Javier Ortí. Entrevista ao saxofonista espanhol

Javier OrtíAproveitando o facto de Javier Ortí passar por Portugal para participar no Algarve Brass Forum, fizemos uma entrevista na qual o músico espanhol nos disse que «o jazz em Espanha está de boa saúde, tanto na qualidade como na preparação dos músicos. Há muita gente a fazer coisas muito interessantes. O nível subiu muito. Mas o nível dos músicos não é proporcional ao número de locais para tocar. Há poucos sítios para tocar em Espanha. Nos festivais predominam os músicos que enchem as grandes salas. São estes que são procurados pelos programadores. Assim, há músicos muitos bons, que desenvolvem projetos de alto nível em Espanha que, não conseguindo a sua oportunidade de figurar nos cartazes dos festivais seguem o seu caminho tocando em bares e salas sem que consigam chegar a estes circuitos de música maiores».

Muito obrigado por nos conceder esta entrevista. Quando começou a estudar música aos 7 anos na Banda de Isla Cristina em Huelva já sonhava vir a ser um dia músico profissional?
Não. Com 7 anos de idade ainda não sabia nem projetava ainda o meu futuro. No entanto, recordo-me de que a música me encantava e de que passava muitas horas junto de um piano de brinquedo do qual extraía algumas melodias. Recordo-me de um dos primeiros concertos que vi da banda da minha terra, Isla Cristina. Esse concerto marcou-me muito porque, mesmo sendo muito jovem, teria 6 ou 7 anos, transmitiu-me a certeza de que viria a tocar ali.

Andrés Gomis foi decisivo em muitas das suas escolhas. Quais as principais influências absorvidas nesta experiência?
O Andrés ensinou-me muitas coisas, tanto musicais como ao nível da atitude perante a vida, ele é um trabalhador nato. Mas a coisa mais importante que me ensinou foi a técnica do saxofone. Trabalhámos muito o som, a articulação, a afinação, técnicas contemporâneas e, acima de tudo aprendi a questionar-me e a pesquisar sobre todas estas temáticas. O Andrés é incansável. Sabíamos as horas de início das aulas mas nunca sabíamos as horas em que terminariam. Todos nós estávamos dispostos a absorver tudo aquilo que o professor tinha para nos ensinar.

Javier OrtiJerry Bergonzi, Arturo Serra, Bill McHenry, Jorge Pardo, George Garzone e Dave Santoro são também nomes indissociáveis do seu percurso musical?
Sim. Todos eles mas com especial enfoque para os três primeiros. Bergonzi foi uma referência para mim e continuará a ser. A sua forma de ver a música, como trabalha os conceitos e o seu som, encantam-me. Arturo ensinou-me e motivou-me muito e mostrou-me os caminhos para o estudo do jazz. Bill foi uma descoberta. Encantou-me a sua filosofia de trabalho e a forma como entende a música.
Ouço muito Jorge Pardo desde pequeno. Ele é um dos melhores músicos espanhóis e tem influenciado muitos de nós. Só uma vez tive a oportunidade de estudar com o Garzone mas recordo-me que houve uma grande química entre os dois.Aprendi muito no seu curso. Santoro vinha aos seminários con Bergonzi e dava-nos umas aulas incríveis de teoria musical. Naquele tempo ainda havia muitas coisas que não entendia, mas com o passar do tempo ajudaram-me muito.

O Jazz é a sua maior paixão?
Sim, juntamente com a minha família.

Como caracteriza o jazz em Espanha? É um género musical muito difundido?
Creio que atualmente o jazz em Espanha está de boa saúde, tanto na qualidade como na preparação dos músicos. Há muita gente a fazer coisas muito interessantes. O nível subiu muito. Mas o nível dos músicos não é proporcional ao número de locais para tocar. Há poucos sítios para tocar em Espanha. Nos festivais predominam os músicos que enchem as grandes salas. São estes que são procurados pelos programadores. Assim, há músicos muitos bons, que desenvolvem projetos de alto nível em Espanha que, não conseguindo a sua oportunidade de figurar nos cartazes dos festivais seguem o seu caminho tocando em bares e salas sem que consigam chegar a estes circuitos de música maiores.

Javier OrtiTem dividido o palco com grandes nomes da música tais como Perico Sambeat, Julian Sanchez, Bob Sands, Zé Eduardo, Dulce Pontes, Maria João, Ennio Morricone, Miguel Martins, Juan Galiardo, Arturo Serra, Ernesto Aurignac, Pedro António Mesa e Cortejosa. Sente-se um músico bafejado pela sorte? Sente-se um privilegiado?
Desde logo, tocar com músicos da craveira dos que acaba de referir é algo muito especial. Estou sempre disponível para estes projetos.

Para além de performer, é também professor. Onde leciona neste momento?
Atualmente sou professor do «Conservatorio Profesional de Música “Francisco Guerrero” de Sevilla».

Tenta incutir nos seus alunos o gosto por tocar em grupo? Os combos e as Big Bands são fontes de partilhas imprescindíveis?
Sim, claro. Deve estudar-se e praticar-se em casa mas, tocando com outros músicos é que o aluno poderá desenvolver realmente a sua prática. No conservatório onde leciono também temos uma Big band e este ano temos um combo que está a funcionar muito bem.

O que pensa transmitir no “Saxofone Talks” do primeiro “Algarve Brass Forum”? Há alguma mensagem especial?
Bem... ainda não pensei nisso... (risos). Estava a brincar. Irei transmitir o máximo de ilusão e de sonho possível. Estarei à disposição dos participantes. Para mim, fazer música é algo muito especial e é uma boa forma de nos evadirmos e de desfrutar da vida.

Pensa que eventos como o “Algarve Brass Forum” dão mais força à música e aos músicos?
Sim. Qualquer evento em torno da música pode ser muito importante. Conheces outros músicos, novos materiais, assistes a palestras, conferências, masterclass... É uma boa oportunidade para o público ver concertos, socializar, apreciar a cozinha... Considero uma iniciativa muito interessante e as diferentes entidades governamentais devem estimular e apoiar mais.

Quais as principais diferenças que encontra entre o meio musical espanhol e o português?
Se calhar, nenhuma. Creio que estamos muito geminados. Gosto muito dos músicos portugueses. Têm muito nível. São músicos muito bons. Lembro-me de, há alguns anos atrás, me chamar a atenção, o facto de se ouvir muito jazz na zona do Algarve. Ouvia-se mais do que na área de Huelva, onde eu morava. Agora não há muito movimento na Andaluzia em torno do jazz, terá alguns anos para crescer. Temos que continuar a unir a nossa música.

Mais uma vez agradecemos a sua amabilidade. Por onde protagonizará espetáculos em breve?
Eu é que agradeço. Foi um prazer. Depois do “Algarve Brass Forum” estarei a tocar no dia 15 de outubro no Café Jazz Naima en Sevilla e no dia 16 com a “Andalucia Big Band” em Moguer (Huelva). Os que quiserem saber mais sobre os meus concertos e sobre a minha atividade poderão visitar o meu site (javierortimusic.com) Abraço.

Javier Ortí. Entrevista ao saxofonista espanhol

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