou e eu tinha duas hipóteses: ou dizia não, ou dizia sim. Como sempre fui um tipo curioso aceitei. Sou um bocado como o Chico Buarque. Não me interessa fazer o que já sei, gosto de fazer o que ainda não fiz.

Também é autor de alguns musicais. Este tipo de composição dá-lhe a oportunidade de ser mais descritivo?
Sim, é verdade. Aí, o que prevalece é o facto de as canções servirem a ação não sendo o foco principal.

Também nestes casos acompanha de perto o trabalho de produção?
Sim. Há sempre essa possibilidade. Eu não quero falhar por omissão, quero falhar por não saber fazer melhor, que é uma coisa bem diferente.

Há uma pergunta que vários jovens que agora começam a dar os primeiros passos na escrita devem fazer e que se prende com a sustentabilidade da sua própria profissão. Será possível uma pessoa nos dias de hoje viver só da sua escrita?
Agora acho que não. Sinceramente, desde que a indústria musical se converteu para outra coisa, uma coisa muito mais imaterial em que os discos deixaram de vender, há a possibilidade de sobreviver desde que se seja também músico. Quero com isto dizer que é possível desde que se seja autor e artista, pois pode escrever as suas próprias canções, o seu próprio material, tocá-lo ao vivo. Escrever somente para entregar aos músicos tornou-se altamente inviável.

Muito obrigado por esta proveitosa conversa que nos proporcionou. Tem projetos novos na calha?
Não. Se eu fosse músico e tocasse ao vivo, até teria mais algumas coisas que gostaria ainda de fazer. Agora, escrever uma canção para A ou para B... escrevi agora uma canção para a Ana Moura... aliás já a tinha escrito há uns 10 anos...

Ainda tem muitas letras que estão por cantar?
Sim mas para me meter a fazer algumas coisas com elas talvez ainda tivesse que pagar e isso seria ruinoso (risos).

Carlos Tê. Uma conversa em torno da sua carreira.

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