Luísa Rocha. O fado inato.

Luísa Rocha«Este é um período muito particular no fado. Todos os dias aumenta a curiosidade de conhecimento sobre o género musical que representa grande parte da nossa cultura. A minha memória vai até á instrução primária, quando dizia que queria ser fadista. Os olhares perdiam-se sobre mim, como se eu fosse uma raridade. O Fado tem que ocupar o lugar que merece, principalmente em Portugal. Foi neste sentido que tantos fadistas, como por exemplo a nossa saudosa Amália Rodrigues, o dignificaram e projetaram tanto a nível nacional como internacional. Se hoje o fado atravessa um bom período, foi porque as gerações anteriores trabalharam e acreditaram que era possível!» Luísa Rocha

Luísa Rocha, muito obrigado por brindar os nossos leitores com esta entrevista. “Não fales por falar” é o título do novo single que sai do disco “Fado Veneno”. Considera que há muita gente que “fala por falar”?
"Não fales por falar" foi escrito por Jorge Fernando e musicado por Guilherme Banza, com quem tenho o privilégio de trabalhar, crescer e aprofundar diariamente os meus conhecimentos. Não tenho dúvida alguma que as palavras podem ferir mais que uma agressão física. A dor psicológica pode ser irreversível e quando determinadas palavras são ditas por pessoas que amamos e em quem acreditamos, doem muito mais.
Esta letra impõe-se, como questão à nossa reflexão enquanto ser humanos. Talvez já tenha "falado por falar", mas não gosto de deixar nada por dizer. Agora, a verdade é que a maturidade nos ajuda a fazer a triagem entre as palavras certas na altura certa. Este processo acontece naturalmente a todos. Até lá, o melhor é ir ouvindo o " Não fales por falar" e refletir.

Como referimos, o seu último disco tem como título “Fado Veneno”. Houve alguma razão especial para optar por este título?
"Fado Veneno" surge da letra escrita por José Carlos Malato, gravada no fado Porto de José Joaquim Cavalheiro. Esta letra tem uma particularidade muito rara e muito interessante. Quando cantamos o amor ou o desamor, há quase sempre uma tendência para culpabilizar o parceiro. Aqui existe uma mulher cheia de caráter, capaz de admitir que o seu amor não é compatível com o da outra pessoa e explica claramente que esta separação na dose certa é remédio; na dose errada poderá ser "Veneno"

Luísa RochaComo tem sido recebido este disco?
A estreia parcial do "Fado Veneno" ao vivo foi no dia 18 de setembro no festival Caixa Alfama. O feedback do público deixou-me extremamente emocionada, terminámos o concerto de alma cheia cantando em coro "Não fales por falar". Espero voltar a sentir o mesmo já no próximo dia 16 de outubro no CCB.

Houve também honras de estreia no programa de Michael Rossi na BBC 3...
Michael Rossi, produtor na BBC 3, é um apaixonado por Fado. Numa das suas visitas a Portugal, conheceu o meu disco de estreia "Uma Noite De Amor" que passou a fazer parte da playlist do seu programa"Late Junction". Antes de ter terminado as gravações do "Fado Veneno" veio a Portugal, gravou ao vivo no "Faia" alguns temas do primeiro disco num ambiente bem tradicional para transmitir aos seus ouvintes. Por esta altura mostrei-lhe o trabalho que estava a desenvolver para o álbum "Fado Veneno" e aí surgiu o convite para estrear o disco no seu programa.

Em que altura da sua vida percebeu que o Fado iria estar sempre presente e até poderia ser “profissão”?
Desde de muito criança que senti que o fado seria o único caminho possível e urgente para a minha vida.

Quais os artistas/músicos que mais a influenciaram?
Amália Rodrigues, Fernanda Maria, Maria Teresa Noronha, Beatriz da Conceição, Maria José da Guia, Alfredo Marceneiro, Carlos Zél, Max, Fernando Maurício, António Rocha entre tantos outros...

“Uma Noite de Amor” também foi um trabalho muito importante. Concorda? Hoje faria alguma coisa diferente neste disco?
"Uma Noite De Amor" foi um passo muito importante no meu percurso tendo em conta que já cantava como profissional há 10 anos quando decidi que estava na hora de fazer um disco. Dei tudo o que tinha na altura. Tive sempre bem presente os ensinamentos que recebi dos mais antigos: respeitar e dignificar todo o trabalho que fizeram para que hoje tenhamos um caminho mais facilitado e dar continuidade ao nosso fado.

Carlos Manuel Proença tem sido uma constante na produção dos seus discos. É apologista da máxima “em equipa que ganha, não se mexe”?
O Carlos Manuel Proença é filho da grande Fadista Maria Amélia Proença. Ainda antes de nascer já ouvia fado. Este motivo não lhe confere genialidade é um facto, mas a sua obra fala por ele. É muito importante o convívio e a cumplicidade entre toda a equipa, que ele lidera com a mestria de quem conhece e respeita o tradicional sem medo de arriscar na inovação. Agora, como é óbvio, não conheço o futuro.

Luísa RochaQue outras pessoas não pode deixar de mencionar e que estiveram na origem deste último trabalho, Fado Veneno?
A lista seria sinceramente enorme. Todos os que contribuíram de alguma forma para a realização deste trabalho são igualmente importantes, não só pelo trabalho mas também pela amizade que nos une. Sabem todos exactamente quem são e que a minha gratidão é imensa.

O fado vive, em sua opinião, um período de ouro?
Este é um período muito particular no fado. Todos os dias aumenta a curiosidade de conhecimento sobre o género musical que representa grande parte da nossa cultura. A minha memória vai até á instrução primária, quando dizia que queria ser fadista. Os olhares perdiam-se sobre mim, como se eu fosse uma raridade. O Fado tem que ocupar o lugar que merece, principalmente em Portugal. Foi neste sentido que tantos fadistas, como por exemplo a nossa saudosa Amália Rodrigues, o dignificaram e projetaram tanto a nível nacional como internacional. Se hoje o fado atravessa um bom período, foi porque as gerações anteriores trabalharam e acreditaram que era possível! Agradecer-lhes e dar continuidade a todo este processo é a nossa maior responsabilidade.

Há uma forte “concorrência” entre as vozes femininas do fado em Portugal?
Não ouço outras vozes como concorrência. Sinto que há muita gente apaixonada pela misteriosa magia existente neste canto.

Receia que o fado se banalize no meio de tantas tentativas de o modernizar e inovar?
O fado, tal como outros géneros, vai cruzando naturalmente influências musicais e culturais diversas. Trazer inovação com a capacidade de o fazer sem ferir a tradição é um caminho que em nada me incomoda.

Há projetos que ainda não tenha concretizado e que gostasse de realizar em breve?
Neste momento estou muito focada na divulgação deste novo álbum e, para breve, o objetivo será levá-lo a todos os cantos do mundo.

Muito obrigado por este tempo que dedicou aos nossos leitores. Para terminar deixamos-lhe seis perguntas de resposta rápida e direta.

Qual o último livro que leu?
Nocturno Europeu - Rui Nunes

Qual o último filme que viu?
Não Percas Focus

Pratica desporto?
Sim

Prato preferido...
Arroz de marisco

Atividade preferida para os tempos livres...
Brincar com a minha filha.

Luísa Rocha. O fado inato.

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